Captulo 3
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Captulo 3

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Cap. 3 - Contas Nacionais e Macroeconomia: identidades e teoria

Até agora vimos os princípios básicos que devem ser obedecidos pelos sistemas de contas nacionais e vimos também sua estrutura básica, de 4 ou 5 contas, que foi a que vigorou no plano internacional até 1993 e no Brasil até 1996. Vimos também que essa estrutura básica assenta-se na identidade Produto  Dispêndio  Renda, por isso chamada de identidade macroeconômica básica. O objetivo do presente capítulo é discutir justamente qual a relação da contabilidade nacional com a macroeconomia, o substantivo a partir do qual se adjetiva essa identidade (já que essa identidade, básica, é macroeconômica). Já antecipamos essa discussão no primeiro capítulo do livro. Nosso objetivo agora é aprofundar essa questão, seja apresentando brevemente a teoria keynesiana, a partir da qual se tornou possível o desenho do sistema de contas nacionais, seja estendendo a discussão até aqui feita das identidades macroeconômicas.

3.1 Da Contabilidade Nacional à Macroeconomia: revisitando Keynes

Já comentamos, no início do Capítulo 1, a importância que teve, para a definição do formato e do conteúdo do sistema de contas nacionais, a Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, de John Maynard Keynes. Foi, como vimos, a partir da teoria macroeconômica, que teve seu nascimento com a publicação da Teoria Geral, em 1936, que foram envidados todos os esforços para a construção de um sistema a partir do qual pudesse ser observada a evolução dos agregados que são de fundamental importância na avaliação da performance econômica de um país. Portanto, foi partindo da macroeconomia que se chegou às contas nacionais.

Fazendo o caminho inverso, mostraremos de que maneira as contas nacionais denunciam as relações sistêmicas (derivadas da teoria keynesiana) que lhes deram origem, as quais, de uma maneira ou de outra, ainda presidem senão os desenvolvimentos teóricos contemporâneos na área de macroeconomia, seguramente as análises quanto a crescimento, formação bruta de capital fixo, relações externas e outras tantas variáveis determinantes na análise evolutiva das economias reais.​

Essas considerações são importantes não apenas por conta do necessário registro histórico mas também em função de uma questão metodológica. No capítulo 1, afirmamos que uma identidade contábil não implica nenhuma relação de causa e efeito entre as variáveis que a constituem. Poderia, portanto, parecer contraditório pretender agora derivar relações de causalidade a partir das identidades expressas nas contas nacionais.

Contudo, é preciso lembrar que o objetivo maior de Keynes, ao escrever a Teoria Geral, foi contrapor-se à teoria econômica então dominante (a teoria neoclássica,� de orientação marginalista). Naquela abordagem chegava-se, entre outras, à conclusão de que a economia capitalista portava uma espécie de regulador automático que impedia as crises e o desemprego. Todo o desemprego então existente era tomado como desemprego voluntário, ou seja, considerava-se​ que as pessoas que eventualmente não estavam trabalhando encontravam-se em tal situação porque não se dispunham a ofertar sua força de trabalho aos salários vigentes. Em outras palavras, não trabalhavam porque não queriam.�

