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Disciplina:Filosofia e Ética2.204 materiais65.570 seguidores
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fizeram o mesmo em relação às plantas, os metais, os fósseis,

com história e descrições abundantes, ele não se dá conta, não parece ver ou

compreender suficientemente o assunto de que tratamos. Pois uma é a marcha

da história natural, organizada por amor de si mesma,8 3 outra, a que é destinada

a informar o intelecto com ordem ( método), para fundar a filosofia. Essas duas

histórias naturais se diferenciam em muitos aspectos, principalmente nos

seguintes: a primeira compreende a variedade das espécies naturais e não os

experimentos das artes mecânicas. Com efeito, da mesma maneir a que na vida

política o caráter de cada um, sua secreta disposição de ânimo e sentimentos

melhor se patenteiam em ocasiões de perturbação que em outras, assim também

os segredos da natureza melhor se revelam quando esta é submetida aos assaltos
8 4 das artes que quando deixada no seu curso natural. Em vista disso, é de se

esperar muito da filosofia natural quando a história natural que é a sua base e

fundamento — esteja melhor construída. Até que isso aconteça nada se pode

esperar.

XCIX

Por sua vez, mesmo em meio à abundância dos experimentos mecânicos, há

grande escassez dos que mais contribuem e concorrem para informação do

intelecto. De fato, o artesão, despreocupado totalmente da busca da verdade, só

está atento e apenas estende as mãos para o que diretamente serve a sua obra

particular. Por isso, a esperança de um ulterior progresso das ciências estará

bem fundamentada quando se recolherem e reunirem na história natural muitos

experimentos que em si não encerram qualquer utilidade, mas que são

necessários na descoberta das causas e dos axiomas. A esses experimentos

costumamos designar por lucíferos, para diferenciá-los dos que chamamos de

frutíferos.8 5 Aqueles experimentos têm, com efeito, admirável virtude ou

condição: a de nunca falhar ou frustrar, pois não se dirigem à realização de

qualquer obra, mas à revelação de alguma causa natural. Assim, qualquer que

seja o caso, satisfazem esse intento e assim resolvem a questão.

C

Deve-se buscar não apenas uma quantidade muito maior de experimentos, como

também de gênero diferente dos que até agora nos têm ocupado. Mas é

necessário, ainda, introduzir -se um método completamente novo, uma ordem

diferente e um novo processo, para continuar e promover a experiência. Pois a

experiência vaga, deixada a si mesma, como antes já se disse,86 é um mero

tateio, e presta-se mais a confundir os homens que a informá-los. Mas quando a

experiência proceder de acordo com leis seguras e de forma gradual e constante,

poder-se-á esperar algo de melhor da ciência.

CI

Todavia, mesmo quando esteja pronto e preparado o material de história natural

e de experiência, na quantidade requerida para a obra do intelecto, ou seja, para

a obra da filosofia, nem assim o intelecto estará em condições de trabalhar o

referido material espontaneamente e apenas com o auxílio da memória. Seria o

mesmo que se tentasse aprender de memória e reter exatamente todos os

cálculos de uma tábua astronômica. E até agora, em matéria de invenção, tem

sido mais importante o papel da meditação que o da escrita, e a experiência não

é ainda literata.8 7 Apesar disso, nenhuma forma de invenção é conclusiva senão

por escrito. E é de se esperar melhores frutos quando a experiência literata for

de uso corrente.

CII

Além disso, sendo tão grande o número dos fatos particulares, quase um

exército, e achando-se de tal modo esparsos e difusos que chegam a desagregar

e confundir o intelecto, não é de se esperar boa coisa das escaramuças, dos

ligeiros movimentos e incursões do intelecto, a não ser que, organizando e

coordenando todos os fatos relacionados a um objeto, se utilize de tabelas de

invenção idôneas e bem dispostas e como que vivas. Tais tabelas servirão à

mente como auxiliares preparados e ordenados.

CIII

Contudo, mesmo depois de se haver disposto, como que sob os olhos, de forma

correta e ordenada a massa de fatos particulares, não se pode ainda passar à

investigação e à descoberta de novos fatos particulares ou de novos resultados.

Se, não obstante, tal ocorrer, não é de se ficar satisfeito com apenas isso.

Todavia, não negamos que depois que os experimentos de todas as artes forem

recolhidos e organizados e, depois, levados à consideração e ao juízo de um só

homem, seja possível, pela simples transferência dos conhecimentos de uma

arte para outra, com auxílio da experiência a que chamamos de literata, chegar

a muitas novas descobertas úteis à vida humana e às suas condições. Todavia,

tais resultados, a bem dizer, são de menor importância. Na verdade muito

maiores serão os provenientes da nova luz dos axiomas, deduzidos dos fatos

particulares, com ordem e por via adequada, e que servem, por sua vez, para

indicar e designar novos fatos particulares. Atente -se para isto: o nosso caminho

não é plano, há nele subidas e descidas. É primeiro ascendente, em direção aos

axiomas, é descendente quando se volta para as obras.

CIV

Contudo, não se deve permitir que o intelecto salte e voe dos fatos particulares

aos axiomas remotos e aos, por assim dizer, mais gerais — que são os chamados

princípios das artes e das coisas — e depois procure, a partir da sua verdade

imutável, estabelecer e provar os axiomas médios. E é o que se tem feito até

agora graças à propensão natural do intelecto, afeito e adestrado desde há muito,

pelo emprego das demonstrações silogísticas. Muito se poderá esperar das

ciências quando, seguindo a verdadeira escala, por graus contínuos, sem

interrupção, ou falhas, se souber caminhar dos fatos particulares aos axiomas

menores, destes aos médios, os quais se elevam acima dos outros, e finalmente

aos mais gerais. Em verdade, os axiomas inferiores não se diferenciam muito da

simples experiência. Mas os axiomas tidos como supremos e mais gerais

(falamos dos de que dis pomos hoje) são meramente conceituais ou abstratos 88 e

nada têm de sólido. Os médios são os axiomas verdadeiros, os sólidos e como

que vivos, e sobre os quais repousam os assuntos e a fortuna do gênero humano.

Também sobre eles se apoiam os axiomas generalíssimos, que são os mais

gerais. Estes entendemos não simplesmente como abstratos, mas realmente

limitados pelos axiomas intermediários. Assim, não é de se dar asas ao

intelecto, mas chumbo e peso para que lhe sejam coibidos o salto e o vôo. É o

que não foi feito até agora; quando vier a sê-lo, algo de melhor será lícito

esperar-se das ciências.

CV

Para a constituição de axiomas deve-se cogitar de uma forma de indução diversa

da usual até hoje e que deve servir para descobrir e demonstrar não apenas os

princípios como são correntemente chamados como também os axiomas

menores, médios e todos, em suma. Com efeito, a indução que procede por

simples enumeração é uma coisa pueril, leva a conclusões precárias, expõe -se

ao perigo de uma instância que a contradiga. Em geral, conclui a partir de um

número de fatos particulares muito menor que o necessário e que são também os

de acesso mais fácil. Mas a indução que será útil para a descoberta e

demonstração das ciências e das artes deve analisar a natureza, procedendo às

devidas rejeições e exclusões, e depois, então, de posse dos casos negativos

necessários, concluir a respeito dos casos positivos. Ora, é o que não foi até hoje

feito, nem mesmo tentado, exceção feita, certas vezes, de Platão, que usa essa

forma de indução para tirar definições e idéias. Mas, para que essa indução ou

demonstração possa ser oferecida como uma ciência boa e legítima, deve-se

cuidar de um sem-número de coisas que nunca