Captulo 3
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Captulo 3

Disciplina:Contabilidade Social e Balanço de Pagamentos119 materiais1.338 seguidores
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RDB? Para entender essa passagem temos que lembrar que a renda efetivamente disponível para os residentes de um país (incluindo o governo) decidirem entre consumir ou poupar tem de incluir também as transferências recebidas do exterior, bem como descontar as transferências enviadas. Transferências, como já vimos, são transações unilaterais, ou seja, que têm apenas uma mão, não representando, portanto, transações econômicas usuais de compra e venda de bens e serviços ou de pagamento a fatores de produção. Assim as transferências enviadas e recebidas do exterior incluem, por exemplo, ajuda humanitária, remessas de imigrantes, gastos com diplomacia etc.. Isto posto, podemos escrever a seguinte identidade:

	 2) RDB = RNB + TUR, onde
 RDB = Renda Nacional Disponível Bruta

 TUR = Transferências Unilateriais líquidas Recebidas

 A partir das expressões anteriores podemos escrever que:

	 PIB = RNB + RLEE (identidade 1 reescrita) e

 RNB = RDB – TUR (identidade 2 reescrita), e então
 3) PIB = RDB + RLEE – TUR

 A identidade 3 indica que o PIB de um país pode ser visto como a soma da Renda Nacional Disponível Bruta mais a renda líquida enviada ao exterior, deduzida essa soma das transferências correntes líquidas recebidas. Está claro que se a renda recebida do exterior for maior que a renda enviada, esse líquido será negativo indicando que o agregado Renda Nacional alcançou um valor maior que o agregado Produto Interno, o que tende a acontecer, como já adiantamos, com os países mais desenvolvidos e que são exportadores de capital. Analogamente, se as transferências unilaterais enviadas alcançarem um valor maior do que as transferências unilateriais recebidas, o sinal da variável TUR deverá ser positivo e não negativo.
As identidades até aqui apresentadas estão se referindo obviamente a uma economia aberta. O governo, contudo, apesar de estar aí implícito, ainda não apareceu explicitamente. Para que ele apareça, é preciso lembrar que a RDB, pode ser dividida em renda do setor privado e renda do governo ou renda líquida do governo (RLG), a qual é composta pela soma dos impostos diretos e indiretos e das outras receitas correntes do governo, deduzida das transferências (recursos pagos diretamente às famílias sob a forma de assistência e previdência, bem como os juros da dívida pública) e dos subsídios concedidos às empresas. Sendo assim podemos escrever:

	 4) RDB = RPD + RLG ou RPD = RDB - RLG, onde

RPD = Renda Privada Disponível

Tendo escrito as identidades Produto ( Renda de modo a tornar aparentes os ajustes requeridos pelo fato de as economias reais serem economias abertas e com governo, cabe-nos agora, para completar o quadro das identidades macroeconômicas presentes no sistema de contas nacionais, considerar a natureza da demanda que gerou esse produto, bem como a alocação da renda gerada por tal produção.
Para tanto, retomemos por pouco tempo a idéia de uma economia fechada e sem governo. Considerando tal economia, pensemos em identidades capazes de expressar a demanda pelo produto e a alocação da renda. Teríamos então que, por um lado, o produto (Y) é igual à demanda por consumo (C ) e à demanda por investimento (I), enquanto que, por outro, a renda (Y) é igual a consumo (C ) mais poupança (S). Formalmente temos que:
	Y = C + I e também Y = C + S
e derivamos daí que:
 5) I = S (ou I ( S)

Ora, com a introdução do governo, as duas expressões que geraram a identidade I ( S ficam modificadas, pois, do ponto de vista da demanda que dá origem ao produto, temos que acrescentar os gastos do governo (G), enquanto que, do ponto de vista da renda que é alocada, temos que introduzir a RLG, já que, além de consumir e poupar, os agentes também pagam impostos, taxas e outros tributos. As mudanças nas expressões que geram a identidade entre investimento e poupança alteram também esta última identidade da seguinte maneira:
	Y = C + I + G e também Y = C + S + RLG
e derivamos daí que:
 6) I + G = S + RLG ou
 6A) I = S + RLG – G

