elogio_loucura
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elogio_loucura

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de leão.
Qualquer, pois, que seja o raciocínio feito para se mostrarem diferentes do que são, dois
compridos orelhões descobrirão sempre o seu Midas.
 Para dizer a verdade, não estou nada satisfeita com essa gente ingrata, com esses
perversos velhacos, porque, embora pertençam mais do que os outros ao nosso império, não
só publicamente se envergonham de usar o meu nome, como muitas vezes chegam a
aplicá-lo aos outros como título oprobioso. Portanto, sendo eles loucos e arquiloucos,
embora assumam a atitude de sábios e de Tales (14), não teremos razão de chamá-los
loucamente de sábios?
 A esse respeito, pareceu-me igualmente oportuno imitar os retóricos dos nossos dias, que
se reputam outras tantas divindades, uma vez que podem gabar-se de outras línguas como a
sanguessuga (15) e consideram coisa maravilhosa inserir nos seus discursos, de cambulhada,
mesmo fora de propósito, palavrinhas gregas, a fim de formarem belíssimos mosaicos. E,
quando acontece que um desses oradores não conhece as línguas estrangeiras, desentranha
ele de rançosos papéis quatro ou cinco vocábulos, com os quais lança poeira aos olhos do
leitor, de forma que os que o entendem se compadeçam do próprio saber e os que não o
comprendem o admirem na proporção da própria ignorância. Para nós, os tolos, um dos
maiores prazeres não consistirá em admirar, com a máxima surpresa, tudo o que nos vem
dos países ultramontanos? Finalmente, se houver alguns que, embora não entendendo nada
desses velhos idiomas, queiram dar mostras de que os compreendem, nesse caso devem
aparentar uma fisionomia satisfeita, aprovar abanando a cabeça, ou simplesmente as longas
orelhas de burro, e dizer com um ar de importância: Bravo! Bravo! Muito bem! Justamente!

Elogio da Loucura - Erasmo de Rotterdam

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 Mas, retomemos o fio do nosso raciocínio. Portanto, sabeis agora o meu nome, homens...
Mas, que epíteto poderei aplicar-vos? Sem dúvida que o de estultíssimos! Que vos parece?
Poderia, acaso, a deusa Loucura dar epíteto mais digno aos seus adoradores, aos iniciados
nos seus mistérios? Como, porém, poucos dentre vós conhecem a minha genealogia, vou
procurar informar-vos a respeito com auxílio das musas (16).
 Para dizer a verdade, não nasci nem do Caos (17), nem do Orco, nem de Saturno, nem de
Japeto (NE), nem de nenhum desses deuses rançosos e caducos. É Plutão, deus das riquezas,
o meu pai. Sim, Plutão (sem que o levem a mal Hesíodo, Homero e o próprio Júpiter), pai
dos deuses e dos homens; Plutão, que, no presente como no passado, a um simples gesto,
cria, destrói, governa todas as coisas sagradas e profanas; Plutão, por cujo talento a guerra, a
paz, os impérios, os conselhos, os juizes, os comícios, os matrimônios, os tratados, as
confederações, as leis, as artes, o ridículo, o sério (ai! não posso mais! falta-me a
respiração), concluamos, por cujo talento se regulam todos os negócios públicos e privados
dos mortais; Plutão, sem cujo braço toda a turba das divindades poéticas, falemos com mais
franqueza, os próprios deuses de primeira ordem (18) não existiriam, ou pelo menos
passariam muito mal; Plutão, finalmente, cujo desprezo é tão terrível que a própria Palas
(19) não seria capaz de proteger bastante os que o provocassem, mas cujo favor, ao
contrário, é tão poderoso que quem o obtém pode rir-se de Júpiter e de suas setas. Pois bem,
é justamente esse o meu pai, de quem tanto me orgulho, pois me gerou, não do cérebro,
como fez Júpiter com a torva e feroz Minerva, mas de Neotetes (20), a mais bonita e alegre
ninfa do mundo. Além disso, os meus progenitores não eram ligados pelo matrimônio, nem
nasci como o defeituoso Vulcano, filho da fastidiosíssima ligação de Júpiter com Juno. Sou
filha do prazer e o amor livre presidiu ao meu nascimento; para falar com nosso Homero, foi
Plutão dominado por um transporte de ternura amorosa. Assim, para não incorrerdes em
erro, declaro-vos que já não falo daquele decrépito Plutão que nos descreveu Aristófanes,
agora caduco e cego, mas de Plutão ainda robusto, cheio de calor na flor da juventude, e não
só moço, mas também exaltado como nunca pelo néctar, a ponto de, num jantar com os
deuses, por extravagância, o ter bebido puro e aos grandes goles.
 Se, além disso, fazeis questão de saber ainda qual a minha pátria (uma vez que, em
nossos dias, é como uma prova de nobreza notificar ao público o lugar no qual demos os
nossos primeiros vagidos), ficai sabendo que não nasci nem na ilha Natante de Delos, como
Apolo; nem da espuma do agitado Oceano, como Vênus; nem das escuras cavernas. Nasci
nas ilhas Fortunadas, onde a natureza não tem necessidade alguma da arte. Não se sabe, ali,
o que sejam o trabalho, a velhice, as doenças; nunca se vêem, nos campos, nem asfódelo,
nem malva nem lilá, nem lúpulo, nem fava, nem outros semelhantes e desprezíveis vegetais.
Ali, ao contrário, a terra produz tudo quanto possa deleitar a vista e embriagar o olfato:
mólio (21), panacéia, nepente, mangerona, ambrosia, lotus, rosas, violetas, jacintos,
anêmonas. Nascida no meio de tantas delícias, não saudei a luz com o pranto, como quase
todos os homens: mal fui parida, comecei a rir gostosamente na cara de minha mãe. Não
invejo, pois, ao supremo Júpiter, o ter sido amamentado pela cabra Amaltéia, pois que duas
graciosíssimas ninfas me deram de mamar: Mete (22), filha de Baco, e Apedia (23), filha de
Pã. Ainda podeis vê-las, aqui, no consórcio das outras minhas sequazes e companheiras. Se,
por Júpiter, também quereis saber os seus nomes, eu vo-lo direi, mas somente em grego.
Estais vendo esta, de olhar altivo? É Filavtia, isto é, o amor-próprio. E esta, de olhos
risonhos, que aplaude batendo palmas? É Kolaxia, isto é, a adulação. E, a outra, de

