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não é parte pequena a indicação de esperanças.

Porque, afora isso, tudo o mais levaria tristeza ao homem ou a formar uma

opinião ainda mais pobre e vil que a que possui ou a fazê-lo sentir a condição

infeliz em que se encontra, em vez de alguma alegria ou a disposição para a

experimentação. Em vista disso, é necessário propor e explicar os argumentos

que tornam prováveis as nossas esperanças, tal como fez Colombo que, antes da

sua maravilhosa navegação pelo oceano Atlântico, expôs as razões que o

levaram a confiar na descoberta de novas terras e continentes, além do que já

era conhecido. Tais razões, de início rejeitadas, foram mais tarde comprovadas

pela experiência e se constituíram na causa e no princípio de grandes empresas.

XCIII

Porém, o supremo m otivo de esperança emana de Deus. Com efeito, a empresa

a que nos propomos, pela sua excelência e intrínseca bondade, provém

manifestamente de Deus, que é Autor do bem e Pai das luzes. Pois bem, nas

obras divinas, mesmo os inícios mais tênues conduzem a um êxito certo. E o

que se disse da ordem espiritual, que “O reino de Deus não vem com aparência

exterior”,7 0 é igualmente verdadeiro para todas as grandes obras da Divina

Providência. Tudo se realiza placidamente, sem estrépito e a obra se cumpre

antes que os homens a suponham ou vejam. Não se deve esquecer a profecia de

Daniel a respeito do fim do mundo: “Muitos passarão e a ciência se

multiplicará”,71 o que evidentemente significa que está inscrito nos destinos, isto

é, nos desígnios da Providência, que o fim do mundo o que, depois de tantas e

tão distantes navegações parece haver-se cumprido ou está prestes a fazê-lo — e

o progresso das ciências coincidam no tempo.7 2

XCIV

Segue a mais importante das razões que alicerçam a esperança. É a que procede

dos erros dos tempos pretéritos e dos caminhos até agora tentados. Excelente é o

julgamento, feito por alguém, ao responsável por desastrosa administração do

Estado, com as seguin tes palavras: “O que no passado foi causa de grandes

males deve parecer-nos princípio de prosperidade para o futuro. Pois, se

houvésseis cumprido perfeitamente tudo o que se relaciona com o vosso dever,

e, mesmo assim, não houvesse melhorado a situação dos vossos interesses, não

restaria qualquer esperança de que tal viesse a acontecer. Mas, como as más

circunstâncias em que se encontram não dependem das forças das coisas, mas

dos vossos próprios erros, é de se esperar que, estes corrigidos, haja uma grande

mudança e a situação se torne favorável”.7 3 Do mesmo modo, se os homens, no

espaço de tantos anos, houvessem mantido a correta via da descoberta e do

cultivo das ciências, e mesmo assim não tivessem conseguido progredir, seria,

sem dúvida, tida como audaciosa e temerária a opinião no sentido de um

progresso possível. Mas uma vez que o caminho escolhido tenha sido o errado,

e a atividade humana se tenha consumido de forma inoperante, segue disso que

a dificuldade não radica nas próprias coisas, que fogem ao nosso alcance, mas

no intelecto humano, no seu uso e aplicação, o que é passível de remédio e

medicina. Por isso, estimamos ser oportuno expor esses erros. Pois, quantos

foram os erros do passado, tantas serão as razões de esperança 74 para o futuro.

Embora se tenha antes falado algo a seu respeito, é de toda conveniência expô-

las brevemente, em palavras simples e claras.

XCV

Os que se dedicaram às ciências foram ou empíricos ou dogmáticos. Os

empíricos, à maneira das formigas, acumulam e usam as provisões; os

racionalistas, à maneira das aranhas, de si mesmos extraem o que lhes serve

para a teia.7 5 A abelha representa a posição intermediária: recolhe a matéria-

prima das flores do jardim e do campo e com seus próprios recursos a

transforma e digere. Não é diferente o labor da verdadeira filosofia, que se não

serve unicamente das forças da mente, nem tampouco se limita ao material

fornecido pela história natural ou pelas artes mecânicas, conservado intato na

memória. Mas ele deve ser modificado e elaborado pelo intelecto. Por isso

muito se deve esperar da aliança estreita e sólida (ainda não levada a cabo) entre

essas duas faculdades, a experimental e a racional.

