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Disciplina:Filosofia e Ética2.285 materiais67.812 seguidores
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bem estabelecido é o guia para a senda certa que, pela selva da

experiência, conduz à planura aberta dos axiomas.

LXXXIII

Esse mal foi espantosamente aumentado pela opinião — tornada presunção

inveterada, conquanto vã e danosa — de que a majestade da mente humana fica

diminuída se muito e a fundo se ocupa de experimentos e de coisas particulares

e determinadas na matéria, mormente tratando-se de coisas, segundo se diz,

laboriosas de inquirir, ignóbeis para a meditação, ásperas para a transmissão,

avaras para a prática, infinitas em número, tênues em sutileza. Chegou-se ao

ponto em que a verdadeira via não só foi abandonada, mas foi ainda fechada e

obstruída. A experiência não foi apenas abandonada ou mal administrada, como

também desprezada.

LXXXIV

A reverência à Antiguidade, o respeito à autoridade de homens tidos como

grandes mestres de filosofia e o geral conformismo para com o atual estádio do

saber e das coisas descobertas também muito retardaram os homens na senda do

progresso das ciências, mantendo-os como que encantados. Desse tipo de

consenso já falamos antes.4 9

No tocante à antiguidade, a opinião dos homens é totalmente imprópria e, a

custo, congruente com o significado da palavra. Deve-se entender mais

corretamente por antiguidade a velhice e a maturidade do mundo e deve ser

atribuída aos nossos tempos e não à época em que viveram os antigos, que era a

do mundo mais jovem. Com efeito, aquela idade que para nós é antiga e madura

é nova e jovem para o mundo.5 0 E do mesmo modo que esperamos do homem

idoso um conhecimento mais vasto das coisas humanas e um juízo mais maduro

que o do jovem, em razão de sua maior experiência, varie dade e maior número

de coisas que pôde ver, ouvir e pensar, assim também é de se esperar de nossa

época (se conhecesse as suas forças e se dispusesse a exercitá-las e estendê-las)

muito mais que de priscas eras, por se tratar de idade mais avançada do mundo,

mais alentada e cumulada de infinitos experimentos e observações.

Por outra parte, não é de se desprezar o fato de que, pelas navegações

longínquas e explorações tão numerosas, em nosso tempo, muitas coisas que se

descortinaram e descobriram podem levar nova luz à filosofia. Assim, será

vergonhoso para os homens que, tendo sido tão imensamente abertas e

perlustradas em nossos tempos as regiões do globo material, ou seja, da terra,

dos astros e dos mares, permaneça o globo intelectual 51 adstrito aos angustos

confins traçados pelos antigos.

No que respeita à autoridade, é de suma pusilanimidade atribuir-se tanto aos

autores e negar-se ao tempo o que lhe é de direito, pois com razão já se disse

que “a verdade é filha do tempo, não da autoridade”.5 2 Não é, portanto, de se

admirar que esse fascínio da Antiguidade, dos autores e do consenso tenha de

tal modo assoberbado as forças dos homens que não puderam eles se

familiarizar com as próprias coisas, como que por artes de algum malefício.

LXXXV

Mas não foi somente a admiração pela Antiguidade, pela autoridade e o respeito

pelo consenso que compeliram a indústria humana a contentar-se com o já

descoberto, mas, também, a admiração pelas aparentemente copiosas obras já

conseguidas pelo gênero humano. Quem puser ante os olhos a variedade e o

magnífico aparato de coisas introduzidas e acumuladas pelas artes mecânicas,

para o cultivo do homem, estará, certamente, muito mais inclinado a admirar-se

da sua opulência que da penúria. Isso sem se dar conta de que os primeiros

resultados da observação e as primeiras operações da natureza, que são como

que a alma e o principio motor dessa variedade, não são nem muitos, nem bem

fundados. O restante pode ser atribuído unicamente à paciência humana e ao

movimento sutil e bem ordenado da mão ou dos instrumentos. A confecção de

relógios, por exemplo, é certamente mister delicado e trabalhoso, de tal modo

que as suas rodas parecem imitar as órbitas celestes ou o movimento contínuo e

ordenado do pulso dos animais. No entanto, depende de apenas um ou dois

axiomas da natureza.

