Captulo 3
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Captulo 3

Disciplina:Contabilidade Social e Balanço de Pagamentos119 materiais1.338 seguidores
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f(Y) (3.2)

Existe também uma parcela do consumo que não varia com o nível de renda (por constituir um mínimo de consumo sem o qual a sociedade pode perecer e que de alguma forma existe independentemente do nível de renda) e que podemos chamar de consumo autônomo, indicado por Ca. Portanto

 Y = Ca + cY (3.3)

Assim, podemos reescrever a Expressão 3.1 da seguinte forma:

	Y = Ca + cY + I 	 (3.4)

Quanto ao investimento, Keynes constatou que ele depende de variáveis extremamente sujeitas à flutuação, devido às sempre presentes incertezas em relação ao futuro. Essas variáveis são a preferência pela liquidez (ou preferência pela segurança que o dinheiro traz e que, segundo o economista inglês, está na base da determinação da taxa de juros da economia) e as expectativas quanto ao rendimento futuro esperado dos bens de capital — que determinam aquilo que Keynes chama de eficiência marginal do capital (EmgK). Assim, se chamarmos a taxa de juros de r, podemos escrever que

 I = f (r, EmgK) (3.5)

Assim, o investimento é, para Keynes, uma variável extremamente instável e que pode explicar por que, em determinados momentos, a economia opera num nível de produção que não é suficiente para empregar todos os fatores de produção disponíveis. Como a teoria keynesiana dos determinantes do investimento é extremamente complexa, explicá-la em detalhes demandaria um capítulo inteiro, o que, com certeza, foge ao escopo deste livro. O assunto voltará a ser enfocado com um pouco mais de detalhes no Capítulo 8, mas, para nossos propósitos aqui, basta enfatizar que a determinação do nível de renda e produto é, para Keynes, intimamente dependente do comportamento do investimento e que este é bastante sujeito a flutuações. Assim, com o que temos, já podemos mostrar algumas importantes conclusões quanto à determinação do nível de produto e renda em que opera a economia.

Se retomarmos a expressão 3.4, perceberemos facilmente que podemos reordenar seus termos do seguinte modo:

	 Y (1 – c) = Ca + I e, logo,
 Y = Ca + I (3.6)
 (1 – c)

 Ao termo 1/(1 - c), Keynes chamou multiplicador. Ele indica a magnitude do aumento no nível de renda em decorrência seja de um aumento em Ca, seja de um aumento em I. Ele indica também que, quanto maior for a propensão a consumir da economia, maior é o efeito multiplicador de uma elevação em Ca ou I. Por exemplo, se c for igual a 0,9 (ou seja, na média, as famílias consomem 90% de sua renda), o multiplicador será 10, de modo que, se houver um aumento de $ 100 no investimento, o aumento na renda será de $ 1.000. Se, numa outra hipótese, tivermos c igual a 0,5, o multiplicador será 2, de modo que o mesmo aumento de $ 100 no investimento provocará uma elevação na renda de apenas $ 200.

Supondo, como parece razoável, que Ca é uma variável bastante estável, a atuação positiva do efeito multiplicador sobre o nível de renda fica na inteira dependência do comportamento de I. Como esta variável está sujeita, pelas razões já expostas, a intensas flutuações, os momentos em que I decresce provocam um efeito sobre o nível de renda e produto que é magnificado pelo efeito multiplicador (que evidentemente também opera no sentido inverso). Nesses momentos, mesmo dispondo de fatores de produção para operar num nível mais elevado, a economia permanece operando num nível insuficiente para empregar toda a força de trabalho e toda a capacidade instalada.
É importante perceber, em todo esse raciocínio, a manutenção da identidade entre produto e renda, ao mesmo tempo em que ele também nos permite identificar os determinantes do nível de renda no qual opera a economia. É por conta deste último elemento que, a partir da equação apresentada na expressão 3.2, pudemos substituir o sinal indicador de identidade () pelo sinal de igualdade (=).

A teoria keynesiana e a contabilidade nacional

Se tomarmos agora a conta do produto em sua versão final e, portanto, considerarmos uma economia aberta e com governo, chegaremos a outras conclusões importantes sobre essa questão.

	Quadro 3.2

Conta de produção

	Débito
	Crédito

	I importações de bens e serviços não fatores
J-H renda líquida enviada (+) ou recebida (-) do exterior
a1 salários
a2 lucros

a3 aluguéis
a4 juros

A renda ou produto nacional líquido
(A = a1 + a2 + a3 + a4)

B depreciação
Q-N impostos indiretos líquidos de subsídios
	G exportações de bens e serviços não fatores
C consumo pessoal

L consumo do governo
D variação de estoques

E formação bruta de capital fixo

	Oferta Total de Bens e Serviços
	Demanda Total por Bens e Serviços

Como se percebe, a conta traz agora, do lado do débito, a oferta total de bens e serviços e, do lado do crédito, a demanda final. Se passarmos a rubrica importações para o lado do crédito com o sinal negativo, encontraremos a expressão 3.7:

	Y  C + I + G + (X – M)	(3.7)

onde

C = consumo (rubrica consumo pessoal),

G = gastos do governo (rubrica consumo do governo),

X = exportações de bens e serviços não fatores,

M = importações de bens e serviços não fatores,

enquanto Y e I conservam seus significados anteriores.

Transpondo para essa expressão ampliada as mesmas considerações anteriormente feitas para uma economia fechada e sem governo, podemos perceber que o nível de produto e renda em que opera a economia não depende apenas do consumo e do investimento, mas também dos gastos do governo e das exportações líquidas das importações. Valem, para essas novas variáveis, as mesmas relações anteriormente estabelecidas para Ca e I.

Assim, um efeito multiplicador (devidamente modificado pela introdução do governo, particularmente por sua capacidade de tributar)� também vai atuar sobre os possíveis aumentos, seja nos gastos do governo, seja nas exportações líquidas das importações. Em outras palavras, um aumento nos gastos do governo eleva o nível de renda e um aumento nas exportações produz efeito idêntico, enquanto um aumento nas importações produz efeito contrário, todos esses efeitos devidamente ampliados, para cima ou para baixo, conforme o caso, pela magnitude do multiplicador.

Uma forma bastante sugestiva de compreender esse processo é pensar num mecanismo de estímulos e desestímulos que estão permanentemente influenciando o nível de renda e de produto. Se há um aumento na parcela autônoma do consumo, ou no investimento, ou nos gastos do governo, ou ainda na demanda externa pelos bens e serviços que a economia em questão produz, qualquer um desses aumentos vai estimular a produção e elevar o nível de renda na magnitude determinada pelo multiplicador. No caso das exportações, trata-se, na verdade, de um estímulo externo, ou, em outras palavras, de uma injeção de demanda na economia, que provém de um aumento na demanda externa pelos bens e serviços internamente produzidos. Simetricamente, um aumento nas importações representa um vazamento de estímulo, ou seja, uma transferência, para fora da economia, de uma parcela de sua demanda por bens e serviços.�
A expressão 3.7 mostra-nos, ainda, a importância que acabou sendo atribuída ao governo por conta das considerações de Keynes quanto aos determinantes do nível de renda. Se um aumento no nível de renda e produto em que opera a economia pode ser proveniente de uma elevação nos gastos do governo, então cabe a este um importante papel, além daqueles normalmente a ele consagrados. Em determinados momentos em que o investimento insista em manter-se deprimido e em que os estímulos advindos de fora da economia não sejam suficientes para evitar o desemprego, só o governo tem condição de retirar a economia de tal situação. Aumentando