XCVI

Ainda não foi criada uma filosofia natural pura. As existentes acham-se

infectadas e corrompidas: na escola de Aristóteles, pela lógica; na escola de

Platão, pela teologia natural; na segunda escola de Platão, a de Proclo e outros,

pela matemática,7 6 a quem cabe rematar a filosofia e não engendrar ou produzir

a filosofia natural. Mas é de se esperar algo de melhor da filosofia natural pura e

sem mesclas.

XCVII

Até agora ninguém surgiu dotado de mente tão tenaz e rigorosa que haja

decidido, e a si mesmo imposto, livrar-se das teorias e noções comuns e aplicar,

integralmente, o intelecto, assim purificado e reequilibrado, aos fatos

particulares. Pois a nossa razão humana 7 7 é constituída de uma farragem e

massa de coisas, procedentes algumas de muita credulidade, e outras do acaso e

também de noções pueris, que recebemos desde o início.

É de se esperar algo melhor de alguém que, na idade madura, de plena posse de

seus sentidos e mente purificada, se dedique integralmente à experiência e ao

exame dos fatos particulares. Nesse sentido prometemo-nos a fortuna de

Alexandre Magno: que ninguém nos acuse de vaidade antes de constatar que o

nosso propósito final é o de banir toda vaidade.

Com efeito, de Alexandre e de suas façanhas assim falou Ésquines:

“Certamente, não vivemos uma vida mortal; mas nascemos para que a

posteridade narre e apregoe os nossos prodígios”, como que entendendo por

milagrosos os feitos de Alexandre.7 8

Mas, em época posterior, Tito Lívio, apreciando e compreendendo melhor o

fato, disse de Alexandre algo como: “Em última instância, nada mais fez que ter

a ousadia de desprezar as coisas vãs”.7 9 Cremos que nos tempos futuros far-se-á

a nosso respeito um juízo semelhante: De fato nada fizemos de grandioso;

apenas reduzi mos as proporções do que era superestimado. Todavia, como já

dissemos, não há esperança senão na regeneração das ciências, vale dizer, na

sua reconstrução, segundo uma ordem certa, que a s faça brotar da experiência.

Ninguém pode afirmar, segundo presumimos, que tal tarefa tenha sido feita ou

sequer cogitada.

XCVIII

Os fundamentos da experiência — já que a ela sempre retomamos — até agora

ou foram nulos ou foram muito inseguros. Até agora não se buscaram nem se

recolheram coleções 80 de fatos particulares, em número, gênero ou em exatidão,

capazes de informar de algum modo o intelecto. Mas, ao contrário, os doutos,

homens indolentes e crédulos, acolheram para estabelecer ou confirmar a sua

filosofia certos rumores, quase mesmo sussurros ou brisas 81 de experiência, a

que, apesar de tudo, atribuíram valor de legítimo testemunho. Dessa forma,

introduziu -se na filosofia, no que respeita à experiência, a mesma prática de um

reino ou Estado que cuidasse de seus negócios, não à base de informações de

representantes ou núncios fidedignos, mas dos rumores ou mexericos de seus

cidadãos. Nada se encontra na história natural devidamente investigado,

verificado, classificado, pesado e medido. E o que no terreno da observação é

indefinido e vago é falacioso e infiel na informação. Se alguém se admira de

que assim se fale e pensa não serem justos os nossos reclamos, ao se lembrar de

Aristóteles, homem tão grande ele próprio e apoiado nos recursos de um tão

grande rei, 82 que escreveu uma tão acurada História dos Animais; e de alguns

outros que a enriqueceram com mais diligência, mas com menos estrépito; e de

outros ainda, que