elogio_loucura
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os estudos,
dedica-se exclusivamente à gramática, pondo o cérebro num tormento contínuo. Só ama a
vida para ter tempo de dirimir algumas dificuldades dessa importante arte, e morreria
satisfeito se descobrisse um método seguro de distinguir bem as oito partes do discurso,
coisa que, a seu ver, não conseguiram com perfeição nem os gregos nem os latinos. Bem
vedes que é uma questão de suma importância para o gênero humano. Com efeito, não é
mesmo uma miséria estar sempre correndo o risco de tomar uma conjunção por advérbio?
Um tal equívoco mereceria uma guerra cruenta.
 Quero, agora, observar-vos que há mais gramáticas do que gramáticos: só Aldo, um dos
meus favoritos nesse gênero, publicou cinco. Pois bem: o meu cabeçudo estuda-as todas,
mesmo quando escritas num estilo bárbaro e insuportável; analisa-as todas, da primeira até à
última, causando profunda inveja aos que escrevem tão mal sobre o assunto e torturado
sempre pela dúvida de que possam roubar-lhe a glória e o fruto de suas longas fadigas. Que

Elogio da Loucura - Erasmo de Rotterdam

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vos parece esse ridículo sábio? Devemos chamá-lo de louco ou delirante? Chamai-o do que
quiserdes, desde que concordeis que é graças a mim que esse animal sobrecarregado de
misérias anda sempre tão satisfeito, tão orgulhoso de si mesmo e da sua sorte, a qual ele não
trocaria pela dos mais ricos e poderosos reis da terra.
 Já os poetas não me devem tanto, não porque não sejam igualmente loucos, mas porque
têm o direito de ser membros ex professo do meu partido. Há muito tempo que se diz que
“os poetas e os pintores formam uma nação livre”. Os poetas fazem consistir toda a sua arte
em impingir lorotas e fábulas ridículas para deleitar os ouvidos dos tolos. Isso não impede
que, apoiados nessas ridicularias, se gabem de obter uma divina imortalidade e ainda a
prometam aos outros. O amor próprio e a adulação são os seus conselheiros indivisíveis, e
eu não tenho adoradores mais fiéis nem mais constantes do que eles.
 Os oradores também pertencem à minha seita. Devo, porém confessar-vos que não são os
meus súditos mais fiéis, pois se assemelham, até certo ponto, aos filósofos. Apesar disso,
além de serem igualmente cheios de amor próprio e de vaidade, não deixam de ser fecundos
em frivolidades, sendo que os mais célebres chegaram a escrever a sério extensos tratados
sobre a maneira de pilheriar. O autor, pouco importa o nome, que dedicou a Herênio a arte
de dizer, inclui a loucura entre várias espécies de facécias. O próprio Quintiliano, esse
príncipe dos retóricos, compôs sobre o riso um capítulo mais volumoso do que a Ilíada, de
Homero. Segundo esse escritores, a loucura tem uma força maior do que a razão, porque,
muitas vezes, aquilo que não se pode conseguir com nenhum argumento se obtém com uma
chacota. Finalmente, eu não desejaria ser a Loucura, se a arte de provocar o riso com
gostosas piadas não fosse exclusivamente minha.
 Outra espécie de pessoas mais ou menos da mesma laia é constituída pelos que
ambicionam uma fama imortal publicando livros. Todos esses escritores têm parentesco
comigo, sobretudo os que só publicam coisas insípidas. Quanto aos autores que só escrevem
para poucos, isto é, para pessoas de fino gosto e perspicazes, que não recusam o juízo de
Pérsio e de Lélio, confesso-vos ingenuamente que merecem mais compaixão do que inveja.
Imersos numa contínua meditação, pensam, tornam a pensar, acrescentam, emendam,
cortam, tornam a pôr, burilam, refundem, fazem, riscam, consultam, e, nesse trabalho, levam
às vezes nove e dez anos, de acordo com o preceito de Horácio, antes do manuscrito ser
impresso. Oh! como me causam piedade tais escritores! Nunca estando satisfeitos com o seu
trabalho, que recompensa podem esperar? Ai de mim! um pouco de incenso, um reduzido
número de leitores, um louvor incerto. Mas, respondei-me francamente: compensarão essas
tênues bagatelas o sacrifício do sono, mais doce do que tudo, da tranqüilidade, dos prazeres,
numa palavra, de todas as doçuras da vida? É preciso acrescentar ainda que esses
sonhadores que andam em busca de imortalidade arruinam a saúde, tornam-se pálidos,
magros, ramelentos e, às vezes, até cegos. São sempre miseráveis, invejados, não têm prazer
algum e, como resultado, só conseguem apressar a velhice e a própria morte. Malgrado tudo
isso, o nosso sábio considera suficiente, como remédio a tantos males, a aprovação de um ou
dois ramelentos da sua espécie.
 Mas, falemos, agora, de um autor que escreva sob os meus auspícios e do qual seja eu a
Minerva. Não conhecendo a meditação, nem a tortura do cérebro, nem as vigílias, escreve
tudo o que sonha, tudo o que lhe vem à cabeça. Tudo lhe parece surpreendente e divino. A
pena mal pode acompanhar a velocidade da imaginação, e dos pensamentos. Não
dispendendo mais do que um pouco de papel, escreve um mundo de disparates e de
impertinências, convencido de que, publicando bobagens, grangeará mais facilmente os

