novum_organum
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abertamente que a história natural de que

dispomos, seja a recolhida dos livros, seja a resultante de nossas próprias

investigações, não é nem tão abundante nem tão comprovada a ponto de satis-

fazer e bastar às exigências da legítima interpretação.

Assim, se há alguém mais apto e preparado para a mecânica e mais sagaz para a

busca de novos resultados só com o uso dos experimentos, consentimos e

confiamos à sua indústria a coleta de minha história e de minhas tábuas, muitas

coisas pelo caminho, conferindo-lhe um uso prático e recebendo um interesse

provisório, até que alcance o êxito definitivo. Quanto a nós, na verdade, como

pretendemos mais, condenamos toda demora precipitada e prematura em coisas

como essas a exemplo das maçãs de Atalanta,109 como muitas vezes costumo

dizer. Com efeito, não procuramos puerilmente os pomos dourados, antes tudo

depositamos na marcha triunfal da arte sobre a natureza. Não nos apressamos a

colher o musgo ou as espigas ainda verdes: é a messe sazonada que

aguardamos.

CXVIII

Examinando nossa história natural e nossas tábuas de descoberta certamente

ocorrerá a alguém a existência, em nossos experimentos, de aspectos não bem

comprovados, ou, mesmo, serem eles totalmente falsos. Em vista disso, passará

a refutar os novos descobrimentos como se apoiados em fundamentos e

princípios duvidosos ou falsos. Na verdade, isso nada significa, pois é

necessário que tal aconteça no início. Seria como se na escrita ou na impressão

uma ou outra letra estivessem mal colocadas (ou fora do lugar), o que não

chegaria a confundir muito o leitor, uma vez que o próprio sentido acaba facil-

mente por corrigir os erros. Da mesma maneira, reflitam os homens que na

história natural muitos falsos experimentos podem ser tomados e aceitos como

verdadeiros, e mais tarde facilmente rejeitados e expurgados, quando da

descoberta de causas e de axiomas. É igualmente verdadeiro que se encontra na

história natural e nos experimentos uma série longa e contínua de erros que,

todavia, não poderão ser corrigidos pela boa disposição do engenho.

Em vista disso, se a nova história natural que foi coligida e comprovada com

tanta diligência, severidade e zelo quase religioso deixa passar algum erro ou

falsidade nos fatos particulares, o que se poderá dizer então da história natural

corrente que é, em comparação com a nossa, tão negligente e superficial? Ou da

filosofia codificada sobre a areia ou sirtes? Portanto, ninguém se deve preocupar

com o que foi dito.

CXIX

Serão também encontradas em nossa história natural e em nossos experimentos

muitas coisas superficiais e comuns, outras vis e mesmo grosseiras, finalmente

outras sutis e meramente especulativas e quase sem qualquer utilidade. Coisas,

enfim, que poderiam afastar os homens do estudo, bem como desgostá-los.

Quanto às coisas que parecem comuns, reflitam os homens em sua conduta

habitual que não tem sido outra que referir e adaptar as causas das coisas que

raramente ocorrem às que ocorrem com freqüência, sem, todavia, indagar das

causas daquelas mais freqüentes, aceitando-as como fatos admitidos e

assentados.

Dessa forma, não buscam as causas do peso, da rotação dos corpos celestes, do

calor, do frio, da luz, do duro, do mole, do tênue, do denso, do líquido, do

sólido, do animado, do inanimado, do semelhante, do dessemelhante, e nem

tampouco do orgânico. Antes, tomam tais coisas por evidentes e manifestas e se

entregam à disputa e à determinação das que não ocorrem com tanta freqüência

e não são tão familiares.

