novum_organum
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orgânicos (como os do homem e dos animais) foram 
adotados procedimentos bastante acertados e fecundos; trata-se de tarefa 
delicada e que efetua um ótimo escrutínio da natureza. Mas esse gênero de 
anatomia dependendo do visível e dos sentidos, em geral, só vige para os corpos 
orgânicos. E isso é, aliás, algo óbvio e pronto, em comparação com a verdadeira 
anatomia do esquematismo latente dos corpos tidos por similares, especialmente 
das coisas específicas e de suas partes, como o ferro e a pedra, nas partes 
similares da planta e do animal, como a raiz, a folha, a flor, a carne, o sangue, o 
osso, etc. E é de se notar que mesmo nesse gênero não se interrompeu a 
indústria humana. Assim o indica a separação dos corpos similares pela 
destilação, bem como outros modos de separação, que procuram fazer aparecer 
a dessemelhança interna, congregando as partes homogêneas, e isso que é usual 
atende também ao que buscamos; conquanto seja algo falaz, uma vez que 
muitas naturezas são imputadas e atribuídas à separação, como se antes 
existissem no composto, na verdade foram estabelecidas e superinduzidas 
recentemente 30 pelo fogo, e pelo calor e por outros métodos de separação. Mas, 
ademais, esta é uma pequena parte do trabalho de descoberta do verdadeiro 
esquematismo do composto, uma vez que o esquematismo é algo tão sutil e 
preciso que a ação do fogo mais confunde que elucida. 
Em vista disso, a separação e solução dos corpos não devem ser feitas pelo 
fogo, mas pela razão e pela verdadeira indução, com auxílio de experimentos; e 
por meio da comparação com outros corpos e pela redução a naturezas simples 
e a suas formas que se juntam e combinam no composto.3 1 Enfim, deve-se 
deixar Vulcano por Minerva, se se almeja trazer à luz as verdadeiras contexturas 
dos corpos e os seus esquematismos, de que dependem todas as propriedades 
ocultas e, como se costumam chamar, propriedades e virtudes específicas das 
coisas e donde, também, se retiram as normas capazes de conduzir a qualquer 
alteração ou transformação. 
Por exemplo, é de se investigar o que em todo corpo corresponde ao espírito 32 e 
o que corresponde à essência tangível; e se esse mesmo espírito é copioso e 
túrgido ou jejuno e parco; se é tênue ou espesso; se mais próximo do ar ou do 
fogo; se é ativo ou apático; se é delgado ou robusto; se em progresso ou em 
regresso; se é partido ou continuo; se concorde com as coisas exteriores e com o 
ambiente ou em desacordo, etc . O mesmo deve ser feito em relação à essência 
tangível (que não é menos passível de diferenciações que o espírito), e seus 
pêlos, fibras e sua múltipla contextura, bem como a colocação do espírito na 
substância do corpo e seus poros, condutos, veias e células, e os rudimentos ou 
tentativas de corpo orgânico. Tudo isso faz parte da mesma investigação. Mas 
mesmo aqui, como em toda investigação do esquematismo latente, a luz 
verdadeira e clara, que desfaz toda obscuridade e sutileza, só pode provir dos 
axiomas primários. 
VIII 
E nem por isso se deve recorrer aos átomos que pressupõem o vazio e matéria 
estável 34 (ambos falsos), mas às partículas verda deiras,35 tal como se encontram. 
Tal sutileza, tampouco, é de causar espanto, como se fosse inexplicável. Ao 
contrário, quanto mais a investigação se dirige às naturezas simples tanto mais 
se aplainam e se tornam perspicazes as coisas, passando o objeto do multíplice 
ao simples, do incomensurável ao comensurável, do insensível ao calculável, do 
infinito e vago ao definido e certo, como ocorre com as letras do alfabeto e com 
as notas da música. Todavia, a investigação natural se orienta da melhor forma 
quando a física é rematada com auxílio da matemática.36 E então, que ninguém 
se espante com as multiplicações e com os fracionamentos, pois, quando se trata 
com números, tanto faz colocar ou pensar em mil ou em um, ou na milésima 
parte ou no inteiro. 