A enorme crise dos anos 1930 mostrara a clara inadequabilidade de tal teoria para explicar a realidade. Keynes, portanto, tentou demonstrar que não existia o tal regulador automático e que, por conseguinte, a maior parte do desemprego era involuntário, vale dizer, decorrente de uma demanda por força de trabalho diminuta e, assim, incapaz de empregar toda a oferta existente. Para conseguir demonstrar essa situação, Keynes teve de fazer uma verdadeira revolução nas idéias econômicas e jogar por terra vários​ dos postulados que constituíam a espinha dorsal da teoria então dominante.
Embrenhado nesse caminho, porém, Keynes não apenas questionou relações de causa e efeito tomadas como líquidas e certas até então, mas apontou para relações distintas e muitas vezes opostas àquelas, forjou novos conceitos (como o de incerteza, o de preferência pela liquidez, o de custo de uso) e revelou identidades. Assim, “fazendo o carro de Keynes andar de marcha à ré”, mostraremos alguns dos resultados mais importantes de sua teoria, seja no nível mesmo das identidades, seja no que diz respeito às relações de causa e efeito a partir das quais elas foram reveladas. Evidentemente, não pretendemos aqui, visto não ser este o objetivo do livro, dar conta de todos os aspectos da teoria keynesiana, mas simplesmente mostrar a ligação entre essas duas áreas da ciência econômica — a contabilidade social e a macroeconomia, reforçando a distinção entre as identidades (típicas da contabilidade nacional) e as igualdades, que expressam relações de causa e efeito de natureza teórica.

A determinação da renda

Tomemos a conta de produção (ou conta do produto) considerando uma economia fechada e sem governo, tal como apresentada no capítulo anterior:

	Quadro 3.1
Conta do produto – economia fechada e sem governo

	Débito
	Crédito

	a1 salários

a2 lucros
a3 aluguéis
a4 juros
A renda ou produto líquido
(A = a1 + a2 + a3 + a4)

B depreciação
	C consumo pessoal

D variação de estoques

E formação bruta de capital fixo

	Renda ou Produto Bruto
	Despesa Bruta

Como se vê, temos, do lado do débito da conta, a renda ou produto nacional bruto e, do lado do crédito, a indicação da forma concreta tomada por essa renda, ou seja, quanto foi consumo e quanto foi investimento (variação de estoques mais formação bruta de capital fixo). Assim, se chamarmos a renda de Y, o consumo de C e o investimento de I, podemos escrever que:

	Y  C + I	(3.1)

Essa expressão nos indica que, em cada momento do tempo, nessa economia que ainda é fechada e não tem governo, a renda gerada é resultado da quantidade produzida de bens e serviços, ou seja, da quantidade produzida de bens de consumo somada à quantidade produzida de bens de investimento (estoques aí incluídos). Não por acaso, o lado do débito da conta de produção vai se transformar justamente no lado do crédito da conta de apropriação, indicando que este agregado constitui o somatório das remunerações pagas aos diversos fatores de produção, montante esse apropriado pelas famílias (que são as proprietárias desses fatores).

Suponhamos agora que o nível em que se encontra Y seja muito baixo relativamente ao potencial dessa economia, de modo que existam fatores de produção não utilizados (uma elevada taxa de desemprego da força de trabalho e capacidade ociosa nas empresas). Em outras palavras, estamos supondo que essa economia poderia estar operando num nível bem mais elevado de produto e renda, uma vez que dispõe de recursos (fatores de produção) para isso, mas, por alguma razão, não está se comportando assim. Para saber qual é a causa desse fenômeno temos de descobrir o que é que determina C e o que é que determina I.

Keynes demonstrou que o principal fator a determinar o nível de C é justamente a renda, ou seja, Y. Segundo sua teoria, portanto, o consumo das famílias varia com o nível de renda: quanto maior é a renda, maior é o consumo e vice-versa. No entanto, dado um aumento na renda, o aumento do consumo é menos do que proporcional àquele, uma vez que existe aquilo que Keynes chamou propensão a consumir, a qual deriva de algo que ele denominou lei psicológica fundamental. Em outras palavras, Keynes constatou algo mais ou menos evidente (e por isso ele chamou de “lei”): dado um determinado nível de renda, as famílias consomem boa parte dela, mas também poupam uma parte. Obviamente, a propensão a consumir é muito maior nas famílias de baixa renda (no limite, as famílias de renda extremamente baixa não poupam nada de sua renda, consumindo-a integralmente) e muito maior nas famílias de renda mais elevada. Na média da economia, portanto, existe uma propensão ao consumo, que podemos chamar de c (0 < c < 1). Formalmente, portanto, podemos escrever que:

 C =