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Disciplina:Filosofia e Ética2.204 materiais65.570 seguidores
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o que

se diz da ocasião e da fortuna, “que tem fartos cabelos vista de frente e é calva

vista de trás”.112

Enfim, a propósito do desprezo que se vota, na história natural, às coisas

vulgares, vis ou muito sutis ou de nenhuma utilidade, em sua origem, são como

oraculares as palavras de uma pobre mulher, dirigidas a um príncipe arrogante,

que rejeitara sua petição por ser indigna de sua majestade: “Deixa, pois, de ser

rei”.113 Pois é absolutamente certo que ninguém que deixe de levar em conta

essas coisas, por ínfimas e insignificantes que sejam, conseguirá e poderá

exercer domínio sobre a natureza.

CXXII

Costuma-se objetar também ser espantoso e muito rigoroso querermos, de um

só golpe, rechaçar todas as ciências e todos os autores e, isso, sem recorrer a

nenhum dos antigos, para auxílio ou defesa, valendo-nos apenas de nossas

próprias forças.

Entretanto, sabemos perfeitamente que, se quiséssemos agir com menos boa fé

não nos seria difícil relacionar o que vamos expor com os tempos antigos

anteriores aos dos gregos, nos quais as ciências, especialmente as da natureza,

mais floresceram, ainda em silêncio, antes de passarem pelas trombetas e flautas

dos gregos; ou, mesmo ainda que em parte, com alguns dentre os próprios

gregos, neles recolhendo apoio e glória, à maneira dos novos-ricos que, com

ajuda de genealogias, forjam e inventam a sua nobreza, a partir da descendência

de alguma antiga linhagem. Quanto a nós apoiados na evidência dos fatos,

rejeitamos toda sorte de fantasia ou impostura. E não reputamos de interesse

para o que nos ocupa o saber-se se o que vai ser descoberto já era conhecido dos

antigos ou se está sujeito às vicissitudes das coisas ou às circunstâncias desta ou

daquela idade. Tampouco parece digno da preocupação dos homens o saber-se

se o Novo Mundo é aquela ilha Atlântida, conhecida dos antigos, ou se foi des-

coberta agora pela primeira vez. A descoberta das cois as deve ser feita com

recurso à luz da natureza e não pelas trevas da Antiguidade.

Quanto à censura universal que fizemos, é inquestionável, bem considerado o

assunto, que parece mais plausível e mais modesta se feita por partes. Pois, se

os erros não se tivessem radicado nas noções primeiras, não teria sido possível

que certas noções corretas não tivessem corrigido as demais (portadoras de

erros). Mas como os erros são fundamentais e não provenientes de juízos falhos

ou falsos, mas da negligência e da ligeireza com que os homens trataram os

fatos, não é de se admirar que não tenham conseguido o que não buscaram e que

não tenham alcançado a meta que se não tinham proposto, e, ainda, que não

tenham percorrido um caminho em que não entraram ou de que se transviaram.

E, se nos acusam de arrogantes, cumpre-nos observar que isso seria verdadeiro

de alguém que pretendesse traçar uma linha reta ou um círculo, melhor que

algum outro, servindo-se apenas da segurança das mãos e do bom golpe de

vista. No caso, haveria uma comparação de capacidade. Mas se alguém afirma

poder traçar uma linha mais reta e um círculo mais perfeito servindo-se da régua

e do compasso, em comparação a alguém que faça uso apenas das mãos e da

vista, esse com certeza não seria um jactancioso. O que ora dizemos não se

refere somente aos nossos primeiros esforços e tentativas, mas também aos dos

que se seguiram com os mesmos propósitos. Pois o nosso método de descoberta

das ciências quase que iguala os engenhos e não deixa muita margem à

excelência individual, pois tudo submete a regras rígidas e demonstrações. Eis

por que, como já o dissemos muitas vezes, a nossa obra deve ser atribuída mais

à sorte que à habilidade, e é mais parto do tempo que do talento. Pois parece não

haver dúvidas de que uma espécie de acaso intervém tanto no pensamento dos

homens quanto nas obras e nos fatos.

