novum_organum
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sendo a esfera pequena em relação ao bojo da campânula, o ar se 
contrai, ocupando um menor espaço, sendo muito grande para que o ar 
facilmente recuasse; este, não suportando a grande pressão, elevava um dos 
lados da campânula, subindo à tona em pequenas bolhas. 
Igualmente, para provar o maior grau de expansão do ar (como a sua 
compressão), procedemos da seguinte forma: pegamos um ovo de vidro, furado 
numa das pontas; por meio de forte sucção foi extraído o ar pelo orifício , 
tapando-o com o dedo; em seguida, mergulhamo-lo na água, retirando o dedo; 
com isso o ar, deformado pela tensão causada pela sucção e dilatado fora de sua 
dimensão natural, procurando, com isso, se contrair e se reduzir (de tal forma 
que, se o ovo não estivesse mergulhado na água, o ar teria sido atraído com um 
silvo), atraiu água em quantidade suficiente para que o ar ocupasse igual espaço 
ao que ocupava antes. 
Assim, fica estabelecido que os corpos mais tênues, como o ar, também 
suportam uma notável contração (como dissemos); ao passo que os corpos 
tangíveis, como a água, muito mais dificilmente suportam a compressão e em 
menor extensão. Em outro experimento procuramos verificar até que ponto a 
suporta. Mandamos confeccionar uma esfera de chumbo oca, de uma ou duas 
pintas de capacidade, e seus lados eram grossos o suficiente para resistir com 
grande força: enchemo-la com água por um orifício, que foi, em seguida, tapado 
com chumbo derretido, de modo a ficar bem vedada; depois achata mo-la, com 
um martelo , em dois lados opostos. Com tal achatamento, necessariamente a 
água ocupava menor espaço, posto que a esfera e a figura eram de maior 
capacidade. Ficando já o martelo ineficaz, em vista da resistência da água, 
colocamo-la em uma prensa, apertando-a até o momento em que, não 
suportando mais a pressão, a água começou a destilar-se das paredes sólidas do 
chumbo, como delicada exsudação. Finalmente, calculamos o espaço perdido 
pela compressão e concluímos que a água se havia comprimido outro tanto, 
suportando uma pressão bastante violenta. 
Os corpos mais sólidos, secos e compactos, como a pedra, a madeira e metais, 
suportam uma compressão muito menor e quase imperceptível, mas livram-se 
da violência a que são submetidos partindo-se, alongando-se ou com outros 
movimentos, como se observa no arqueamento da madeira e do metal, nos 
relógios que se movem por uma mola, nos projéteis, no martelamento de metais 
e em muitos outros movimentos. E tudo isso deve ser investigado e anotado no 
estudo da natureza, seja por cálculo direto, seja por estimativa ou por 
comparação, conforme o caso. 
XLVI 
Entre as instâncias prerrogativas, colocamos em vigésimo segundo lugar as 
instâncias de currículo,237 a que também costumamos chamar de instâncias da 
água,238 tomando o nome das clepsidras, usadas pelos antigos, em que punham 
água em lugar de areia. Elas medem a natureza conforme os instantes do tempo, 
como fazem as instâncias da vara em relação às distâncias do espaço. Com 
efeito, todo movimento ou ação natural ocorre no tempo; é mais rápido ou mais 
lerdo que outro, mas sempre conforme durações fixas, notadas na natureza. 
Mesmo as ações súbitas à primeira vista têm causado maior ou menor duração 
temporal. 