Mas, quanto a nós, que sabemos não se poder formular juízos acerca das coisas

raras e extraordinárias e muito menos trazer à luz algo de novo, antes de se

terem examinado devidamente e de se haverem descoberto as causas das coisas

comuns, e as causas das causas, fomos compelidos, por necessidade, a acolher

em nossa história as coisas mais comuns. Por isso, estabelecemos que não há

nada tão pernicioso à filosofia como o fato de as coisas familiares e que

ocorrem com freqüência não atraírem e não prenderem a reflexão dos homens,

mas serem admitidas sem exame e investigação das suas causas. Disso resulta

que é mais freqüente recolh erem-se informações sobre as coisas desconhecidas

que dedicar-se atenção às já conhecidas.

CXX

Com referência a fatos considerados vis e torpes, aos quais (como diz Plínio),110

é necessário render homenagem, devem integrar, não menos que os mais

brilhantes e preciosos, a história natural. Não será a história natural maculada:

do mesmo modo que também não se macula o sol que penetra igualmente

palácios e cloacas. Não pretendemos dedicar ou construir um capitólio ou uma

pirâmide à soberba humana. Mas fundamos no intelecto humano um templo

santo à imagem do mundo. E por ele nos pautamos. Pois tudo o que é digno de

existir é digno de ciência, que é a imagem da realidade. As coisas vis existem

tanto quanto as admiráveis. E indo mais longe: do mesmo modo que se

produzem excelentes aromas de matérias pútridas, como o almíscar e a algália,

também de circunstâncias vis e sórdidas emanam luz e exímias informações. E

isso é suficiente, pois esse gênero de desagrado é pueril e efeminado.

CXXI

Há ainda outro assunto que deve merecer o mais acurado exame. É que muitas

das coisas da nossa história parecerão, ao intelecto vulgar e a qualquer mente

afeita às coisas presentes, curiosas e de uma sutileza inútil. Disso já tratamos e

vamos repetir o que antes dissemos: de iníc io e por certo tempo, buscamos

apenas os experimentos lucíferos e não os experimentos frutíferos, tomando por

exemplo a criação divina que, como temos reiterado, no primeiro dia produziu

unicamente a luz, a ela dedicando todo um dia, não se aplicando nesse dia a

nenhuma obra material.

Se alguém reputa tais coisas como destituídas de uso, seria o mesmo que

entendesse não ter também a luz qualquer uso, por não se tratar de uma coisa

sólida ou material. E, a bem da verdade, deve ser dito que o conhecimento das

naturezas simples,111 quando bem examinado e definido, é como a luz, que abre

caminho ao segredo de todas as obras, e com o poder que lhe é próprio abrange

e arrasta todas as legiões e exércitos de obras e as fontes dos axiomas mais

nobres, não sendo, contudo, em si mesma de grande uso. Da mesma forma, as

letras do alfabeto, em si e tomadas isoladamente, nada significam e a nada

servem. Contudo, são como que a matéria -prima para a composição e

preparação de todo discurso. Assim também as sementes das cois as têm

virtualmente grande poder, mas fora de seu processo de desenvolvimento para

nada servem. E os raios dispersos da própria luz, se não convergentes, não

produzem beneficio.

Se alguém se ofende com as sutilezas especulativas, o que dizer então dos

escolásticos que, com tanta indulgência, se entregaram às sutilezas? Tais

sutilezas se consumiam nas palavras ou, pelo menos, em noções vulgares (o que

dá no mesmo), não penetravam nas coisas ou na natureza. Não ofereciam

utilidade não só em suas origens, como também em suas conseqüências. E não

eram, enfim, de tal forma que, como as de que nos ocupamos, não tendo

utilidade no presente, oferecem-na infinita em suas conseqüências. Tenham os

homens por certo que toda sutileza nas disputas ou nos esforços da mente, se

aplicada depois da descoberta dos axiomas, será extemporânea e que o

momento próprio, pelo menos precípuo do uso de sutilezas, é aquele em que se

examina a experiência, para a partir dela se constituírem os axiomas. Com

efeito, aquele outro gênero de sutileza persegue e procura captar a natureza, mas

nunca a alcança e submete. É muito certo, se transposto para a natureza,