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DisciplinaFilosofia e Ética3.202 materiais79.279 seguidores
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estranhas e supersticiosas artes só puderam afetar em algo apenas um porção 
reduzida e bem definida de objetos. Em vista disso, deixemo-la de lado, 
lembrando que nada há de surpreendente que a ilusão da riqueza tenha sido 
causa da pobreza. 
LXXXVI 
A admiração dos homens pelas doutrinas e artes, por si mesma bastante singela 
e mesmo pueril, foi incrementada pela astúcia e pelos artifícios dos que se 
ocuparam das ciências e as difundiram. Pois, levados pela ambição e pela 
afetação, apresentam-nas de tal modo ordenadas e como que mascaradas que, ao 
olhar dos homens, pareciam perfeitas em suas partes e já completamente 
acabadas. Com e feito, se se consideram as divisões e o método, elas parecem 
compreender e esgotar tudo o que possa pertencer a um assunto. E, ainda que as 
partes estejam mal concluídas, como cápsulas ocas, ao intelecto vulgar 
oferecem a forma e o ordenamento da ciência perfeita. 
Mas os primeiros e mais antigos investigadores da verdade, com mais fidelidade 
e sucesso, costumavam consignar em forma de aforismos,5 6 isto e, de breves 
sentenças avulsas e não vinculadas por qualquer artificio metodológico, o saber 
que recolhiam da observação das coisas e que pretendiam preservar para uso 
posterior, e nunca simularam, nem professaram haver-se apoderado de toda a 
arte. Por isso, visto ser esse o estado de coisas, não é de se admirar que os ho-
mens não inquiram de questões tidas há tempo como resolvidas e elucidadas em 
todas as suas peculiaridades. 
LXXXVII 
Além disso, a sabedoria antiga foi tornada mais respeitável e digna de fé, graças 
à vaidade e à leviandade dos que propuseram coisas novas, principalmente na 
parte ativa e operativa da filosofia natural. Com efeito, não têm faltado espíritos 
presumidos e fantasiosos a cumularem, em parte por credulidade, em parte por 
impostura, o gênero humano de processos tais como: prolongamento da vida, 
retardamento da velhice, eliminação da dor, reparação de defeitos físicos, 
encantamento dos sentidos, suspensão e excitação dos sentimentos, iluminação 
e exaltação das faculdades intelectuais, transmutação das substâncias, aumento 
e multiplicação dos movimentos, compressão e rarefação do ar, desvio e 
promoção das influências dos astros, adivinhação do futuro, reprodução do 
passado, revelação do oculto, e alarde e promessa de muitas outras maravilhas 
semelhantes. Portanto, não estaria longe da verdade, acerca de espíritos tão 
pródigos, um juízo como o seguinte: há tanta distância, em matéria filosófica, 
entre essas fantasias e as artes verdadeiras, quanto em história, entre as gestas 
de Júlio César ou de Alexandre Magno e as de Amadis de Gaula ou de Artur da 
Bretanha.5 7 É notório, pois, que aqueles ilustres generais realizaram muito mais 
que as façanhas atribuídas a esses heróis espectrais, em forma de ações reais, 
nem um pouco fabulosas ou prodigiosas. Não obstante, não seria justo negar-se 
fé à memória do verdadeiro porque tenha sido lesado e difamado pela fábula. 
Mas, tampouco, se deve estranhar que tais impostores, quando tentaram 
empresas semelhantes, tenham infligido grande prejuízo às novas proposições, 
principalmente às relacionadas com operações práticas. O excesso de vaidade e 
de fastígio acabou por destruir as disposições magnânimas para tais 
cometimentos. 
LXXXVIII 
A pusilanimidade, a estreiteza e a superficialidade com que a indústria humana 
se impõe tarefas causaram à ciência ainda maiores danos e com a agravante 
dessa pusilanimidade não se apresentar sem pompa e arrogância. Destaca-se, em 
primeiro lugar, aquela cautela já familiar a todas as artes, que consiste em 
atribuírem os autores à natureza a ineficiência de sua própria arte, e o que essa 
arte não alcança, em seu nome, declararem ser \u201cpor natureza\u201d impossível. Em 
conseqüência, jamais poderá ser condenada uma arte que a si mesma julga. 