Ainda mais, quem atente para o refinamento próprio das artes liberais ou, ainda,

o das artes mecânicas, na preparação de substâncias naturais e leve em conta

coisas como a descoberta dos movimentos celestes em astronomia, da harmonia

em música, das letras do alfabeto (ainda não em uso no reino dos chineses) em

gramática; e igualmente, na mecânica, o descobrimento das obras de Baco e

Ceres, ou seja, a arte da preparação do vinho, da cerveja, da panificação, das

destilações e similares, e de outras delícias da mesa; e também reflita e observe

quanto tempo transcorreu para que essas coisas (todas, exceto a destilação, já

conhecidas dos antigos) alcançassem o avanço que em nosso tempo desfrutam;

e, ainda, o quão pouco são baseadas (o mesmo que já se disse dos relógios) em

observações e em axiomas da natureza; e, indo um pouco mais longe, como

essas coisas facilmente poderiam ter sido descobertas em circunstâncias óbvias

ou por observações casuais.5 3

Quem assim proceder, facilmente se libertará de qualquer admiração, antes se

compadecerá da condição humana, por tantos séculos em tão grande penúria e

esterilidade de artes e invenções. E aqueles mesmos inventos de que fizemos

menção são mais antigos que a filosofia e as artes intelectuais 5 4 e, pode-se dizer

que, quando tiveram inicio as ciências racionais e dogmáticas, cessou a

invenção de obras úteis.

E o mesmo interessado, uma vez que passe das oficinas às bibliotecas, ficará

admirado da imensa variedade de livros. Mas, detendo-se e examinando com

mais cuidado a sua matéria e conteúdo, certamente a sua admiração volver-se-á

em sentido contrário, ao aí constatar as infinitas repetições e que os homens

dizem e fazem sempre o mesmo. De sorte que, da admiração pela variedade,

passará ao espanto pela indigência e pobreza das coisas que têm prendido e ocu-

pado a mente dos homens.

Quem, ainda, se disponha a considerar aquelas coisas tidas mais por curiosas

que sérias e passe a examinar mais a fundo as obras dos alquimistas, acabará

não sabendo se estes são mais dignos de riso ou de lágrimas.

O alquimista, com efeito, alimenta eterna esperança e quando algo falha atribui

a si mesmo os erros, acusando-se de não haver entendido bem os vocábulos de

sua arte ou dos autores (por isso, com tanto ânimo se aplica às tradições e aos

sussurros que chegam aos seus ouvidos), ou que suas manipulações careceram

de escrúpulos quanto ao peso ou ao exato tempo, em vista do que repete ao

infinito os experimentos. Se, nesse ínterim, em meio aos azares da experimen-

tação, topa com algo de aspecto novo ou de utilidade não desprezível, contenta -

se com esses resultados, muito os celebra e ostenta. E a esperança se encarrega

do resto. Não se pode negar, contudo, que os alquimistas descobriram não

poucas coisas e deram aos homens úteis inventos. Bem por isso não se lhes

aplica mal a fábula do ancião que legou aos seus filhos um tesouro enterrado em

uma vinha e cujo sítio exa to simulava desconhecer. Os filhos, com afinco,

revolveram toda a vinha, não encontrando nenhum tesouro, mas a vindima,

graças a tal cultivo, foi muito mais abundante.

Os cultores da magia natural, 5 5 que tudo explicam por simpatia e antipatia,

deduziram, de conjunturas ociosas e apressadas, virtudes e operações

maravilhosas para as coisas. E mesmo quando alcança ram resultados, estes são

da espécie dos que mais se prestam à admiração e novidade que a proporcionar

frutos e utilidade.

Quanto à magia superstic iosa (se dela é preciso falar), antes de tudo deve ser

dito que em todas as nações, em todos os tempos e, mesmo religiões, suas