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dos melhores engenhos se 
consagrou à teologia, e para isso concorreram poderosamente os prêmios e toda 
sorte de estímulos a eles reservados. E o cultivo da teologia ocupou 
principalmente o terceiro lapso de tempo, o nosso, isto é, o dos povos ocidentais 
da Europa; tanto mais que no mesmo período começaram a florescer as letras, e 
as controvérsias a respeito de religião começaram a se propagar. Na idade 
anterior, no segundo período, o correspondente aos romanos, as mais 
significativas reflexões e os melhores esforços se ocuparam e se consumiram na 
filosofia moral (que entre os pagãos substituía a teologia) e, ainda, os talentos 
daquele tempo se dedicaram aos assuntos civis, necessidade oriunda da própria 
magnitude do Império Romano, que exigia a dedicação de um grande número 
de homens. Mesmo naquela idade em que se viu florescer ao máximo, entre os 
gregos, a filosofia natural corresponde a uma pequena parte, não contínua, de 
tempo. Nos tempos mais antigos, aqueles que foram chamados de Sete Sábios, 
todos eles afora Tales, se aplicaram à filosofia moral e à política. Nos tempos 
seguintes, depois que Sócrates fez descer a filosofia do céu à terra,45 prevaleceu 
mais ainda a filosofia moral e mais se afastaram os engenhos humanos da 
filosofia natural. 
Contudo, aquele mesmo período em que as investigações da natureza ganharam 
vigor foi corrompido pelas contradições e pela ambição de se emitirem novas 
opiniões, ficando, assim, inutilizado. Dessa forma, durante esses três períodos, a 
filosofia natural, abandonada e dificultada, não é para se admirar que os 
homens, ocupados por outros assuntos, nela pouco tenham progredido. 
LXXX 
Deve-se acrescentar, ademais, que a filosofia natural, mesmo entre os seus 
fautores, não encontrou um único homem inteira e exclusivamente a ela 
dedicado, particularmente nos últimos tempos, a não ser o exemplo isolado de 
elucubrações de algum monge, em sua cela, ou de algum nobre, em sua mansão. 
A filosofia natural servia a alguns de passagem e de ponte para outras 
disciplinas. 
Dessa forma, a grande mãe das ciências foi relegada ao indigno oficio de serva, 
prestando serviços à obra de médicos ou de matemáticos, ou devendo oferecer à 
mente imatura dos jovens o primeiro polimento e a primeira tintura, para 
facilitação e bom êxito de suas posteriores ocupações. Que ninguém espere um 
grande progresso nas ciências, especialmente no seu lado prático,4 6 até que a 
filosofia natural seja levada às ciências particulares e as ciências particulares 
sejam incorporadas à filosofia natural. Por serem disso dependentes é que a 
astronomia, a óptica, a música, inúmeras artes mecânicas, a própria medicina, e, 
o que é espantoso, a filosofia moral e política e as ciências lógicas 4 7 não 
alcançaram qualquer profundidade, mas apenas deslizam pela superfície e 
variedade das coisas. De fato, desde que as ciências particulares se constituíram 
e se dispersaram, não mais se alimentaram da filosofia natural, que lhes poderia 
ter transmitido as fontes e o verdadeiro conhecimento dos movimentos, dos 
raios, dos sons, da estrutura e do esquematismo dos corpos, das afecções e das 
percepções intelectuais, o que lhes teria infundido novas forças para novos 
progressos. Assim, pois, não é de admirar que as ciências não cresçam depois de 
separadas de suas raízes. 
LXXXI 
Ainda há outra causa grande e poderosa do pequeno progresso das ciências. E 
ei-la aqui: não é possível cumprir-se bem uma corrida quando não foi 
estabelecida e prefixada a meta a ser atingida. A verdadeira e legítima meta das 
ciências é a de dotar a vida humana de novos inventos e recursos.48 Mas a turba, 
que forma a grande maio ria, nada percebe, busca o próprio lucro e a glória 
acadêmica. Pode, eventualmente, ocorrer que algum artesão de engenho agudo e 
ávido de glória se aplique a algum novo invento, o que realiza, na maior parte 
dos casos, com os seus próprios recursos. A maior parte dos homens está tão 
longe de dedicar-se ao aumento do acervo das ciências e das artes, que, do 
acervo já à sua disposição, apanham e são atraídos tão-somente o suficiente para 
os usos professorais, para lograr lucro, consideração ou outra vantagem análoga. 
