elogio_loucura
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elogio_loucura

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E, longe de encontrar acolhimento nos paços monárquicos, não acha uma alma
que lhe preste hospitalidade em seu exílio, ao passo que a Adulação, minha companheira,
ocupa sempre o primeiro lugar, essa mesma Adulação que sempre esteve de acordo com
Momo como o lobo com o cordeiro.
 E assim, livres da importuna censura de Momo, os deuses se entregaram com maior
liberdade e alegria a toda sorte de prazeres. Com efeito, quantas palavras chistosas não
pronuncia aquele Priapo de uma figa? Quanto não faz rir Mercúrio com suas ladroeiras e
seus feitiços? Que não faz Vulcano (31) nos banquetes dos deuses? Põe-se a correr para
chamar a atenção sobre o seu andar claudicante, brinca, diz asneiras, em suma, faz tudo para
tornar o banquete alegre. E que direi daquele velho imbecil que se apaixonou por Sinele e
gosta de dançar com Polifemo e com as ninfas? E daqueles sátiros semi-bodes que em suas
danças praticam cem atos imodestíssimos? Pã provoca o riso dos deuses com suas insípidas
cantilenas: eles o escutam com grande atenção e preferem cem vezes a sua música à das
musas, principalmente quando os vapores do néctar principiam a perturbar-lhes a cabeça.
Mas, porque não hei de recordar as extravagâncias que fazem as divindades depois dos
banquetes, sobretudo depois de terem bebido muito? Asseguro-vos, por Deus, que, embora
eu seja a Loucura e esteja, por conseguinte, habituada a toda espécie de extravagâncias,
muitas vezes não consigo conter o riso. Mas, é melhor que me cale, porque, se algum deus
desconfiado e prevenido me escutasse, também eu poderia ter a mesma sorte de Momo.

Elogio da Loucura - Erasmo de Rotterdam

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 Mas, já é tempo de que, seguindo o exemplo de Homero, passemos, alternadamente, dos
habitantes do céu aos da terra, onde nada se descobre de feliz e de alegre que não seja obra
minha.
 Primeiro, vós bem vedes com que providência a natureza, esta mãe produtora do gênero
humano, dispôs que em coisa alguma faltasse o condimento da loucura. Segundo a definição
dos estóicos o sábio é aquele que vive de acordo com as regras da razão prescrita, e o louco,
ao contrário, é o que se deixa arrastar ao sabor de suas paixões. Eis porque Júpiter, com
receio de que a vida do homem se tornasse triste e infeliz, achou conveniente aumentar
muito mais a dose das paixões que a da razão, de forma que a diferença entre ambas é pelo
menos de um para vinte e quatro. Além disso, relegou a razão para um estreito cantinho da
cabeça, deixando todo o resto do corpo presa das desordens e da confusão. Depois, ainda
não satisfeito com isso, uniu Júpiter à razão, que está sozinha, duas fortíssimas paixões, que
são como dois impetuosíssimos tiranos: uma é a Cólera, que domina o coração, centro das
vísceras e fonte da vida; a outra é a Concupiscência, que estende o seu império desde a mais
tenra juventude até à idade mais madura. Quanto ao que pode a razão contra esses dois
tiranos, demonstra-o bem a conduta normal dos homens. Prescreve os deveres da
honestidade, grita contra os vícios a ponto de ficar rouca, e é tudo o que pode fazer; mas os
vícios riem-se de sua rainha, gritam ainda mais forte e mais imperiosamente do que ela, até
que a pobre soberana, não tendo mais fôlego, é constrangida a ceder e a concordar com os
seus rivais.
 De resto, tendo o homem nascido para o manejo e a administração dos negócios, era
justo aumentar um pouco, para esse fim, a sua pequeníssima dose de razão, mas, querendo
Júpiter prevenir melhor esse inconveniente, achou de me consultar a respeito, como, aliás,
costuma fazer quanto ao resto. Dei-lhe uma opinião verdadeiramente digna de mim: —
Senhor, — disse-lhe eu — dê uma mulher ao homem, porque, embora seja a mulher um
animal inepto e estúpido, não deixa, contudo, de ser mais alegre e suave, e, vivendo
familiarmente com o homem, saberá temperar com sua loucura o humor áspero e triste do
mesmo.
 Quando Plutão pareceu hesitar se devia incluir a mulher no gênero dos animais racionais
ou no dos brutos, não quis com isso significar que a mulher fosse um verdadeiro bicho, mas
pretendeu, ao contrário, exprimir com essa dúvida a imensa dose de loucura do querido
animal. Se, porventura, alguma mulher meter na cabeça a idéia de passar por sábia, só fará
mostrar-se duplamente louca, procedendo mais ou menos como quem tentasse untar um boi,
malgrado seu, com o mesmo óleo com que costumam ungir-se os atletas. Acreditai-me, pois,
que todo aquele que, agindo contra a natureza, se cobre com o manto da virtude, ou afeta
uma falsa inclinação, ou não faz senão multiplicar os próprios defeitos. E isso porque,
segundo o provérbio dos gregos, o macaco é sempre macaco, mesmo vestido de púrpura.
Assim também, a mulher é sempre mulher, isto é, é sempre louca, seja qual for a máscara
sob a qual se apresente.
 Não quero, todavia, acreditar jamais que o belo sexo seja tolo ao ponto de se aborrecer
comigo pelo que eu lhe disse, pois também sou mulher, e sou a Loucura. Ao contrário, tenho
a impressão de que nada pode honrar tanto as mulheres como o associá-las à minha glória,
de forma que, se julgarem direito as coisas, espero que saibam agradecer-me o fato de eu as
ter tornado mais felizes do que os homens.
 Antes de tudo, têm elas o atrativo da beleza, que com razão preferem a todas as outras
coisas, pois é graças a esta que exercem uma absoluta tirania mesmo sobre os mais bárbaros

