elogio_loucura
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não fosse, precisaria eu mesmo fazer
uma sátira a meu respeito, com todas as particularidades que atribuo aos outros. Além disso,
quem se insurge em geral contra todos os aspectos da vida não deve ser inimigo de ninguém,
mas unicamente do vício em toda a sua extensão e totalidade. Se houver, pois, alguém que
se sinta ofendido por isso, deverá procurar descobrir as suas próprias mazelas, porque, do
contrário, se tornará suspeito ao mostrar receio de ser objeto da minha censura. Muito mais
livre e acerbo nesse gênero literário foi São Jerônimo, que nem sequer perdoava os nomes
das pessoas! Nós, porém, além de calarmos absolutamente os nomes, temperámos o estilo,
de forma que o leitor honesto verá por si mesmo que o meu propósito foi mais divertir do
que magoar. Seguindo o exemplo de Juvenal, em nenhum ponto tocámos na oculta cloaca de
vícios da humanidade, nem relevámos as suas torpezas e infâmias, limitando-nos a mostrar o
que nos pareceu ridículo. Se, apesar de tudo, ainda houver ranzinzas e descontentes, que ao
menos observem como é bonito e vantajoso ser acusado de loucura. Com efeito, na boca da
que trouxemos à cena e fizemos falar, foi necessário pôr os juízos e as palavras que mais se
coadunam com o seu caráter. Mas, para que hei de te dizer todas essas coisas, se és emérito
advogado, capaz de defender egregiamente mesmo as causas menos favoráveis?
 Sem mais, eloqüentíssimo More, estimo que estejas são e tomes animosamente a parte de
tua loucura.
 Vila, 10 de junho de 1508.

DECLAMAÇÃO DE ERASMO DE ROTTERDAM

 EMBORA os homens costumem ferir a minha reputação e eu saiba muito bem quanto o
meu nome soa mal aos ouvidos dos mais tolos, orgulho-me de vos dizer que esta Loucura,
sim, esta Loucura que estais vendo é a única capaz de alegrar os deuses e os mortais. A
prova incontestável do que afirmo está em que não sei que súbita e desusada alegria brilhou