Elogio da Loucura - Erasmo de Rotterdam

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aplausos da maioria, isto é, de todos os tolos e de todos os ignorantes. E quem poderá negar
que esse homem seja verdadeiramente feliz? Responder-me-eis que, assim parecendo, é
preciso renunciar completamente à esperança de ser aplaudido pelos verdadeiros doutos!
Bolas! que grande sacrifício! Raramente sucede que esses críticos sábios e requintados dêem
importância ao meu autor. Mas, mesmo admitindo que todos eles o lessem, seria igualmente
dispensável o seu sufrágio para secundar o dos tolos e ignorantes, que representam a opinião
de quase todo o gênero humano. Poreis em dúvida essa verdade?
 Compreendem-na ainda melhor os plagiários (81) que com suas facilidades se apropriam
das obras alheias, gozando da glória que aqueles dos quais eles a roubaram conseguiram
com imensa dificuldade. Não ignoram esses impudentes que, mais dia menos dia, será
descoberto o furto, mas, em compensação, esperam aproveitar-se dele por algum tempo. É
um prazer doido ver como se pavoneiam quando elogiados; quando, ao passar por um lugar,
são apontados e ouvem dizer: — Olhe, aquele ali é um homem verdadeiramente admirável;
quando vêem seus livros bem juntinhos e bem expostos na loja de algum livreiro. Seus
nomes são lidos no alto de cada página, e são no mínimo três todos estrangeiros, parecendo
caracteres mágicos. Esses nomes — por Júpiter imortal! — não têm significação alguma,
mas não deixam, em substância, de ser verdadeiros nomes! Considerando-se, além disso
toda a vastidão da terra, pode dizer-se que pouquíssimos são que os louvam, não sendo
muito diverso do dos ignorantes o gosto dos sábios. Costuma também acontecer,
freqüentemente, que esse nomes são inventados e tomados de empréstímo aos antigos. Há,
por exemplo, os que gostam de se chamar Telêmaco, outros Esteleno, outro Laerte, outros
Polícrates, outro Trasímaco, etc. Os nossos plagiários sentem-se orgulhosos de fazer reviver
esses nomes mortos e adotá-los, mas fariam bem, igualmente, se se chamassem camaleões,
abóboras, etc., e, segundo o uso de alguns filósofos, dessem aos seus livros os títulos de A
ou B. É engraçadíssimo ver essas azêmolas incensarem-se entre si nas letras, nas poesias e
nos elogios. — Venceste Alceu (82) — diz um. — E vós, Calímaco (83) — responde o
outro. — Eclipsastes o orador romano. — E vós superastes o divino Platão. — Às vezes,
esses generosos campeões injuriam-se reciprocamente, a fim de aumentarem pela emulação
a própria fama. Enquanto isso, o público fica suspenso, sem saber que partido tomar durante
a polêmica. Mas, em geral, acontece que os bravos antagonistas fazem prodígios, merecendo
ambos os louros da vitória e as honras do triunfo. No entanto, vós, sábios, vos rides dessas
belas coisinhas e as considerais como verdadeiras loucuras. E quem poderá dizer