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pátria, gênero vulgar a aviltado; o segundo é o dos que ambicionam 
estender o poder e o domínio de sua pátria para todo o gênero humano, gênero 
sem dúvida mais digno, mas não menos cúpido. Mas se alguém se dispõe a 
instaurar e estender o poder e o domínio do gênero humano sobre o universo, a 
sua ambição (se assim pode ser chamada) seria, sem dúvida, a mais sábia e a 
mais nobre de todas. Pois bem, o império do homem sobre as coisas se apóia 
unicamente nas artes e nas ciências. A natureza não se domina, senão 
obedecendo-lhe.131 
E mais ainda: se a utilidade de um invento particular abalou os homens a ponto 
de levá-los a considerar mais que homem aquele que ofereceu à humanidade 
inteira apenas um único beneficio, que excelso lugar não ocupará a descoberta 
que vier abrir caminho a todas as demais descobertas? Contudo, e para dizer 
toda a verdade, assim como devemos dar graças à luz, mercê da qual podemos 
praticar as artes, ler e reconhecermo-nos uns aos outros, devemos reconhecer 
que a própria visão da luz é muito mais benéfica e bela que todas as suas 
vantagens práticas. Assim também a contemplação das coisas tais como são, 
sem superstição e impostura, sem erro ou confusão, é em si mesma mais digna 
que todos os frutos das descobertas. 
Por último, se se objetar com o argumento de que as ciências e as artes se 
podem degradar, facilitando a maldade, a luxúria e paixões semelhantes, que 
ninguém se perturbe com isso, pois o mesmo pode ser dito de todos os bens do 
mundo, da coragem, da força, da própria luz e de tudo o mais. Que o gênero 
humano recupere os seus direitos sobre a natureza, direitos que lhe competem 
por dotação divina. Restitua-se ao homem esse poder e seja o seu exercício 
guiado por uma razão reta e pela verdadeira religião. 
CXXX 
Já é tempo de e xpor a arte de interpretar a natureza. A propósito devemos deixar 
claro que, embora acreditemos ai se encontrarem preceitos muito úteis e 
verdadeiros, não lhe atribuímos absoluta necessidade ou perfeição. De fato, 
somos da opinião de que se os homens tivesssem à mão uma adequada história 
da natureza e da experiência, e a ela se dedicassem cuidadosamente, e se, além 
disso, se impusessem duas precauções: uma, a de renunciar às opiniões e noções 
recebidas; outra, a de coibir, até o momento exato, o ímpeto próprio da mente 
para os princípios mais gerais e para aqueles que se acham próximos; se assim 
procedessem, acabariam, pela própria e genuína força de suas mentes, sem 
nenhum artifício, por chegar à nossa forma de interpretação. A interpretação é, 
com efeito, a obra verdadeira e natural da mente, depois de liberta de todos os 
obstáculos. Mas com os nossos preceitos tudo será mais rápido e seguro. 
Não pretendemos que nada lhe possa ser acrescentado. Ao contrário, nós, que 
consideramos a mente não meramente pelas faculdades que lhe são próprias, 
mas na sua conexão com as coisas, devemos presumir que a arte da invenção 
robustecer-se-á com as próprias descobertas. 
 
