Captulo 3
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Captulo 3

Disciplina:Contabilidade Social e Balanço de Pagamentos119 materiais1.349 seguidores
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seus gastos, ele promoverá, conseqüentemente, uma elevação no nível de renda e produto, que poderá, inclusive, reverter as expectativas pessimistas quanto ao futuro e, assim, recuperar, em curto espaço de tempo, o próprio nível de investimento. É em função de tal capacidade que, a partir de Keynes, o governo passa a ter também a responsabilidade por aquilo que se costuma denominar controle da demanda efetiva. Em outras palavras, ele tem de acompanhar a evolução da economia e intervir sempre que necessário para impedir que ela fique deprimida por longos períodos de tempo.

Tais considerações, bem como o novo papel que ganha o governo a partir delas, deram origem, no mundo acadêmico, ao que se chamou consenso keynesiano, e, no funcionamento prático do capitalismo, particularmente nas economias centrais, a um período de cerca de 30 anos (do pós-guerra até meados da década de 1970), em que o Estado efetivamente assumiu esse papel.

A partir de então muita coisa mudou. No mundo acadêmico, o consenso foi rompido pelo advento da teoria das expectativas racionais, que deu nova vida aos pressupostos que Keynes atacara e recuperou a primazia da teoria ortodoxa (neoclássica). No mundo real, a combinação de inflação com desemprego levou a uma onda de contestação quanto à pertinência do papel do Estado como regulador do nível de demanda e pôs em destaque as políticas associadas àquilo que se costuma chamar neoliberalismo (controle dos gastos públicos, Estado mínimo, privatizações, desregulamentação e abertura econômica, entre outros). O sistema de contas nacionais, porém, pouco ou nada foi abalado por toda essa reviravolta, o que comprova aquilo que, desde o início, tentamos demonstrar, ou seja, que as identidades macroeconômicas não são, por si só, indicadoras de relações de causalidade entre as variáveis que as constituem.
Na relação entre macroeconomia e contabilidade nacional, o que de fato ocorreu foi que, partindo de sua preocupação em construir uma teoria da demanda como um todo que, segundo Keynes, faltava à teoria econômica de então,� o trabalho teórico desse grande economista britânico permitiu descobrir a existência ex-post da identidade entre produto, renda e dispêndio (demanda agregada). Hoje, essa identidade não é questionada por ninguém independentemente de se aceitar ou não as relações de causa efeito que as proposições teóricas keynesianas defendem para a dinâmica ex-ante do sistema econômico. Por isso, uma das óticas de mensuração do produto é justamente a ótica da demanda (dispêndio), a qual mostra a composição do PIB a partir das categorias de demanda tal como estipulado na equação Y = C + I + G + (X – M). Esta última, portanto, além de ser uma proposição teórica derivada da teoria keynesiana acabou por constituir-se também numa identidade macroeconômica. O formato da conta do produto tal como apresentado pelo sistema que vigorou no Brasil até 1996, e que vai reproduzida abaixo, mostra claramente essa relação.

	Quadro 3.3
Conta Produto Interno Bruto (PIB)

	Débito
	Crédito

	Produto Interno Bruto a custo de fatores
Remuneração dos empregados
Excedente Operacional Bruto
Tributos indiretos
(menos) Subsídios
	Consumo final das famílias
Consumo final das administrações públicas
Formação bruta de capital fixo
Variação de estoques
Exportações de bens e serviços não fatores

(menos) Importações de bens e serviços não fatores

	Produto Interno Bruto a preços de mercado (PIBpm)
	Dispêndio correspondente ao Produto Interno Bruto

	