Contudo, se de toda essa multidão alguém se dedica com sinceridade à ciência 
por si mesma, ver-se-á que se volta mais para a variedade das especulações e 
das doutrinas que para uma inquirição severa e rígida da verdade. Ainda mais, 
se se encontra um investigador mais severo da verdade, também ele proporá, 
como sua condição, que satisfaça sua mente e intelecto na representação das 
causas das coisas que já eram conhecidas antes, e não a de conseguir provas 
para novos resultados e luz para novos axiomas. Em suma, se ninguém até 
agora fixou de forma justa o fim da ciência, não é para causar espanto que tudo 
o que se subordine a esse fim desemboque em uma aberração. 
LXXXII 
Ademais, o fim e a meta da ciência foram mal postos pelos homens. Mas, ainda 
que bem postos, a via escolhida é errônea e impérvia. E é de causar estupefação, 
a quem quer que de ânimo avisado considere a matéria, constatar que nenhum 
mortal se tenha cuidado ou tentado a peito traçar e estender ao intelecto humano 
uma via, a partir dos sentidos e da experiência bem fundada, mas que, ao invés, 
se tenha tudo abandonado ou às trevas da tradição, ou ao vórtice e torvelinho 
dos argumentos ou, ainda, às flutuações e desvios do acaso e de uma 
experiência vaga e desregrada. 
Indague agora o espírito sóbrio e diligente qual o caminho escolhido e usado 
pelos homens para a investigação e descoberta da verdade. Logo notará um 
método de descoberta muito simples e sem artifícios, que é o mais familiar aos 
homens. E esse não consiste senão, da parte de quem se disponha e apreste para 
a descoberta, em reunir e consultar o que os outros disseram antes. A seguir, 
acrescentar as próprias reflexões. E, depois de muito esforço da mente, invocar, 
por assim dizer, o seu gênio para que expanda os seus oráculos. Trata-se de 
conduta sem qualquer fundamento e que se move tão -somente ao sabor de 
opiniões. 
Algum outro pode, talvez, invocar o socorro da dialética, que só de nome tem 
relação com o que se propõe. Com efeito, a invenção própria da dialética não se 
refere aos princípios e axiomas fundamentais que sustentam as artes, mas 
apenas a outros princípios que com aqueles parecem estar em acordo. E quando, 
cercada pelos mais curiosos e importunos, é interpelada a respeito das provas e 
da descoberta dos princípios e axiomas primeiros, a dialética os repele com a já 
bem conhecida resposta, remetendo-os à fé e ao juramento que se devem prestar 
aos princípios de cada uma das artes. 
Resta a experiência pura e simples que, quando ocorre por si, é chamada de 
acaso e, se buscada, de experiência. Mas essa espécie de experiência é como 
uma vassoura desfiada, como se costuma dizer, mero tateio, à maneira dos que 
se perdem na escuridão, tudo tateando em busca do verdadeiro caminho, quando 
muito melhor fariam se aguardassem o dia ou acendessem um archote para 
então prosseguirem. Mas a verdadeira ordem da experiência, ao contrário, 
começa por, primeiro, acender o archote e, depois, com o archote mostrar o 
caminho, começando por uma experiência ordenada e medida \u2014nunca vaga e 
errática -, dela deduzindo os axiomas e, dos axiomas, enfim, estabelecendo 
novos experimentos. Pois nem mesmo o Verbo Divino agiu sem ordem sobre a 
massa das coisas. 
Não se admirem pois os homens de que o curso das ciências não tenha tido 
andamento, visto que, ou a experiência foi abandonada, ou nela (os seus 
fautores) se perderam e vagaram como em um labirinto; ao passo que um 
método