novum_organum
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espuma e na neve, que adquirem tal consistência que chegam 
quase a ser passíveis de cortes, mesmo sendo corpos formados de ar e de água, 
ambos líquidos. Todos esses exemplos indicam de maneira nada obscura que o 
líquido 148 e a consistência são noções vulgares e relativas aos sentidos;149 mas 
também que em todos os corpos está presente a fuga ou a tendên cia no sentido 
de evitar a própria descontinuidade e que tal tendência nos corpos homogêneos, 
como nos líquidos, é débil e frouxa; enquanto que nos corpos compostos de 
partes heterogêneas é muito mais forte e viva. E isso porque a presença de um 
corpo heterogêneo une os corpos, enquanto a introdução de um corpo 
homogêneo os dis solve e relaxa. 
Da mesma maneira, procure-se investigar, por exemplo, a natureza da atração 
ou coesão dos corpos.150 A mais notável instância ostensiva dessa forma é o 
magneto. A natureza contrária à atração é a não-atração, como a que existe em 
substâncias semelhantes. O ferro não atrai o ferro, o chumbo não atrai o 
chumbo, a madeira não atrai a madeira, a água não atrai a água, etc. Mas a 
instância clandestina é o magneto armado de ferro, ou melhor, o ferro armado 
em um magneto. A natureza é tal que o magneto, armado a uma certa distância, 
não exerce mais atração sobre o ferro que o magneto desarmado. Mas se o ferro 
é aproximado do magneto, armado até tocá-lo, então o magneto armado 
sustentará um peso de ferro muito maior que um magneto simples e sem 
armação, em vista da semelhança da substância do ferro com o ferro. Essa 
propriedade de operar era completamente clandestina ou latente no ferro, antes 
que o magneto dele fosse aproximado. Daí fica claro que a forma de coesão dos 
corpos é algo de vivo e intenso no magneto, fraco e latente no ferro. Deve, 
ainda, ser notado que pequenas flechas de madeira, sem ponta de ferro, dispara-
das por bestas grandes, penetram mais a madeira (como os flancos do navio ou 
coisas semelhantes) que essas mesmas flechas armadas com a ponta de ferro; 
isso devido à semelhança da substância da madeira com a madeira, embora essa 
propriedade já antes estivesse latente na madeira. Da mesma maneira, apesar de 
o ar manifestamente não atrair o ar e a água, água, uma bolha aproximada de 
outra bolha dissolve-se mais facilmente que se tal não tivesse ocorrido, isso 
devido ao apetite de coesão que tem a água para com a água e o ar para com o 
ar. Tais instâncias clandestinas (que são de notável utilidade, como já foi dito) 
tornam-se visíveis sobretudo em porções pequenas e sutis dos corpos. As 
massas maiores seguem formas mais gerais e universais, como se dirá no devido 
lugar. 
XXVI 
Entre as instâncias prerrogativas, colocamos em quinto lugar as instâncias 
constitutivas,151 a que também costumamos chamar de manipulares.152 São as 
que se constituem numa espécie da natureza investigada, à maneira de forma 
menor. Com efeito, como as formas legítimas (que são sempre conversíveis nas 
naturezas investigadas) são muito latentes e não são facilmente descobertas, a 
vacilação e a fragilidade do intelecto humano requerem que as formas 
particulares, que reúnem alguns punhados de instâncias, mas não todas em uma 
noção comum, não sejam negligenciadas, antes notadas com toda diligência. 
Pois tudo o que serve para conferir unidade à natureza, ainda que de modo 
imperfeito, abre caminho à descoberta das formas. Portanto, as instâncias que 
são úteis a esse propósito não podem ser desprezadas quanto à sua força e têm 
até certas prerrogativas. 
Mas o seu emprego deve ser feito com diligente cautela, para se evitar que o 
intelecto humano, depois de ter descoberto muitas dessas formas particulares e 
de ter estabelecido as partições ou divisões da natureza investigada, acabe se 
contentando apenas com isso e não prossiga na investigação legítima da forma 
grande;153 mas acabe supondo que a natureza, na sua própria raiz, é múltipla e 
dividida, e descure e suponha a ulterior unidade da natureza como uma sutileza 
vã, que conduz a meras abstrações. 
