elogio_loucura
78 pág.

elogio_loucura

Disciplina:Filosofia e Ética2.204 materiais65.570 seguidores
Pré-visualização36 páginas
outro casa-se com o dote e não com a moça;
outro prostitui a própria mulher vendendo-a ao primeiro que encontra; outro, finalmente,
agitado pelo demônio do ciúme, espia como um Argos a conduta da esposa. E que coisas
estranhas não se dizem e fazem quando morre um parente próximo? Chega-se ao ponto de
pagar a pessoas que finjam chorar e gesticulem como cômicos. Quanto maior é a alegria
experimentada pelo coração, tanto maior é a tristeza que o rosto aparenta, o que deu origem
ao provérbio grego: Chorar na sepultura da madrasta. Este tira o quanto pode, seja de onde
for, e dá tudo de presente à própria barriga, com o risco de morrer de fome depois de
satisfeita a gulodice; aquele põe toda a sua felicidade no ócio e no sono; há alguns que,
preocupados sempre com os negócios alheios, descuram inteiramente dos próprios
interesses; vêem-se os que contraem dívidas para pagar as dos outros e, quando se julgam
ricos, verificam que estão falidos; há os que, vivendo pobremente, não conhecem outra

Elogio da Loucura - Erasmo de Rotterdam

file:///C|/site/livros_gratis/elogio_loucura.htm (38 of 78) [18/1/2003 15:48:26]

felicidade senão a de enriquecer os seus herdeiros; outros, ávidos de riquezas, percorrem os
mares em busca de um ganho incerto, confiando às ondas e aos ventos uma vida que
nenhum ouro do mundo poderia resgatar; outros, sedentos de sangue, preferem tentar a sorte
no meio dos perigos e dos horrores da guerra a passar seus dias, cômoda e tranqüilamente,
no seio da família; enfim, gabam-se de uma gorda herança, quando conseguem apoderar-se
do ânimo de algum velho que está para morrer sem herdeiros, ou quando têm a fortuna de
cativar a graça e o favor de uma rica velhota. Mas, depois, como se riem os deuses, ao
verem esses pescadores de dinheiro nas próprias redes!
 Os negociantes, sobretudo, são os mais sórdidos e estúpidos atores da vida humana: não
há coisa mais vil do que a sua profissão, e, como coroamento da obra, exercem-na da
maneira mais porca. São, em geral, perjuros, mentirosos, ladrões, trapaceiros, impostores.
No entanto, devido à sua riqueza, são tidos em grande consideração e chegam a encontrar
frades aduladores, particularmente entre os mendicantes, que lhes fazem humildemente a
corte e publicamente lhes dão o nome de veneráveis, a fim de lhes abiscoitar uma parte dos
mal adquiridos tesouros. Vêem-se, também, alguns sequazes de Pitágoras, que adotando a
opinião desse filósofo, segundo a qual todos os bens são comuns, usurpam concientemente
tudo o que podem, como se conseguissem uma herança legítima. Outros, imaginando-se
ricos, arquitetam belíssimas quimeras de fortuna e vivem felizes nas suas esperanças.
Alguns querem passar por ricos, embora às vezes chegue a lhes faltar o necessário. Um
apressa-se a esbanjar todos os seus bens, enquanto outro está sempre preocupado em
acumular, por meios lícitos, tudo o que pode. Há os que anseiam por obter um cargo, e os
que, acima de tudo, preferem viver ociosamente sentados a um canto do lar. Enfurecem-se
as partes com a demora do processo, parecendo apostar qual das duas tem mais a
possibilidade de enriquecer um juiz venal e um advogado prevaricador, cujo intuito não é
senão prolongar a demanda, que só para eles traz vantagens. Os homens agitados e
sediciosos andam sempre atrás de novidades, enquanto os inquietos meditam grandes
empresas. Alguns empreendem uma romaria a Jerusalém, a Roma, a São Tiago, onde não
têm nada que fazer, enquanto deixam abandonados em casa a mulher e os filhos, que tanto
necessitam de sua presença.
 Se, finalmente, pudésseis observar, do mundo da lua, como o fez Menipo, as inúmeras
agitações dos mortais, decerto acreditaríeis estar vendo uma densa nuvem de moscas ou de
pernilongos brigando, insidiando-se, guerreando-se, invejando-se, espoliando-se,
enganando-se, fornicando-se, nascendo, envelhecendo, morrendo. Não podeis sequer
imaginar os horrores e as revoluções com que enche a terra esse animalzinho, tão pequeno e
de tão pouca duração, que vulgarmente se chama homem.
 Quantas vezes um rápido turbilhão guerreiro ou pestífero basta para subtrair e dizimar
num momento muitos milhares de homens! Mas, eu própria seria profundamente estúpida e
mereceria que Demócrito se risse de mim a valer, se pretendesse descrever todas as
extravagâncias e loucuras do vulgo. Passemos, pois, a falar dos que conservam, entre os
homens, uma aparência de sabedoria e possuem, como dizem eles esse ramo de ouro de
Virgílio.
 Entre esses, ocupam o primeiro posto os gramáticos, ou sejam os pedantes. Essa espécie
de homens seria decerto a mais miserável, a mais aflita, a mais malquista pelos deuses, se eu
não tivesse o cuidado de mitigar os incômodos de tal profissão com gêneros especiais de
loucura. Não estão eles sujeitos apenas às cinco pragas e flagelos do epigrama grego, mas
ainda a seiscentos outros. Sempre famélicos e sujos nas suas escolas, ou melhor, nas suas