Elogio da Loucura - Erasmo de Rotterdam

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tiranos. Sabereis de que provém aquele feio aspecto, aquela pele híspida, aquela barba
cerrada, que muitas vezes fazem parecer velho um homem que se ache ainda na flor dos
anos? Eu vo-lo direi: provém do maldito vício da prudência, do qual são privadas as
mulheres, que por isso conservam sempre a frescura da face, a sutileza da voz, a maciez da
carne, parecendo não acabar nunca, para elas, a flor da juventude. Além disso, que outra
preocupação têm as mulheres, a não ser a de proporcionar aos homens o maior prazer
possível? Não será essa a única razão dos enfeites, do carmim, dos banhos, dos penteados,
dos perfumes, das essências aromáticas, e tantos outros artifícios e modas sempre diferentes
de vestir-se e disfarçar os defeitos, realçando a graça do rosto, dos olhos, da cor? Quereis
prova mais evidente de que só a loucura constitui o ascendente das mulheres sobre os
homens? Os homens tudo concedem às mulheres por causa da volúpia, e, por conseguinte, é
só com a loucura que as mulheres agradam aos homens. Para confirmar ainda mais essa
conclusão, basta refletir nas tolices que se dizem, nas loucuras que se fazem com as
mulheres, quando se anseia por extinguir o fogo do amor.
 Já vos revelei, portanto, a fonte do primeiro e supremo prazer da vida. Concordo que
alguns existam (sobretudo certos velhos mais bebedores que mulherengos) cujo supremo
prazer seja a devassidão. Deixo indecisa a questão de saber se é possível um bom banquete
sem mulheres. O que é certo é que mesa alguma nos pode agradar sem o condimento da
loucura. E tanto isso é verdade que, quando nenhum dos convidados se julga maluco ou,
pelo menos, não finge sê-lo, é pago um bobo, ou convidado um engraçado filante que, com
suas piadas, suas brincadeiras, suas bobagens, expulse da mesa o silêncio e a melancolia.
Com efeito, que nos adiantaria encher o estômago com tão suntuosas, esquisitas e apetitosas
iguarias, se os olhos, os ouvidos, o espírito e o coração não se nutrissem também de
diversões, risadas e agradáveis conceitos? Ora, sou eu a inventora exclusiva de tais delícias.
Teriam sido, porventura, os sete sábios da Grécia os descobridores de todos os prazeres de
um banquete, como sejam tirar a sorte para se saber quem deve ser o rei da mesa, jogar
dado, beberem todos no mesmo copo, cantar um de cada vez com o ramo de murta na mão
(32), dançar,