elogio_loucura
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elogio_loucura

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alguns velhos sentados nos muros e
fazendo lépidos discursos?
 Afirmo, pois, de acordo com esse raciocínio, que a felicidade da velhice supera a da
meninice. Não se pode negar que a infância é muito feliz; mas, nessa idade, não se tem o
prazer de tagarelar, de resmungar por trás de todos, como fazem os velhos, prazer que
constitui o principal condimento da vida. Outra prova do meu confronto é a recíproca
inclinação que se nota nos velhos e nos meninos, e o instinto que os leva a manterem entre si
boas relações. Assim é que se verifica que todo semelhante ama o seu semelhante.
 De fato, essas duas idades têm uma grande relação entre si, e não vejo nelas outra
diferença senão as rugas da velhice e a porção de carnavais que os primeiros têm sobre a
corcunda. Quanto ao mais, a brancura dos cabelos, a falta dos dentes, o abandono do corpo,
o balbucio, a garrulice, as asneiras, a falta de memória, a irreflexão, numa palavra, tudo
coincide nas duas idades. Enfim, quanto mais entra na velhice, tanto mais se aproxima o
homem da infância, a tal ponto que sai deste mundo como as crianças, sem desejar a vida e
sem temer a morte.
 Julgue-me, agora, quem quiser, e confronte o bom serviço que prestei aos homens com a
metamorfose dos deuses. Não preciso recordar, aqui, os horríveis efeitos do seu ódio; falarei
apenas dos seus benefícios. Que graças concedem eles aos que estão para morrer?
Transformam um em árvore, outro em pássaro, este em cigarra, aquele em serpente, etc.,
que são, na verdade, grandes esforços de beneficência! Chega a parecer que a passagem de
um ser para o outro é o mesmo que morrer. Quanto a mim, é o homem em pessoa que eu

Elogio da Loucura - Erasmo de Rotterdam

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reconduzo à idade mais bela e mais feliz. Se os mortais se abstivessem totalmente da
sabedoria e só quisessem viver submetidos às minhas leis, é certo que não conheceriam a
velhice e gozariam, felizes, de uma perpétua juventude.
 Observai, por favor, aquelas fisionomias sombrias, aqueles rostos torturados e sem cor,
mergulhados na contemplação da natureza ou em outras sérias e difíceis ocupações:
parecem envelhecidos antes de terminada a juventude, e isso porque um trabalho mental
assíduo, penoso, violento, profundo, faz com que aos poucos se esgotem os espíritos e a
seiva da vida. Reparai, agora, um pouco, como os meus tolos são gordos, lúcidos e bem
nutridos, ao ponto de parecerem verdadeiros porcos acarnânios (27). Esses felizes mortais
não sentiriam nenhum incômodo na velhice, se nenhum contato tivessem com os sábios.
Infelizmente, porém, isso acontece. Que fazer? Vê-se claramente que o homem não nasceu
para gozar aqui na terra de uma felicidade perfeita.
 Tenho ainda em meu favor o importante testemunho de um famoso provérbio que diz: Só
a loucura tem a virtude de prolongar a juventude, embora fugacíssima, e de retardar
bastante a malfadada velhice. Compreende-se, pois, o que em geral se diz dos belgas; ao
passo que em todos os outros homens a prudência cresce na proporção dos anos, neles, ao
contrário, a loucura está na proporção da velhice. Pode-se dizer, portanto, que não há no
mundo nenhuma nação mais jovial nem mais alegre do que essa no comércio da vida, nem
que sinta menos o aborrecimento dos anos. Citemos porém, além dos belgas, os povos que
vivem sob o mesmo clima e cujos costumes são quase os mesmos: quero referir-me aos
meus holandeses, que eu posso gabar-me de ter entre os meus mais fiéis adoradores. Nutrem
por mim tanto afeto e tanto zelo que foram julgados dignos de um epíteto derivado do meu
nome e, muito longe de se envergonharem, o consideram sua glória principal.
 Invoquem tudo isso os estultíssimos mortais, invoquem Circe, Medéia, Vênus, a Aurora,
e procurem também aquela não sei que fortuna que tem a virtude de rejuvenescer, virtude
que somente eu, contudo, posso e costumo praticar. Só eu possuo o elixir admirável com o
qual a filha de Menão prolongou a juventude de Titão, seu avô. Fui eu quem rejuvenesceu
Vênus, assim como Faão, por quem Safo andou perdidamente apaixonada. São minhas
aquelas ervas, se é que existem, meus aqueles encantamentos, minha aquela fonte, que não
só restituem a passada juventude, mas, o que é mais desejável, a tornam perpétua. Se,
portanto, concordais que não há nada mais precioso do que a juventude e mais detestável do
que a velhice, posso concluir que reconheceis a dívida que tendes para comigo, sim, para
comigo, pois que, para vos tornar felizes, sei prolongar tamanho bem e retardar um mal tão
grande.
 Mas, porque falar ainda mais dos mortais? Percorrei todo o céu, analisai todas as
divindades: ficarei satisfeita por me insultarem o belo nome que tenho a honra de trazer, se
for encontrada uma só divindade que não deva exclusivamente a mim todo o seu poder. Por
favor: por que Baco tem sempre, como um rapazinho, o rosto rubicundo e a longa cabeleira
loura? É porque passa a vida fora de si, embriagado nos banquetes, nos bailes, nas festas,
nos folguedos, recusando qualquer relação com Minerva. E tão alheio é à ambição de trazer
o nome de sábio que gosta de ser venerado com escárnios e zombarias. Nem mesmo se
ofende com o provérbio que lhe dá o sobrenome de Ridículo, sobrenome que mereceu
porque, sentado à porta do templo, e divertindo-se os camponeses em emporcalhá-lo de
mosto e de figos frescos, ele se ria de arrebentar os queixos. E quantos golpes satíricos não
desferiu contra esse deus a Comédia Antiga? (28) — O estólido, o insulso deus! —

