novum_organum
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ocorreram a qualquer mortal.

Vai mesmo ser exigido mais esforço que o até agora despendido com o

silogismo. E o auxílio dessa indução deve ser invocado, não apenas para o

descobrimento de axiomas, mas também para definir as noções. E é nessa

indução que estão depositadas as maiores esperanças.

CVI

Na constituição de axiomas por meio dessa indução, é necessário que se

proceda a um exame ou prova: deve-se verificar se o axioma que se constitui é

adequado e está na exata medida dos fatos particulares de que foi extraído, se

não os excede em amplitude e latitude, se é confirmado com a designação de

novos fatos particulares que, por seu turno, irão servir como uma espécie de

garantia. Dessa forma, de um lado, será evitado que se fique adstrito aos fatos

particulares já conhecidos; de outro, que se cinja a sombras ou formas abstratas

em lugar de coisas sólidas e determinadas na sua matéria. Quando esse

procedimento for colocado em uso, teremos um motivo a mais para fundar as

nossas esperanças.

CVII

E aqui deve ser recordado o que antes se disse 8 9 sobre a extensão da filosofia

natural e sobre o retorno ao seu âmbito dos fatos particulares, para que não se

instaurem cisões ou rupturas no corpo das ciências. Pois sem tais precauções

muito menos há de se esperar em matéria de progresso.

CVIII

Tratou-se, pois, da forma de se eliminar a desesperação, bem como a de se

infundir a esperança, eliminando e retificando os erros dos tempos passados.

Vejamos se há ainda mais alguma coisa capaz de gerar esperanças. Tal de fato

ocorre, a saber: se foi possível a homens que não as buscavam descobrirem

muitas coisas, por acaso ou sorte, e até quando tinham outros propósitos, não

pode haver dúvida de que quando as buscarem e se empenharem com ordem e

método,9 0 e não por impulsos e saltos, necessariamente muitas mais haverão de

ser descerradas. Por outro lado, pode ocorrer também, uma ou outra vez, que

alguém, por acaso, tope com algo que antes lhe escapou quando o buscava com

esforço e determinação. Mas na maior parte dos casos, sem dúvida, ocorrerá o

contrário. Por conseguinte, pode-se esperar muito mais e melhor e a menores

intervalos de tempo, da razão, da indústria, da direção e intenção dos homens

que do acaso e do instinto dos animais e coisas semelhantes, que até agora

serviram de base para as invenções.

CIX

Pode-se também acrescentar como argumento de esperança o fato de que muitos

dos inventos já logrados são de tal ordem que antes a ninguém foi dado sequer

suspeitar da sua possibilidade. Eram, ao contrário, olhados como coisas

impossíveis. E tal se deve a que os homens procuram adivinhar as coisas novas

a exemplo das antigas e com a imaginação preconcebida e viciada. Mas essa é

uma maneira de opinar sumamente falaciosa, pois a maioria das descobertas que

derivam das fontes das coisas não flui pelos regatos costumeiros.

Assim, por exemplo, se antes da invenção dos canhões alguém, baseado nos

seus efeitos, os descrevesse: foi inventada uma máquina que pode, de grande

distância, abalar e arrasar as mais poderosas fortificações, os homens então se

poriam a cogitar das diferentes e múltiplas formas de se aumentar a força de

suas máquinas bélicas pela combinação de pesos e rodas e dispositivos que tais,

causadores de embates e impulsos. Mas a ninguém ocorreria, mesmo em

imaginação ou fantasia, essa espécie de sopro violento e flamejante que se

propaga e explode. A sua volta não divisavam nenhum exemplo de algo

semelhante, a não ser o terremoto e o raio, que, como fenômenos naturais de

grandes proporções, não imitáveis pelo homem, seriam desde logo rejeitados.