Em primeiro lugar, vemos que as revoluções dos corpos celestes ocorrem 
segundo períodos fixos; assim também o fluxo e refluxo do mar. A queda dos 
corpos pesados no sentido da terra e a subida dos corpos leves para o céu 
cumprem-se em tempos determinados, conforme a natureza do corpo e o meio 
em que se movem. Da mesma forma, os v elejos dos navios, o movimento dos 
animais, o arremesso dos projéteis ocorrem em tempos calculáveis no seu 
conjunto. Em relação ao calor, no inverno as crianças \u201clavam\u201d as mãos nas 
chamas sem se queimarem, e os malabaristas, com movimentos ágeis e 
uniformes, colocam com a boca para baixo e para cima copos cheios de vinho 
ou água, sem derramar; e há muitas outras coisas semelhantes. Ainda mais, a 
expansão, a compressão e a erupção dos corpos ocorrem mais ou menos 
velozmente, segundo a natureza do corpo e do movimento, mas sempre em 
instantes determinados. Sabe-se que o ribombar dos canhões, que pode ser 
ouvido até a trinta milhas, é ouvido primeiro pelos que se acham perto e depois 
pelos que se acham distantes do local do disparo. E até a vista, cuja ação é 
rapidíssima, também exige instantes certos para sua atuação; como está provado 
pelo fato de que a uma certa velocidade os corpos não são mais distinguidos, 
como é o caso da bola disparada por um mosquete que passa ante a vista em um 
tempo menor que o exigido para a imagem impressionar a vista. 
Esse exemplo e outros semelhantes fizeram surgir uma dúvida verdadeiramente 
espantosa, ou seja, a de que o aspecto do céu estrelado e sereno é visto no 
momento mesmo em que existe ou um pouco depois; e também, se existem, na 
contemplação dos corpos celestes, um tempo real e um tempo aparente, um 
espaço real e um espaço aparente, tal como é indicado pelos astrônomos nas 
paralaxes. Pois pareceria, de fato, inacreditável que as imagens dos corpos 
celestes pudessem atravessar, com seus raios, em um instante, espaços celestes 
tão vastos sem o emprego de qualquer tempo. Mas essa dúvida relacionada com 
um intervalo de tempo entre o tempo verdadeiro e o tempo aparente desvanece-
se completamente quando se leva em conta a imensa perda de grandeza que 
devem ter as estrelas na sua imagem aparente, em razão da distância e também 
pelo fato de os corpos esbranquiçados, aqui na terra, poderem ser percebidos 
imediatamente, mesmo a uma distância de sessenta milhas. Não pode haver 
dúvida de que a luz dos corpos celestes ultrapassa em muito, em força de 
radiação, a cor viva da brancura, como também a luz de qualquer chama 
conhecida. Além disso, a imensa velocidade dos corpos celestes, que não é 
percebida em seu movimento diurno, o que chegou ao ponto de espantar mesmo 
os varões graves, levando-os a sustentar que o movimento da terra torna mais 
crível esse movimento de emis são dos raios deles saídos (embora com 
extraordinária rapidez, como foi dito). Finalmente, tomamos por confirmada 
definitivamente a falsidade de se admitir um intervalo entre um tempo 
verdadeiro e um tempo aparente, pelo fato de que, nesse caso, uma nuvem ou 
outra perturbação atmosférica qualquer confundiriam com muita freqüência as 
imagens. E é o que tínhamos a dizer a respeito das medidas simples de tempo. 
Mas é necessário investigar, além das medidas simples dos movimentos e das 
ações e muito mais, a medida comparativa, que é muito usada e que se relaciona 
com muitas coisas. Com efeito, a chama que segue à detonação de uma peça de 
artilharia é vista antes da audição do disparo, mesmo andando a bala mais 
rapidamente que a chama, e isso porque o movimento da luz é mais rápido que 
o do som. Sabemos igualmente que as imagens são recebidas pela vista muito 
mais rapidamente do que se desvanecem. E por isso também que as cordas de 
um instrumento, quando vibrados pelo dedo, parecem duplas ou triplas, porque 
se recebe uma nova imagem antes da perda da anterior; um mal em rotação 
parece uma esfera, e uma tocha movida rapidamente, à noite, parece possuir 
uma cauda de fogo. Dessa desigualdade fundamental da velocidade dos 
movimentos extrai Galileu a causa do fluxo e do refluxo do mar. Sendo a terra 
de rotação mais veloz que a água, deve surgir, segundo ele, a acumulação e a 
elevação das águas, e vice-versa, em sua descida, como acontece com um 
recipiente de água fortemente agitado.239 Mas tal opinião se fundamenta em uma 
hipótese arbitrária,240 isto é, que a terra se move, isso sem ter bem observado o 
movimento