Estabeleça-se, por exemplo, que a natureza a ser investigada seja a memória ou 
aquilo que excita e ajuda a memória. As instâncias constitutivas são a ordem ou 
a distribuição que manifestamente ajudam a memória, como também é o caso 
dos tópicos 154 da memória artificial,155 que podem ser lugares, no seu 
significado verdadeiro e próprio, como a porta, o ângulo, a janela e coisas 
parecidas, e podem ser pessoas, familiares e conhecidas; podem ser, ainda, 
outras coisas (desde que dispostas em uma determinada ordem), como animais 
ou ervas; podem ser, ainda, palavras, letras, caracteres, personagens históricas, 
etc. Para cada caso devem ser verificados os que são mais ou menos aptos e 
cômodos. Tais tópicos ajudam significativamente a mente e predispõem-na em 
relação a forças naturais. Por essa razão os versos permanecem e prendem mais 
facilmente a memória que a prosa. O conjunto ou manípulo dessas três 
instâncias, ou seja, a ordem, os tópicos da memória artificial e os versos, 
constitui uma só espécie de ajuda à memória de tal espécie que pode chamar -se 
justamente de corte do infinito.156 Com efeito, quando se procura recordar 
alguma coisa ou buscá-la na memória, se não se conta com nenhuma prenoção 
ou percepção do que se busca, a procura se cumpre de maneira errante, indo-se 
aqui e ali, e assim quase ao infinito. Mas, se se dispõe de alguma prenoção 
segura, subitamente é interrompido o vagar ao infinito e o discurso da memória 
se torna mais próximo. Pois bem, na três instâncias supracitadas a prenoção é 
evidente e certa: na primeira, trata-se de algo que retoma certa ordem; na 
segunda, trata-se de uma imagem que tem alguma relação ou conveniência com 
os tópicos estabelecidos; na terceira, trata-se de palavras que formam um verso. 
E assim é que se interrompe o vagar ao infinito. Outras instâncias nos 
oferecerão a seguinte segunda espécie: tudo o que conduz o que é do intelecto à 
impressão dos sentidos 157 ajuda a memória (conforme uma regra muito seguida 
pela memória artificial). Outras instâncias oferecerão esta terceira espécie: tudo 
o que provoca uma impressão, sob um intenso afeto,158 ou seja, o que infunde 
medo, admiração, vergonha, deleite, ajuda a memória. Outras instâncias 
oferecerão esta quarta espécie: tudo o que se imprime na mente pura ou antes de 
estar ocupada ou despreocupada de algo, como o que se aprende na infância ou 
o que se pensa antes do sono e ainda o que acontece pela primeira vez, melhor 
se fixa na memória. Outras instâncias oferecerão esta quinta espécie: o grande 
número de circunstâncias e de ocasiões ajuda a memória como o hábito de 
escrever-se por partes descontínuas e a leitu ra e recitação em voz alta. Outras 
instâncias, finalmente, oferecerão esta sexta espécie: tudo o que se espera e que 
excita a atenção grava-se na mente muito mais que o que transcorre sem 
preocupação. Por isso, se se ler um escrito vinte vezes, não será aprendido de 
memória com a facilidade resultante de dez leituras, nas quais se procure dizer o 
texto de memória, apenas retomando o escrito quando aquela falhar. 
Assim, seis são as formas menores de ajuda à memória: a inter rupção ou corte 
do vagar ao infinito, a redução do intelectual ao sensível, a impressão recebida 
sob intensa vibração de ânimo, a impressão feita em uma mente pura, a 
multidão de ocasiões, a expectativa prévia. 
Da mesma maneira, tome-se, por exemplo, para a investigação, a natureza do 
gosto ou da degustação. As instâncias que se seguem são constitutivas: os 
indivíduos que por natureza são destituídos do olfato são também providos do 
gosto, assim não distinguem o alimento rançoso ou podre, como também não