novum_organum
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era tangível, mas que agora não o é mais. A saída ou 
emissão do espírito se faz sensível pela ferrugem dos metais e outras 
putrefações do gênero que ficam em seu início e não chegam ao ponto em que 
começa a vivificação, e essas coisas pertencem ao terceiro gênero de processo. 
De fato, nos corpos mais compactos, o espírito não encontra furos ou poros por 
onde escapar; portanto, vê-se obrigado a empurrar e pressionar as partes 
tangíveis, de maneira a fazê-las sair juntamente para a superfície, onde formam 
a ferrugem e incrustações semelhantes. Os sinais sensíveis da contração das 
partes tangíveis, depois da emissão de parte do espírito (que é a causa da 
dessecação do corpo), são dados pela sua própria dureza, e mais ainda pelas 
fendas, gretas, enrugamentos, dobras, etc., que são efeitos que a ela se seguem. 
Por isso, as partes da madeira arqueiam-se e contraem-se; as peles se enrugam. 
E não é só isso: sob a ação do fogo, que acelera a emissão do espírito, a 
contração chega a fazer com que os corpos se dobrem e enrolem. 
Se, ao contrário, o espírito é retido, mas se dilata e se excita pelo calor, e por 
outras causas (como ocorre com os corpos duros), então os corpos amolecem, 
como o ferro candente; outros metais se fluidificam, liqüefazem-se, como as 
resinas, a cera e outras substâncias semelhantes. E as operações contrárias do 
calor, endurecendo certos corpos e liquefazendo outros, conciliam-se facilmente 
ao ser levado em conta que no endurecimento o espírito se evapora, na 
liquefação é agitado, mas retido no corpo; é que, enquanto a liquefação é ação 
própria do calor e do espírito, o endurecimento é ação das partes tangíveis 
motivada pela saída do espírito. 
Mas quando o espírito não está nem completamente retido nem completamente 
desprendido, mas apenas faz esforços e tentativas na sua prisão corpórea, e se 
depara com as partes tangíveis que lhe são obedientes e inclinadas a 
acompanhar as suas operações e de fato o seguem, disso resulta a formação do 
organismo, com seus membros e demais ações vitais, quer animal, quer vegetal. 
Tal desenvolvimento pode ser tornado sensível especialmente com a cuidadosa 
observação dos primeiros movimentos e das primeiras manifestações ou nas ori-
gens da vida, nos animálculos que nascem da putrefação, como, por exemplo, os 
ovos das formigas, vermes, moscas ou rãs que surgem depois da chuva, etc. 
Para lhes dar a vida, é necessário um calor tênue e uma certa viscosidade da 
matéria, para que o espírito não escape e para que a rigidez das partes não lhe 
ofereça excessiva resistência e possa plasmá-las e modelá-las como à cera. 
Outra diferenciação do espírito, respeitável e de freqüente aplicação (ou seja, 
interrompido, ramificado e, ao mesmo tempo, ramificado e celulado,216 sendo o 
primeiro o espírito de todos os corpos inanimados, o segundo o dos vegetais, o 
terceiro o dos animais). Também essa diferenciação pode ser colocada diante 
dos olhos, por várias instâncias de redução. 
É evidente que as mais sutis configurações e os esquematismos das coisas 
(mesmo que os corpos sejam inteiramente visíveis e tangíveis) não se pode nem 
ver nem tocar. Por isso também aqui a informação procede por redução. 
Contudo, a diferença fundamental primária dos esquematismos é obtida pela 
maior ou menor massa de matéria que possa ocupar um mesmo espaço ou 
dimensão. Os demais esquematismos que consistem na diversidade das partes 
contidas em um mesmo corpo e na sua diversa colocação ou posição são 
secundários em comparação com o primeiro. 