Elogio da Loucura - Erasmo de Rotterdam

file:///C|/site/livros_gratis/elogio_loucura.htm (39 of 78) [18/1/2003 15:48:26]

cadeias ou lugares de suplícios e de tormentos, no meio de um rebanho de meninos,
envelhecem de fadiga, tornam-se surdos com o barulho, ficam tísicos com o fedor e a
imundície. No entanto, quem o diria? Graças a mim, os pedantes se julgam os primeiros
homens do mundo. Não podeis imaginar o prazer que experimentam fazendo tremer os seus
tímidos súditos com um ar ameaçador e uma voz altissonante. Armados de chicote, de vara,
de correia, não fazem senão decidir o castigo, sendo ao mesmo tempo partes, juizes e
carrascos. Parecem-se mesmo com o burro da fábula, o qual, por ter às costas uma pele de
leão, julgava-se tão valoroso como este. A sua imundície afigura-se-lhes asseio; o fedor
serve-lhes de perfume; e, acreditando-se reis em meio à sua miserabilíssima escravidão, não
desejariam trocar as próprias tiranias pelas de Falaris ou de Dionísio (79). O que, sobretudo,
contribui para torná-los felizes é a idéia que fazem da própria erudição. Embora não façam
senão meter palavras insignificantes e insulsas frivolidades na cabeça das crianças confiadas
aos seus cuidados — santo Deus! — consideram um nada diante deles os Palêmones e os
Donatos (80). Nem mesmo sei com que meios conseguem lisonjear as estúpidas mães e os
idiotas pais dos alunos, ao ponto de serem realmente considerados como os ilustres homens
que eles próprios se inculcam. Acrescentemos a isso outro gênero de prazer por eles
experimentado toda vez que conseguem descobrir, num velho papelucho todo sujo e comido
de traças, o nome da mãe de Anquises ou alguma palavra geralmente desconhecida, —
bubsequam, por exemplo, bovinatorem, manticulatorem — ou quando têm a sorte de
encontrar um pedaço de lápide antiga, na qual se encontrem caracteres truncados. Ah! por
Júpiter imortal! que tripúdio, que triunfo, que aplausos! Não foi certamente maior a alegria
de Cipião ao subjugar a África, nem a de Dario ao conquistar a Babilônia. É indizível a
alegria experimentada por esses pedantes, quando, ao lerem de porta em porta os seus versos
gelados e insulsos, encontram por acaso algum admirador. Logo se julgam novos Virgílios e
não sei se se gabam de que a alma de Marão lhe tenha passado pelo cérebro. Oh! como é
bonito vê-los trocar, entre si, elogio por elogio, admiração por admiração, lisonja por
lisonja! Se acontece que um homem da arte erra em alguma sintaxe e outro mais penetrante
do que ele o percebe — santo Deus! — que cenas, discussões, que injúrias, que invectivas!
 A propósito de gramática, quero contar-vos uma bonita história: a história é verídica e, se
eu estiver mentindo, quero ter todos os gramáticos contra mim (vede só que terrível
declaração!). Conheço um homem de sessenta anos que conhece perfeitamente o grego, o
latim, as matemáticas, a filosofia, a medicina. Pois seríeis capazes de advinhar com que se
preocupa esse sábio universal, há uns vinte anos? Tendo abandonado todos