elogio_loucura
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e vereis que ou conservará um
profundo silêncio ou interromperá os demais convidados com frívolas e importunas
perguntas. Convidai-o para um baile, e dançará com a agilidade de um camelo. Levai-o a
um espetáculo, e bastará o seu aspecto para impedr que o povo se divirta. Por se ter recusado
obstinadamente a abandonar sua imponente gravidade, é que o sábio Catão (41) foi
constrangido a retirar-se. Entra o sábio em alguma palestra alegre? Logo todos se calam,
como se tivessem visto o lobo. Trata-se, porém, de comprar, de vender, de concluir um
contrato, em suma, de fazer uma dessas coisas que diariamente sucedem a cada um?
Tomareis o sábio mais por uma estátua do que por um homem, a tal ponto se mostra ele
embaraçado em cada negócio. Assim, o filósofo não é bom, nem para si, nem para o seu
país, nem para os seus. Mostrando-se sempre novo no mundo, em oposição às opiniões e aos
costumes da universalidade dos cidadãos, atrai o ódio de todos com sua diferença de
sentimentos e de maneiras.
 Tudo o que fazem os homens está cheio de loucura. São loucos tratando com loucos. Por
conseguinte, se houver uma única cabeça que pretenda opor obstáculo à torrente da
multidão, só lhe posso dar um conselho: que, a exemplo de Timão (42), se retire para um
deserto, a fim de aí gozar à vontade dos frutos de sua sabedoria.
 Mas, voltando ao assunto: que virtude, que poder já reuniu, no recinto de uma cidade,
homens naturalmente rudes, indômitos e selvagens? Quem já pôde humanizar esses ferozes
animais? A adulação. Nesse sentido é que se devem entender a fábula de Anfião (43) e a

Elogio da Loucura - Erasmo de Rotterdam

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citara de Orfeu. Quem reanimou e reuniu a plebe romana, quando ameaçava dissolver-se?
Foi, acaso, uma oração filosófica? Decerto que não: foi um ridículo, um pueril apólogo
sobre a revolta dos membros contra o estômago (44). Temístocles (45) produziu o mesmo
efeito com o seu apólogo da raposa e o ouriço. Empregue, pois, o sábio os mais tolos
conceitos da filosofia, e jamais triunfará como um Sertório (46) com sua imaginária corça
ou o engraçado ardil da cauda dos dois cavalos. Não alcançará nunca o seu objetivo como o
alcançaram os dois cães do célebre legislador de Esparta (47). Já não falo de Minos nem de
Numa (48), que por meio de fabulosas invenções souberam tirar proveito da ignorância
popular. É sempre com semelhante puerilidades que se faz mover a grande e estúpida besta
que se chama povo.
 Dizei-me se houve uma única cidade que tenha adotado as leis de Platão e de Aristóteles,
ou as máximas de Sócrates (49). Respondei-me: que motivo levou os Décios, pai e filho, a
se consagrarem aos deuses infernais? Que ganhou Cúrcio precipitando-se na voragem (50)?
Tudo foi obra da glória, dessa dulcíssima sereia que, por isso, foi muito condenada por
nossos sábios. É por isso que eles exclamam: — Pode haver maior loucura que a de um
candidato que adula suplicentemente o povo para conquistar honras e que compra o seu
favor à custa de liberalismo? que a daquele que recebe servil e humildemente os aplausos
dos mentecaptos? daquele que fica lisonjeado com as aclamações populares? daquele que se
deixa carregar em triunfo, como uma estátua, para ser visto pelo povo, ou que é efigiado em
bronze no foro? A todas essas loucuras, acrescentai a da adoção dos nomes e sobrenomes;
acrescentai as honras divinas prestadas a um homem sem mérito algum; acrescentai,
finalmente, as cerimônias públicas levadas a efeito para colocar no número dos deuses os
mais celerados tiranos (51). Quem será capaz de negar que não há coisa mais tola? Não
bastaria um Demócrito para rir bastante disso. Mas, não será também verdade que a Loucura
foi a autora de todas as famosas proezas dos valorosos heróis que tantos literatos eloqüentes
elevaram às estrelas? É a Loucura que forma as cidades; graças a ela é que subsistem os
governos, a religião, os conselhos, os tribunais; e é mesmo lícito asseverar que a vida
humana não passa, afinal, de uma espécie de divertimento da Loucura.
 Mas, passemos, agora, a falar das artes. Quem anima os homens a descobrir, a transmitir
aos seus pósteros tantas produções, ao parecer excelentes, se não a sede de glória? Acharam
esses homens, na verdade bastante tolos, que não deviam poupar nem velas, nem suor, nem
esforços de fadiga para conquistar não sei que imortalidade, a qual não passa, em última
análise, de uma belíssima quimera. Deveis, pois, à Loucura todos os bens que já se
introduziram no mundo, todos esses bens que estais gozando e que tanto contribuem para a
felicidade da vida.
 Pois bem, que direis, senhores, se, depois de vos ter provado que a mim se devem todos
os louvores atribuídos à força e ao engenho humanos, eu vos provar que a mim também
pertencem os que recebe a prudência? — Essa é boa! — dirá, talvez, alguém. — Pretendeis
misturar o fogo com a água, pois a Loucura e a Prudência não são menos opostas que esses
dois elementos contrários. — Não obstante sentir-me-ei lisonjeada por vos convencer disso,
desde que continueis a prestar-me vossa gentil atenção.
 Se a prudência consiste no uso comedido das coisas, eu desejaria saber qual dos dois
merece mais ser honrado com o título de prudente: o sábio que, parte por modéstia, parte por
medo, nada realiza, ou o louco, que nem o pudor (pois não o conhece) nem o perigo (porque
não o vê) podem demover de qualquer empreendimento. O sábio absorve-se no estudo dos