Tome-se, pois, para investigação a natureza da expansão ou força de coesão da 
matéria em relação aos vários corpos, para saber que quantidade de matéria se 
contém em uma mesma dimensão de cada corpo. Nada há de mais verdadeiro na 
natureza que a proposição \u201cdo nada nada provém\u201d e que a outra sua parceira 
\u201cnada há que se reduza ao nada\u201d; quer dizer, a quantidade em si da matér ia ou a 
sua soma total permanece inalterada, sem aumentar ou diminuir.217 E não é 
menos verdadeiro que \u201cessa quantidade total de matéria se contém, mais ou 
menos, nos mesmos espaços ou dimensões, conforme a diferente natureza dos 
corpos\u201d; assim é que a água contém mais, o ar menos; de modo que, se alguém 
assegurasse que um mesmo volu me de água pode ser convertido em um volume 
igual de ar, seria o mesmo que dissesse que se pode reduzir algo a nada; e, no 
caso inverso, se alguém dissesse que um volume de ar pode ser convertido em 
um igual volume de água, seria o mesmo que dissesse que se pode produzir algo 
a partir do nada. É dessa diferente distribuição de matéria que se formam os 
conceitos de raro e denso, usados depois de várias e confusas maneiras. Deve-
se também tomar como axioma a asserção bastante acertada: o mais ou o menos 
da matéria deste ou daquele corpo pode ser reduzido a proporções exatas ou 
quase exatas por meio de cálculos comparativos. Pelo que não estaria enganado 
quem dissesse que em um determinado volume de ouro há tal acumulação de 
matéria que o espírito do vinho necessitaria, para igualar tal quantidade de 
matéria, de um espaço vinte e uma vezes maior que o ocupado pelo ouro. 
A acumulação da matéria e suas proporções se tornam sensíveis pelo peso. O 
peso, de fato, corresponde à quantidade de matéria em relação às partes de uma 
coisa tangível, mas o espírito e a sua quantidade de matéria não podem ser 
computados pelo peso, já que o corpo se torna mais leve e não mais pesado. 
Mas elaboramos com bastante cuidado uma tábua disso, na qual são expostos os 
pesos e os respectivos volumes de cada um dos metais, das principais pedras, 
das madeiras, dos líquidos, dos óleos e de muitos outros corpos naturais e 
artificiais. É um verdadeiro policresto, para fornecer tanta luz às informações 
quanto as normas das operações e que pode levar à des coberta de muita verdade 
insuspeitada. E não se deve subestimar o fato de que a referida tábua demonstra 
que o peso específico dos corpos tangíveis observados (referimo-nos aos corpos 
bem unidos, não os esponjosos, ou cavernosos e em boa proporção cheios de ar) 
não ultrapassa a relação de vinte para um (um a vinte), já que assim limitada é a 
natureza, pelo menos nos aspectos com que nos preocupamos. 
Sentimos também que o espírito de exatidão de que nos ufanamos obriga-nos a 
tentar descobrir uma proporção entre os corpos não tangíveis ou pneumáticos e 
os tangíveis. E o tentamos da seguinte maneira: tome-se uma ampola de vidro 
de uma onça de capacidade, aproximadamente, pequena o suficiente para 
conseguir evaporação com pouco calor; coloque-se quase até o gargalo espírito 
de vinho (que é o corpo mais rarefeito e o que contém menos quantidade de 
matéria entre os corpos tangíveis da tábua precedente, pelo menos entre os bem 
unidos e não cavernosos) e se anote cuidadosamente o peso. Depois disso, 
pegue-se uma bexiga que contenha uma ou duas pintas;218 retire-se todo o ar 
possível da bexiga, até que os seus dois lados se toquem em todas as partes. 
Antes a bexiga deve ter sido friccionada com azeite para tapar todos os poros. A 
seguir, coloque-se a boca da bexiga em torno do gargalo da ampola, amarrando-
o bem, com fios encerados, para melhor vedação. Depois disso, aqueça -se o 
frasco sobre carvões, em um pequeno forno. P ouco depois, a evaporação ou 
exalação do espírito do vinho, dilatado e tornado pneumático pelo calor, começa 
a inchar lentamente a bexiga por todos os lados, como uma vela ao vento. A 
seguir, retire-se o frasco do fogo, colocando-o sobre um tapete, para que o 
resfriamento rápido não o quebre, e faça-se imediatamente um furo na parte 
superior da bexiga, para evitar que o vapor, esfriando, retorne ao estado líquido, 
atrapalhando