 
AFORISMOS SOBRE A INTERPRETAÇÃO DA NATUREZA E O REINO 
DO HOMEM 
 
LIVRO II 
 
 
I 
Engendrar e introduzir nova natureza ou novas naturezas 1 em um corpo 2 dado, 
tal é a obra e o fito do poder humano. E a obra e o fito da ciência humana é 
descobrir a forma 3 de uma natureza dada ou a sua verdadeira diferença ou 
natureza naturante 4 ou fonte de emanação (estes são os vocábulos de que 
dispomos mais adequados para os fatos que apresentamos). A estas empresas 
primárias subordinam-se duas outras secundárias e de cunho inferior. A 
primeira é a transformação de corpos concretos de um em outro, nos limites do 
possível;5 a segunda, a descoberta de toda geração e movimento do processo 
latente,6 contínuo, a partir do agente manifesto até a forma implícita 7 e 
descobrir, também, o esquematismo latente 8 dos corpos quiescentes e não em 
movimento. 
II 
A infeliz situação em que se encontra a ciência humana transparece até nas 
manifestações do vulgo. Afirma-se corretamente que o verdadeiro saber é o 
saber pelas causas.9 E, não indevidamente, estabelecem-se quatro coisas: a 
matéria, a forma, a causa eficiente, a causa final.1 0 Destas, a causa final longe 
está de fazer avançar as ciências, pois na verdade as corrompe; mas pode ser de 
interesse para as ações humanas.1 1 A descoberta da forma tem-se como impossí-
vel.1 2 E a causa eficiente e a causa material (tal como são investigadas e 
admitidas, isto é, como remotas e sem o processo latente no sentido da forma) 
são perfunctórias e superficiais, em nada beneficiando a ciência verdadeira e 
ativa. Não nos esquecemos, porém, de antes ter notado e procurado sanar o erro 
da mente humana que consiste em atribuir à forma o afirmado da essência.1 3 
Ainda que na natureza, de fato, nada mais exista que corpos individuais que 
produzem atos puros individuais, segundo uma lei, na ciência é essa mesma lei, 
bem assim a sua investigação, na descoberta e explicação, que se constitui no 
fundamento para o saber e para a prática. Pelo nome de forma entendemos essa 
lei e seus parágrafos,1 4 mormente porque tal vocábulo é de uso comum e se 
tornou familiar. 
III 
Quem conhece a causa de alguma natureza (como a da brancura ou do calor), 
somente em determinados sujeitos, possui uma ciência imperfeita, que pode 
produzir um efeito em apenas determinadas matérias (entre as que são 
suscetíveis), esse possui igualmente um poder imperfeito. E quem conhece 
apenas a causa eficiente e a causa material (que são causas instáveis e não mais 
que veículos que em certos casos provocam a forma), esse pode chegar a novas 
descobertas em matéria algo semelhante e para isso preparada, mas não 
conseguir mudar os limites mais profundos e estáveis das coisas. Mas o que 
conhece as formas abarca a unidade da natureza nas suas mais dissímeis 
matérias e, em vista disso, pode descobrir e provocar o que até agora não se 
produziu, nem pelas vicissitudes naturais, nem pela atividade experimental, nem 
pelo próprio acaso e nem sequer chegou a ser cogitado pela mente humana. 
Assim é que da descoberta das formas resultam a verdade na investigação e a 
liberdade na operação. 
IV 
Ainda que as vias que levam ao humano poder e à humana ciência estejam 
muito ligadas e sejam quase coincidentes, apesar do pernicioso e inveterado 
hábito de se propender para as abstrações, é muito mais seguro urdir e derivar as 
ciências dos mesmos fundamentos apropriados para o lado prático e deixar que 
esta designe e determine o lado contemplativo. Em vista disso, para se gerar ou 
introduzir em um corpo dado uma certa natureza, é necessário se considere 
devidamente o preceito ou direção ou dedução que deve ser escolhido, e isso 
deve ser feito em termos claros e não abstrusos. 
Por exemplo, se alguém se propõe a dotar a prata da cor amarela do ouro ou 
aumentar-lhe o peso (observando as leis da matéria) ou tornar transparente uma 
pedra não transparente, ou dar resistência ao vidro, ou vegetação a um corpo 
não vegetal, deve averiguar a regra ou a dedução mais conveniente para o caso. 
Com tal propósito, em primeiro lugar, estará, sem dúvida, interessado em um 
procedimento que não frustre a empresa, nem leve ao malogro o experimento. 
Em segundo lugar, estará igualmente interessado em um procedimento que não 
o constranja nem o force ao uso de certos meios e modos particulares de 
proceder. Pois pode ocorrer que não disponha de tais meios ou não tenha 
possibilidade ou condições de consegui-los. E se há outros meios ou modos para 
reproduzir a natureza desejada (além daqueles preceitos), eles poderiam estar ao 
alcance do operador. E este poderia, pela rigidez dos preceitos, anular os 
resultados.