IX 
Das duas espécies de axiomas 3 7 antes estabelecidas 38 origina-se a verdadeira 
divisão da filosofia e das ciências, devendo-se, bem entendido, ajustar 
vocábulos comumente aceitos (os mais apropriados para indicar o que 
pretendemos) ao sentido que lhes emprestamos. 
Assim, a investigação das formas que são (pelo seu princípio e lei) 3 9 eternas e 
imóveis constitui a Metafísica.40 A investigação da causa eficiente, da matéria, 
do processo latente e do esquematismo latente (que dizem respeito ao curso 
comum e ordinário da natureza, não a leis fundamentais e eternas) constitui a 
Física. E a elas subordinam-se duas divisões práticas: à Física, a Mecânica; à 
Metafísica, a Magia (depois de purificado o nome), em vista das amplas vias 
que abrem e do maior domínio sobre a natureza que propiciam. 
X 
Uma vez estabelecido o escopo da ciência, passamos aos preceitos e na ordem 
menos sin uosa e obscura possível. E as indicações acerca da interpretação da 
natureza compreendem duas partes gerais: a primeira, que consiste em 
estabelecer e fazer surgir os axiomas da experiência; a segunda, em deduzir e 
derivar experimentos novos dos axiomas.4 1 A primeira parte divide-se em três 
administrações,4 2 a saber, administração dos sentidos, administração da 
memória e administração da mente ou da razão.4 3 
Em primeiro lugar, com efeito, deve-se preparar uma História Natural e 
Experimental que seja suficiente e correta (exata), pois é o fundamento de tudo 
o mais. E não se deve inventar ou imaginar o que a natureza faz ou produz, mas 
descobri-lo. 
Mas na verdade, a história natural e experimental é tão vária e ampla que 
confunde e dispersa o intelecto, se não for estatuída e orga nizada segundo uma 
ordem adequada. Por isso devem ser preparadas as tábuas e coordenações de 
instâncias,4 4 dispostas de tal modo que o intelecto com elas possa operar. 
Mas, mesmo assim procedendo, o intelecto abandonado a si mesmo e a o seu 
movimento espontâneo é incompetente e inábil para a construção dos axiomas, 
se não for orientado e amparado. Daí, em terceiro lugar, deve ser adotada a 
verdadeira e legítima indução, que é a própria chave da interpretação. Contudo, 
devemos começar pelo fim e depois retroceder em direção ao resto.4 5 
XI 
A investigação das formas assim procede: sobre uma natureza dada deve-se em 
primeiro lugar fazer uma citação perante o intelecto 4 6 de todas as instâncias 
conhecidas que concordam com uma mesma natureza, mesmo que se encontrem 
em matérias dessemelhantes.4 7 E essa coleção deve ser feita historicamente,4 8 
sem especulações prematuras ou qualquer requinte demasiado. Como exemplo, 
imagine-se uma investigação sobre a forma do calor:4 9 
Instâncias conformes (convenientes) na natureza do calor 5 0 
1. Os raios do sol, sobretudo no verão e ao meio-dia. 
2. Os raios do sol refletidos e condensados, como entre montes ou por 
muros e sobretudo sobre espelhos. 
3. Meteoros ígneos. 
4. Raios flamejantes. 
5. Erupções de chamas das crateras dos montes, etc. 
6. Chamas de todas as espécies. 
7. Sólidos em combustão. 
8. Banhos quentes naturais. 
9. Líquidos ferventes ou aquecidos. 
10. Vapores e fumaças quentes, e o próprio ar que adquire um calor 
fortíssimo e violento, quando fechado, como nas fornalhas. 
11. Certos períodos de seca causados pela própria constituição do ar, fora de 
estação. 
12. O ar fechado e encerrado em certas cavernas, sobretudo no inverno. 
13. Todos os corpos cobertos por pêlos, como a lã, os pêlos dos animais, a 
plumagem, têm sempre alguma tepidez. 
14. Todos os corpos sólidos, líquidos, densos ou rarefeitos (como o próprio 
ar) aproximados por algum tempo do fogo. 
15. As faíscas produzidas por fortes impactos da pedra ou do aço. 
16. Todo corpo que tenha um forte