Elogio da Loucura - Erasmo de Rotterdam

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autores antigos; mas, que proveito tira ele dessa constante leitura? Raros conceitos
espirituosos, alguns pensamentos requintados, algumas simples puerilidades — eis todo o
fruto de sua fadiga. O louco, ao contrário, tomando a iniciativa de tudo, arrostando todos os
perigos, parece-me alcançar a verdadeira prudência. Homero, embora cego, enxergava
muito bem essas verdades: “O tolo — disse ele — aprende à própria custa e só abre os olhos
depois do fato”. Duas coisas, sobretudo, impedem que o homem saiba ao certo o que deve
fazer: uma é a vergonha, que cega a inteligência e arrefece a coragem; a outra é o medo,
que, indicando o perigo, obriga a preferir a inércia à ação. Ora, é próprio da Loucura dirimir
todas essas dificuldades. Raros são os que sabem que, para fazer fortuna, é preciso não ter
vergonha de nada e arriscar tudo. Quero observar-vos, além disso, que os que preferem a
prudência fundada no julgamento das coisas estão muito longe de possuírem a verdadeira
prudência.
 Todas as coisas humanas têm dois aspectos, à maneira dos Silenos de Alcibíades (52),
que tinham duas caras completamente opostas. Por isso é que, muitas vezes, o que à
primeira vista parece ser a morte, na realidade, observado com atenção, é a vida. E assim,
muitas vezes, o que parece ser a vida é a morte; o que parece belo é disforme; o que parece
rico é pobre; o que parece infame é glorioso; o que parece douto é ignorante; o que parece
robusto é fraco; o que parece nobre é ignóbil; o que parece alegre é triste; o que parece
favorável é contrário; o que parece amigo é inimigo; o que parece salutar é nocivo; em
suma, virado o Sileno, logo muda a cena. Estarei falando muito filosoficamente? Pois vou
explicar-me com maior clareza.
 Todos vós estais convencidos, por exemplo, de que um rei, além de muito rico, é o
senhor dos seus súditos. Mas, se ele tiver no peito um coração brutal, se for insaciável na
sua cobiça, se nunca se mostrar satisfeito com o que possui, não concordareis comigo que é
miserabilíssimo? Se ele se deixar transportar por seus vícios e por suas paixões, não se
tornará um dos escravos mais vis? O mesmo se poderia dizer de tudo mais. Basta, porém,
esse exemplo. — E com que fim — podeis perguntar-me — nos dizeis tudo isso? — Um
pouco de paciência, e vereis aonde quero chegar.