3.2 As identidades contábeis presentes no sistema de contas nacionais

Além da identidade contábil básica entre produto, dispêndio e renda, existe uma outra de grande importância, à qual também já nos referimos anteriormente, que é a identidade entre poupança e investimento. Foi discutindo essa identidade que, no capítulo1, começamos a introduzir a questão que é objeto deste capítulo, qual seja, a relação entre contabilidade nacional e macroeconomia e, daí, a distinção entre igualdades (=), em geral derivadas de proposições teóricas que estabelecem relações de causa e efeito, e identidades (), que expressam as diferentes óticas por meio das quais se pode enxergar e mensurar os agregados econômicos Dissemos ali que não é raro que se enxergue, numa identidade, mais do que ela de fato expressa e que quando se diz, por exemplo, que poupança = investimento existe uma tentação muito grande de se ler tal expressão como se ela estivesse dizendo a poupança precede o investimento, ou sem poupança não há investimento ou a poupança explica o investimento. Observamos então que tais afirmações envolvem relações de causa e efeito que não podem ser legitimamente extraídas da expressão poupança = investimento, a qual significa tão-somente a existência de uma identidade contábil entre os dois elementos.�
Tendo isso em mente, cabe-nos, nesta última seção do presente capítulo, apresentar o conjunto das demais identidades contábeis que derivam dessas duas identidades básicas (produto  dispêndio  renda e investimento  poupança) e que estão presentes no sistema de contas nacionais. Ao fazê-lo, adiantaremos a explicação de alguns conceitos relativos a agregados econômicos que ser-nos-ão úteis no próximo capítulo, quando faremos a apresentação do sistema atualmente vigente no Brasil, construído a partir das determinações do SNA 93.
Comecemos lembrando a distinção existente entre os agregados medidos internamente e aqueles medidos nacionalmente. Como já vimos, os agregados mensurados do ponto de vista interno medem o valor total produzido no território do país, independentemente da origem dos fatores responsáveis por essa produção, enquanto que os agregados mensurados do ponto de vista nacional consideram o valor adicionado gerado por fatores de produção de propriedade de residentes, independentemente do território onde esse valor é gerado. Vimos também que o sistema de contas construído a partir das determinações do SNA 93, e seguido pelo Brasil desde 1996, não utiliza mais a terminologia PNB ou PNL, pois parte do princípio de que “nacional” é uma qualificação que aplica-se apenas à renda gerada, já que tem que ver com a nacionalidade dos proprietários de fatores de produção.

Assim, falamos em Produto Interno (bruto ou líquido, a preços de mercado ou a custo de fatores), mas em Renda Nacional (bruta ou líquida, a preços de mercado ou a custo de fatores). O primeiro agregado reflete o produto total produzido no território do país, independentemente da origem dos fatores de produção responsáveis por ele. O segundo considera o valor adicionado gerado por fatores de produção de propriedade de residentes, independentemente do território onde esse valor é gerado.
Temos, com isso, a seguinte expressão contábil que deriva da identidade teórica inicial Renda ( Produto ( Dispêndio:

	1) RNB = PIB – RLEE, onde
 RLEE = renda líquida enviada ao exterior

A identidade 1 mostra que a Renda Nacional Bruta pode ser entendida como o valor do PIB deduzido das rendas líquidas enviadas ao exterior, caso em que o PIB será maior que a RNB, ou como o valor do PIB somado ao das rendas líquidas recebidas do exterior (ou, o que é o mesmo, deduzido de uma RLEE com sinal negativo), caso em que o PIB será menor do que a RNB.

É a partir do conceito de RNB que se chega, nas contas nacionais, ao conceito de Renda Nacional Disponível Bruta (ou RDB) que, como vimos no capítulo anterior, é o nome que toma a antiga Conta de Apropriação na versão do sistema brasileiro vigente até 1996, composto por 4 contas. Como veremos adiante, o conceito RDB é importante porque é a partir dele que se pode determinar a poupança bruta da economia, ou poupança doméstica (SD),� como também é conhecida. Esse agregado indica o valor da poupança bruta (considerando-se aí, portanto, também a formação de capital fixo necessária para repor o desgaste do estoque de capital) feita pela economia como um todo, ou seja, incluindo-se o governo, num determinado período de tempo.
Como se chega então do conceito RNB ao conceito