Também a filosofia que hoje se professa abriga certas asserções e conclusões 
que, consideradas diligentemente, parecem compelir os homens à convicção de 
que não se deve esperar da arte e da indústria humana nada de árduo, nada que 
seja imperioso ou válido acerca da natureza, como já se disse antes 5 8 a respeito 
da heterogeneidade do calor do sol e do fogo e sobre a combinação dos corpos. 
Tudo isso, bem observado, procura maliciosamente limitar o poder humano e 
produzir um calculado e artificioso desânimo que não só vem perturbar os 
augúrios da esperança, como amortecer todos os estímulos e nervos da indústria 
humana e também interceptar todas as oportunidades de experiência. E, ao 
mesmo tempo, tudo fazem por parecer perfeita a própria arte, entregando-se a 
uma glória vã e desvairada que consiste em pensar que o que até o momento 
não foi descoberto ou compreendido não poderá tampouco ser descoberto ou 
compreendido no futuro. 
Alguém que se acerque das coisas com intento de descobrir algo novo propor-
se-á e limitasse-a a um único invento, e não mais. Por exemplo: a natureza do 
ímã, o fluxo e o refluxo do mar, o sistema celeste e coisas desse gênero, que 
parecem esconder algum segredo, e coisas que, até agora, tenham sido tratadas 
com pouco êxito. Mas é indício de grande imperícia o fato de se perscrutar a 
natureza de uma coisa na própria coisa, pois a mesma natureza 59 que em alguns 
objetos está latente e oculta, em outros é manifesta e quase palpável, num caso 
provocando admiração, em outro, nem sequer chamando a atenção. É o que 
ocorre com a natureza da consistência, que não é notada na madeira ou na pedra 
e que é designada genericamente com o nome de solidez, sem se indagar acerca 
da sua tendência de se furtar a qualquer separação ou solução de continuidade. 
De outra parte, esse mesmo fato nas bolhas de água parece mais sutil e 
engenhoso. As bolhas se constituem de películas curiosamente dispostas em 
forma hemisférica de tal modo que, por um momento, evita-se a solução de 
continuidade. 
De fato, há casos em que as naturezas das coisas estão latentes, enquanto em 
outros são manifestas e comuns, o que jamais será evidente se os experimentos 
e as observações dos homens se restringirem apenas às primeiras. 
Em geral, o vulgo tem por novos inventos, ou quando se aperfeiçoa algo já antes 
inventado ou este se orna com mais elegância, ou quando se juntam ou 
combinam partes dele antes separadas, ou quando se torna de uso mais cômodo, 
ou, ainda, se alcança um resultado de maior ou menor massa ou volume que o 
costume, e coisas do gênero. 
Por isso não é de se admirar que não saiam à luz inventos mais nobres e dignos 
do gênero humano, uma vez que os homens se contentam e se satisfazem com 
empresas tão limitadas e pueris. E supõem terem buscado e alcançado algo de 
grandioso. 
LXXXIX 
Não se deve esquecer de que, em todas as épocas, a filosofia se tem defrontado 
com um adversário molesto e difícil na superstição e no zelo cego e 
descomedido da religião.6 0 A propósito veja-se como, entre os gregos, foram 
condenados por impiedade os que, pela primeira vez, ousaram proclamar aos 
ouvidos não afeitos dos homens as causas naturais do raio e das tempestades. 61 
Não foram melhor acolhidos, por alguns dos antigos padres da religião cristã, os 
que sustentaram, com demonstrações certíssimas \u2014 que não seriam hoje 
contraditas por nenhuma mente sensata \u2014, que a Terra era redonda e que, em 
conseqüência, existiam antípodas.6 2 
Além disso, nas atuais circunstancias, as condições para a ciência natural se 
tornaram mais árduas e perigosas devido às sumas e aos métodos da teologia 
dos escolásticos. Estes, como lhes cumpria, ordenaram sistematicamente a 
teologia, e lhe conferiram a forma de uma arte, e combinaram, com o corpo da 
religião, a contenciosa