Elogio da Loucura - Erasmo de Rotterdam

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pálpebras cerradas parecendo dormir? É Lethes, isto é, o esquecimento. E aquela, que se
acha apoiada nos cotovelos, com as mãos cruzadas? É Misoponia, isto é, o horror à fadiga. E
esta, que tem a cabeça engrinaldada de rosas, exalando essências e perfumes? É Idonis, isto
é, a volúpia. E a outra, que está revirando os olhos lúbricos e incertos e parece dominada por
convulsões? É Ania, isto é, a irreflexão. Finalmente, aquela, de pele alabastrina, gorducha e
bem nutrida, é Trofís, isto é, a delícia. Entre essas ninfas, podeis distinguir ainda dois
deuses: um é Komo, isto é, o riso e o prazer da mesa; o outro é Nigreton hypnon, isto é, o
sono profundo.
 Acompanhada, pois, e servida fielmente por esse séquito de criados, estendo o meu
domínio sobre todas as coisas, e até os monarcas mais absolutos estão submetidos ao meu
império. Já conheceis, portanto, o meu nascimento, a minha educação e a minha corte.
Agora, para que ninguém julgue não haver razão para eu usurpar o nome de deusa, quero
demonstrar-vos quanto sou útil aos deuses e aos homens e até onde chega o meu divino
poder, desde que me presteis ouvidos com bastante atenção.
 Já escreveu sensatamente alguém que ser deus consiste em favorecer os mortais. Ora, se
com razão foram incluídos no rol dos deuses os que introduziram na sociedade o vinho, a
cerveja e outras tantas vantagens proporcionadas ao homem, porque não serei eu
proclamada e venerada como a primeira das divindades, eu, que a todos, prodigamente,
dispenso sozinha tantos bens?
 Antes de tudo, dizei-me: haverá no mundo coisa mais doce e mais preciosa do que a
vida? E quem, mais do que eu, contribui para a concepção dos mortais? Nem a lança
poderosa de Palas, nem a égide (24) do fulminante Júpiter, nada valem para produzir e
propagar o gênero humano. O próprio pai dos deuses e rei dos homens, a um gesto do qual
treme todo o Olimpo, faria bem em depor o seu fulmíneo trissuleo, em deixar aquele ar
terrível e majestoso com o qual aterroriza toda aquela multidão