Elogio da Loucura - Erasmo de Rotterdam

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no rosto de todos ao aparecer eu diante deste numerosíssimo auditório. De fato, erguestes
logo a fronte, satisfeitos, e com tão prazenteiro e amável sorriso me aplaudistes, que na
verdade todos os que distingo ao meu redor me parecem outros tantos deuses de Homero,
embriagados pelo néctar com nepente (8). No entanto, antes, estivestes sentados, tristes e
inquietos, como se há pouco tivésseis saído da caverna de Trofônio (9). Com efeito, como
no instante em que surge no céu a brilhante figura do sol, ou como quando, após um rígido
inverno, retorna a primavera com suas doces aragens e vemos todas as coisas tomarem logo
um novo aspecto, matizando-se de novas cores, contribuindo tudo para de certo modo
rejuvenecer a natureza, assim também, logo que me vistes, transformastes inteiramente as
vossas fisionomias. Bastou, pois, a minha simples presença para eu obter o que valentes
oradores mal teriam podido conseguir com um longo e longamente meditado discurso:
expulsar a tristeza de vossa alma.
 Se, agora, fazeis questão de saber por que motivo me agrada aparecer diante de vós com
uma roupa tão extravagante, eu vo-lo direi em seguida, se tiverdes a gentileza de me prestar
atenção; não a atenção que costumais prestar aos oradores sacros, mas a que prestais aos
charlatães, aos intrujões e aos bobos das ruas, numa palavra, a que o nosso Midas (10)
prestava ao canto do deus Pã. E isso porque me agrada ser convosco um tanto sofista: não da
espécie dos que hoje não fazem senão imbuir as mentes juvenis de inúteis e difíceis
bagatelas, ensinando-os a discutir com uma pertinácia mais do que feminina. Ao contrário,
pretendo imitar os antigos, que, evitando o infame nome de filósofos, preferiram chamar-se
sofistas (11), cuja principal cogitação consistia em elogiar os deuses e os heróis. Ireis, pois,
ouvir o elogio, não de um Hércules ou de um Solon, mas de mim mesma, isto é, da Loucura.
 Para dizer a verdade, não nutro nenhuma simpatia pelos sábios que consideram tolo e
impudente o auto-elogio. Poderão julgar que seja isso uma insensatez, mas deverão
concordar que uma coisa muito decorosa é zelar pelo próprio nome.
 De fato, que mais poderia convir à Loucura do que ser o arauto do próprio mérito e fazer
ecoar por toda parte os seus próprios louvores? Quem poderá pintar-me com mais fidelidade
do que eu mesma? Haverá, talvez, quem reconheça melhor em mim o que eu mesma não
reconheço? De resto, esta minha conduta me parece muito mais modesta do que a que
costuma ter a maior parte dos grandes e dos sábios do mundo. É que estes, calcando o pudor
aos pés, subornam qualquer panegirista adulador, ou um poetastro tagarela, que, à custa do
ouro, recita os seus elogios, que não passam, afinal, de uma rede de mentiras. E, enquanto o
modestíssimo homem fica a escutá-lo, o adulador ostenta penas de pavão, levanta a crista,
modula uma voz de timbre descarado comparando aos deuses o homenzinho de nada,
apresentando-o como modelo absoluto de todas as virtudes, muito embora saiba estar ele
muito longe disso, enfeitando com penas não suas a desprezível gralha, esforçando-se por
alvejar as peles da Etiópia, e, finalmente, fazendo de uma mosca um elefante. Assim, pois,
sigo aquele conhecido provérbio que diz: Não tens quem te elogie? Elogia-te a ti mesmo.
 Não posso deixar, neste momento, de manifestar um grande desprezo, não sei se pela
ingratidão ou pelo fingimento dos mortais. É certo que nutrem por mim uma veneração
muito grande e apreciam bastante as minhas boas ações; mas, parece incrível, desde que o
mundo é mundo, nunca houve um só homem que, manifestando o reconhecimento, fizesse o
elogio da Loucura.
 Não faltou, contudo, quem, com grande perda de azeite e de sono, exaltasse, com elogios
estudatíssimos, os Busiris (12) e os Falaris (13), a febre quartã e a mosca, a calvície e outras

Elogio da Loucura - Erasmo de Rotterdam

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pestes semelhantes. Ireis, pois, ouvir de mim mesma o meu panegírico, o qual, não sendo
oportuno nem estudado, será, por isso mesmo, muito mais sincero. Não julgueis que assim
vos fale por ostentação de engenho, como costuma fazer a maior parte dos oradores. Estes,
como bem sabeis, depois de se esfalfarem bem uns trinta anos em cima de um discurso,
talvez surrupiado de outrem, são tão impudentes que procuram impingir que o fizeram, por
divertimento, em três dias, ou então que o ditaram. Eu, ao contrário, sempre gostei muito de
dizer tudo o que me vem à boca.
 Não espereis que, de acordo com o costume dos retóricos vulgares, eu vos dê a minha
definição e mito menos a minha divisão. Com efeito, que é definir? É encerrar a idéia de
uma coisa nos seus justos limites. E que é dividir? É separar uma coisa em suas diversas
partes. Ora, nem uma nem outra me convém. Como poderia limitar-me, quando o meu poder
se estende a todo o gênero humano? E, como poderia dividir-me, quando tudo concorre, em
geral, para sustentar a minha divindade? Além disso, porque haveria de me pintar como
sombra e imagem numa definição quando estou diante dos vossos olhos e me vedes em
pessoa?
 Sou eu mesma, como vedes; sim, sou eu aquela verdadeira dispenseira de bens, a que os
italianos chamam Pazzia e os gregos Mória. E que necessidade havia de vo-lo dizer? O meu
rosto já não o diz bastante? Se há alguém que desastradamente se tenha iludido,
tomando-me por Minerva ou pela Sabedoria, bastará olhar-me de frente, para logo me
conhecer a fundo, sem que eu me sirva das palavras que são a imagem sincera do
pensamento. Não existe em mim simulação alguma, mostrando-me eu por fora o que sou no
coração. Sou sempre igual a mim mesma, de tal forma que, se alguns dos meus sequazes
presumem não passar por tais, disfarçando-se sob a máscara e o nome de sábios, não serão
eles mais do que macacos vestidos de púrpura, do que burros vestidos com pele