Elogio da Loucura - Erasmo de Rotterdam

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exclamava-se. — Indigno de nascer no meio da rua! — Mas, dizei-me sem simulação: quem
de vós, a ser esse deus, estólido e insulso, mas sempre alegre, sempre jovem, sempre feliz,
sempre motivo de prazer e alegria gerais, preferiria ser aquele Júpiter simulador, terror do
mundo inteiro, ou o velho Pã, que com o seu barulho espalha temores pânicos, ou o
defeituoso Vulcano, todo enfumarado e cansado do estafante trabalho, ou a própria Palas,
terrível pela lança e pela cabeça de Medusa, e que a todos encara com um olhar feroz?
 Passemos a outras divindades. Sabeis porque Cupido se conserva sempre moço? É
porque só se ocupa com bagatelas, porque está sempre brincando e rindo, sem juízo e sem
reflexão alguma, correndo puerilmente de um lado para outro, sem saber ao menos o que se
faz ou o que se diz. Porque a áurea Vênus mantém sempre florida a sua beleza? Não o
sabeis? É porque é minha parente próxima, conservando sempre no rosto a áurea cor de meu
pai Plutão. Além disso, se devemos prestar fé aos poetas e aos seus rivais os escultores, essa
deusa aparece sempre com uma expressão risonha e satisfeita, sendo com razão chamada
por Homero de áurea Vênus. E Flora, mãe das delícias, não era, talvez um dos principais
objetos da religião dos romanos?
 Das divindades dos prazeres já falámos bastante. Fazeis questão, agora, de conhecer a
vida dos deuses tétricos e melancólicos? Interrogai Homero e os outros poetas, e eles
poderão dizer-vos, a esse respeito, belíssimas coisas, fazendo-vos ver que os deuses são pelo
menos tão loucos quanto os mortais. Júpiter deixa os seus raios, abandona as rédeas do
universo, para entregar-se aos amores, o que para vós não constitui novidade. Esquece o seu
sexo a altiva e inacessível Diana, para consagrar-se inteiramente à caça, o que não impede
que se apaixone loucamente por seu ardoroso Endimião, a ponto de se dar, muitas vezes, ao
incômodo de descer do céu, em forma de Lua, para cumulá-lo com seus favores. Mas,
prefiro que as suas indecências sejam reprovadas por Momo (29), cujas censuras são eles os
únicos a ouvir. Foi, pois, bem feito que os deuses, enraivecidos, o precipitassem à terra
juntamente com Ates (30), porque, importuno com a sua sabedoria, ele perturbava sua
felicidade.