A identidade 6 foi escrita também no formato 6A propositadamente. Isto porque a expressão “RLG – G” significa exatamente a poupança do governo (Sg), enquanto que o termo S significa agora apenas a poupança privada. A identidade 6, portanto, reproduz a identidade básica entre investimento e poupança modificada pela presença do governo. Portanto, ainda sobre a identidade 6 podemos escrever

	Sg = RLG – G, donde

 6B) I = S + Sg

E se chamarmos a soma da poupança privada com a poupança do governo de poupança doméstica (SD), cujo significado já apresentamos anteriormente, teremos ainda que (tudo em termos brutos):

	 S + Sg = SD e, portanto,
6C) I = SD

Isto posto, temos por fim que reintroduzir o setor externo na identidade 6C. Para tanto, é preciso trazer ao quadro as informações referentes à alocação da renda e lembrar que a Renda Disponível Bruta que aparece na identidade 3 também pode ser escrita, do ponto de vista de sua alocação, como o somatório dos recursos destinados ao consumo, com aqueles destinados à poupança e com aqueles destinados ao pagamento de tributos. Sendo assim, temos que:
	 3) PIB = RDB + RLEE – TUR, e também que

 RDB = C + S + RLG, donde

 PIB = C + S + RLG + RLEE – TUR

 Como também

 PIB = C + I + G + (X – M), temos que

 7) I + G + (X – M) = S + RLG + RLEE – TUR, ou ainda
 7A) I – S + (G – RLG) = (M – X) + RLEE – TUR
E lembrando que

 RLG – G = Sg, e que

 (M – X) + RLEE – TUR = Poupança externa (SE), temos finalmente

 7B) I – S – Sg = SE, ou

 7C) I ( S + Sg + SE

A identidade 7, em seu formato 7C, reescreve, para uma economia aberta e com governo, a identidade básica entre investimento e poupança. Ela nos diz que a poupança necessária para suportar o investimento bruto feito pela economia como um todo (governo incluído) vem de três fontes possíveis: do setor privado (S), do governo (Sg) e do setor externo (SE). Evidentemente, qualquer uma delas pode ser negativa. Se, por exemplo, a poupança do governo, for negativa, isto significa que, no período em questão, foi a poupança privada e eventualmente também a poupança externa que possibilitaram a realização do referido investimento. Analogamente, uma poupança externa negativa, significa que essa economia, no período estudado, ao invés de necessitar de financiamento externo foi capaz de financiar o resto do mundo. Nos próximos capítulos entenderemos melhor porque a poupança externa (SE) é igual à soma dos termos (M - X), RLEE e TUR.

Resumo

Os principais pontos vistos neste capítulo foram:

A contabilidade nacional surgiu a partir do advento da teoria keynesiana. O economista inglês John Maynard Keynes, em meados dos anos 1930, escreveu a Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda para atacar a teoria então vigente e mostrar que a economia não dispunha de mecanismos automáticos para sair de situações de recessão e desemprego.

Ao questionar o automatismo implícito na concepção ortodoxa (hoje conhecida como escola neoclássica), Keynes jogou por terra vários dos pressupostos teóricos então vigentes, forjou novos conceitos e revelou identidades. Essas identidades constituíram o fundamento a partir do qual pôde ser desenhado o sistema de contas nacionais.

É preciso distinguir entre identidades, que não pressupõem nenhuma relação de causa e efeito entre os termos que as constituem e proposições teóricas, que pressupõem tais relações.

A identidade entre renda e dispêndio demonstrada pela conta de produção permite perceber que o nível de renda e, portanto, de emprego em que opera a economia depende do nível da demanda agregada.

A demanda agregada é composta por quatro elementos: o Consumo privado, o Investimento, os gastos do Governo e as eXportações líquidas das iMportações.

A Conta Produto Interno Bruto do Sistema de Contas tal como vigorou no Brasil até 1996 permite perceber claramente a identidade