CXXIII

Assim, diremos de nós o que alguém, por gracejo, disse de si: “Não podem ter a

mesma opinião quem bebe água e quem bebe vinho”.114 Com efeito, os demais

homens, tanto os antigos como os modernos, beberam nas ciências um licor cru,

como a água que mana espontaneamente de sua inteligência, ou haurido pela

dialética, como de um poço, por meio de roldanas. Mas, de nossa parte,

bebemos e brindamos um licor preparado com abundantes uvas, amadurecidas

na estação, de racemos escolhidos, logo espremidas no lagar, e depois

purificado e clarificado em vasilhame próprio. Em vista disso, não é de se

admirar que não nos ponhamos de acordo com eles.

CXXIV

Podem fazer-nos ainda outra objeção: a de que mesmo nós não prefixamos para

as ciências a meta e o escopo melhores e mais verdadeiros, fato que censuramos

em outros. E que a contemplação da verdade é mais digna e elevada que a

utilidade e a grandeza de qualquer obra,115 e também que essa longa, solícita e

instante dedicação à experiência, à matéria e ao fluxo das coisas particulares

curva a mente para a terra ou mesmo a abandona a um Tártaro de confusão e

desordem e a afasta e distancia da serenidade e tranqüilidade da sabedoria

abstrata, que é muito mais próxima do divino. De bom grado assentimos nessas

observações, pois tratamos, precipuamente e antes de mais nada, de alcançar o

que os nossos críticos indicam e escolhem. Efetivamente construímos no

intelecto humano um modelo verdadeiro 116 do mundo, tal qual foi descoberto e

não segundo o capricho da razão de fulano ou beltrano. Porém, isso não é

possível levar a efeito, sem uma prévia e diligentíssima dissecção e anatomia do

mundo. Por isso, decidimos correr com todas essas imagens ineptas e simiescas

que a fantasia humana infundiu nos vários sistemas filosóficos. Saibam os

homens como já antes dissemos a imensa distância que separa os ídolos da

mente humana das idéias da mente divina.117 Aqueles, de fato, nada mais são

que abstrações arbitrárias; estas, ao contrário, são as verdadeiras marcas do

Criador sobre as criaturas, gravadas e determinadas sobre a matéria, através de

linhas exatas e delicadas. Por conseguinte, as coisas em si mesmas, neste

gênero, são verdade e utilid ade,118 e as obras devem ser estimadas mais como

garantia da verdade que pelas comodidades que propiciam à vida humana.119

CXXV

Pode ser também que sejamos tachados de fazer algo já feito antes e que mesmo

os antigos seguiram já semelhante caminho. Assim, qualquer um poderá tomar

como verossímil que, depois de tanta agitação e esforço, acabamos por cair em

uma daquelas filosofias instituídas pelos antigos. Também eles partiam em suas

meditações de grande quantidade e acúmulo de exemplos e fatos particulares e

os dispunham separadamente segundo os assuntos. A seguir compunham as

suas filosofias e as suas artes e, depois de procederam a uma verificação,

enunciavam as suas opiniões, não sem antes ter acrescentado, aqui e ali,

exemplos, a título de prova ou de elucidação. Todavia, consideraram supérfluo e

fastidioso transcrever suas notas de fatos particulares, apontamentos e

comentários e, dessa forma, imitaram o procedimento usado na construção:

depois de terminado o edifício foram removidos da vista as máquinas e os

andaimes. Não há motivo para crer que tenham procedido de outra forma. Mas

quem não se esqueceu do que dissemos antes, facilmente responderá a essa

objeção, que é, na verdade, mais um escrúpulo. A forma 120 de investigação e de

descoberta própria dos antigos, e sabemo-lo bem, se encontra expressa em seus

escritos. E essa forma não consistia em mais que galgar de um salto, a partir de

alguns exemplos e fatos particulares (juntamente com noções comuns e talvez

uma certa porção das opiniões mais aceitas), às conclusões mais gerais ou aos

princípios das ciências,