Do mesmo modo, se antes da descoberta do fio da seda 9 1 alguém houvesse

falado: há uma espécie de fio para a confecção de vestes e alfaias que supera de

longe em delicadeza e resistência e, ainda, em esplendor e suavidade, o linho e a

lã, os homens logo se poriam a pensar em alguma planta chinesa, ou no pêlo

muito delicado de algum animal, ou na pluma ou penugem das aves; mas

ninguém haveria de imaginar o tecido de um pequeno verme tão abundante e

que se renova todos os anos. Se alguém se referisse ao verme teria sido objeto

de zombaria, como alguém que sonhasse com um novo tipo de teia de aranha.

Do mesmo modo, se antes da invenção da bússola 92 alguém houvesse falado ter

sido inventado um instrumento com o qual se poderia captar e distinguir com

exatidão os pontos cardeais do céu; os homens se teriam lançado, levados pela

imaginação, a conjeturar a construção dos mais rebuscados instrumentos

astronômicos, e pareceria de todo incrível que se pudesse inventar um

instrumento com movimentos coincidentes com os dos céus, sem ser de

substância celeste, mas apenas de pedra ou metal. Contudo, tais inventos e ou-

tros semelhantes permaneceram ignorados pelos homens por tantos séculos, e

não foram descobertos pelas artes, mas graças ao acaso e oportunidade. Por

outro lado, são de tal ordem (como já dissemos), são tão heterogêneos e tão

distantes do que antes era conhecido que nenhuma noção anterior teria podido

conduzir a eles.

Desse modo, é de se esperar que há ainda recônditas, no seio da natureza,

muitas coisas de grande utilidade, que não guardam qualquer espécie de relação

ou paralelismo com as já conhecidas, mas que estão fora das rotas da

imaginação. Até agora não foram descobertas.

Mas não há dúvida de que no transcurso do tempo e no decorrer dos séculos

virão à luz, do mesmo modo que as antes referidas. Mas, seguindo o caminho

que estamos apontando, elas podem ser mostradas muito antes do tempo usual,

podem ser antecipadas, de forma rápida, repentina e simultaneamente.

CX

Mas há outra espécie de invenções que são de tal ordem que nos levam a pensar

que o gênero humano pode preteri-las, e deixar para trás nobres inventos

praticamente colocados a seus pés. Pois, com efeito, se, de um lado, a invenção

da pólvora, da seda, da agulha de marear, do açúcar, do papel e outras do gênero

parecem se basear em propriedades das coisas e da natureza, de outro, a

imprensa nada apresenta que não seja manifesto e quase óbvio.

De fato, os homens não foram capazes de notar que, se é mais difícil a

disposição dos caracteres tipográficos que escrever as letras à mão, aqueles,

uma vez colocados, propiciam um número infinito de cópias, enquanto que as

letras à mão só servem para uma escrita. Ou talvez não tenham sido capazes de

notar que a tinta poderia ser espessada de forma a tingir sem escorrer

(mormente quando se faz a impressão sobre as letras voltadas para cima). Eis

por que por tantos séculos não se pôde contar com essa admirável invenção, tão

propicia à propagação do saber.9 3

Mas a mente humana, no curso dos descobrimentos, tem estado tão desastrada e

mal dirigida que primeiro desconfia de si mesma e depois se despreza. Primeiro

lhe parece impossível certo invento; depois de realizado, considera incrível que

os homens não o tenham feito há mais tempo. É isso mesmo que reforça os

nossos motivos de esperança, pois subsiste ainda um sem-número de

descobrimentos a serem feitos, que podem ser alcançados através da já

mencionada experiência literata, não só para se descobrirem operações

desconhecidas, como também para transferir, juntar e aplicar as já conhecidas.

CXI

Há ainda um outro motivo de esperança que não pode ser omitido. Que os

homens se dignem considerar o infinito dispêndio de tempo, de orgulho e de

dinheiro que se tem consumido em coisas e estudos sem importância e

utilidade! Se apenas uma pequena parte desses recursos fosse canalizada para

coisas mais sensatas e sólidas, não haveria dificuldade que não pudesse ser