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Disciplina:Filosofia e Ética2.285 materiais67.876 seguidores
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Depois, a partir dessas verdades tidas como imutáveis e

fixas, por meio de proposições intermediárias, estabeleciam as conclusões

inferiores e, a partir destas, constituíam a arte. Se, porventura, surgissem novos

fatos particulares e exemplos que contrariassem as suas afirmações, por meio de

distinções ou da aplicação de suas regras encaixavam-nos em suas doutrinas ou,

quando não, grosseiramente os descartavam como exceções. E as causas dos

fatos particulares, não conflitantes com os seus princípios, essas eram pertinaz e

laboriosamente a eles acomodadas. Aquela experiência e aquela história natural

não eram, pois, o que deviam ser, estavam antes muito longe e, ademais, esse

vôo súbito aos princípios mais gerais punha tudo a perder.

CXXVI

Ainda nos pode ser endereçado o reparo de que, sob o pretexto de admitirmos

unicamente a enunciação de juízos e o estabelecimento de princípios certos, só

depois de se terem alcançado as verdades mais gerais, rigorosamente a partir de

graus intermediários, sustentamos a suspensão do juízo e acabamos assim por

cair em uma espécie de acatalepsia. Mas, em verdade, não cogitamos e nem

propomos a acatalepsia, mas a eucatalepsia,121 pois não pretendemos abdicar

dos sentidos, mas ampará-los; nem desprezar o intelecto, mas dirigi-lo. Enfim, é

melhor saber-se tudo o que ainda está para ser feito, supondo que não o

sabemos, que supor-se que bem o sabemos, e ignorar totalmente o que nos falta.

CXXVII

Ainda nos pode ser indagado, mais como dúvida que como objeção, se

intentamos, com nosso método, aperfeiçoar apenas a filosofia natural 122 ou

também as demais ciências: a lógica, a ética e a política. Ora, o que dissemos

deve ser tomado como se estendendo a todas as ciências. Do mesmo modo que

a lógica vulgar, que ordena tudo segundo o silogismo, aplica-se não somente às

ciências naturais, mas a todas as ciências, assim também a nossa lógica, que

procede por indução, tudo abarca. Por isso, pretendemos constituir história e

tábuas de descobertas para a ira, o medo, a vergonha e assuntos semelhantes; e

também para exemplos das coisas civis e, não menos, para as operações

mentais, como a memória, para a composição e a divisão,123 para o juízo,124 etc.

E, ainda, para o calor, para o frio, para a luz, vegetação e assuntos semelhantes.

Porém, como o nosso método de interpretação, uma vez preparada e ordenada a

história, não se dirige unicamente aos processos discursivos da mente, como a

lógica vulgar, mas à natureza de todas as coisas, tratamos de conduzir a mente

de tal modo que possa se aplicar à natureza das coisas, de forma adequada a

cada caso particular. É por isso que na doutrina da interpretação indicamos

muitos e diversos preceitos que, de alguma forma, ajustam o método de

investigação às qualidades e condições do assunto que se considera.

 CXXVIII

Mas no que não pode pairar qualquer dúvida é quanto à nossa pretensa ambição

de destruir e demolir a filosofia, as artes e as ciências, ora em uso. Antes pelo

contrário, admitimos de bom grado o seu uso, o seu cultivo e o respeito de que

gozam. De modo algum nos opomos a que as artes comumente empregadas

continuem a estimular as disputas, a ornar os discursos, sirvam às conveniências

professorais e aproveitem os reclamos da vida civil e, como as moedas, circu-

lem graças ao consenso dos homens. Indo mais longe, declaramos abertamente

que tudo o que propomos não há de ser de muito préstimo a esse tipo de usos,

uma vez que não poderá ser colocado ao alcance do vulgo, a não ser pelos seus

efeitos e pelas obras propiciados. São testemunho de nossa boa disposição e de

nossa boa vontade, para com as ciências ora aceitas, nossos escritos já

publicados, especialmente os livros sobre O Progresso das Ciências.125 Não

intentamos, por isso, prová-lo melhor com palavras. Contudo, advertimos de

modo claro e firme que com os atuais métodos não se pode lograr grandes

progressos nas doutrinas e nas indagações sobre ciências, e bem por isso não se

podem esperar significativos resultados práticos.

CXXIX

Resta-nos dizer algumas palavras acerca da excelência do fim proposto. Se as

tivéssemos dito logo de início, poderiam ser tomadas por simples aspirações.

Mas, uma vez que firmamos as esperanças e eliminamos os iníquos prejuízos,

terão certamente mais peso. Se tivéssemos conduzido e realizado tudo sem

invocar a participação e a ajuda de outros para a nossa empresa, nesse caso,

abster-nos-íamos de quaisquer palavras, para que não fossem tomadas como

proclamadoras de nossos próprios méritos. Mas, como é necessário estimular a

indústria dos outros homens, e mesmo excitar e inflamar-lhes o ânimo, é de toda

conveniência fixar certos pontos em suas mentes.

Em primeiro lugar, parece-nos que a introdução de notáveis descobertas ocupa

de longe o mais alto posto entre as ações humanas. Esse foi também o juízo dos

antigos. Os antigos, com efeito, tributavam honras divinas aos inventores,126

enquanto que concediam aos que se distinguiam em cometimentos públicos,

como os fundadores de cidades e impérios, os legisladores, os libertadores da

pátria de males repetidos, os debeladores das tiranias, etc., simplesmente honras

de heróis. E, em verdade, a quem estabelecer entre ambas as coisas um

confronto correto, parecerá justo o juízo daqueles tempos remotos. Pois, de fato,

os benefícios dos inventos podem estender-se a todo o gênero humano, e os

benefícios civis alcançam apenas algumas comunidades e estes duram poucas

idades, enquanto que aqueles podem durar para sempre. Por outro lado, a

reforma de um Estado dificilmente se cumpre sem violência e perturbação, mas

os inventos trazem venturas e os seus benefícios a ninguém prejudicam ou

amarguram.

Além disso, os inventos são como criações e imitações das obras divinas, como

bem cantou o poeta:

Primum frugiferos foetus mortalibus aegris

Dididerant quondam praestanti nomini Athenae

Et RECREAVERUNT vitam legesque rogarunt.127

E é digno de nota o exemplo de Salomão, eminente pelo império, pelo ouro,

pela magnificência de suas obras, pela escolta e famulagem, pela sua frota, pela

imensa admiração que provocava nos homens, e que nada dessas coisas elegeu

para a sua glória, e em vez disso proclamou: “A glória de Deus consiste em

ocultar a coisa, a glória do rei em descobri-la”. 128

Considere-se ainda, se se quiser, quanta diferença há entre a vida humana de

uma região das mais civilizadas da Europa e uma região das mais selvagens e

bárbaras da Nova Índia.129 Ela parecerá tão grande que se poderá dizer que “O

homem é Deus para o homem”,130 , não só graças ao auxílio e benefício que ele

pode prestar a outro homem, como também pela comparação das situações. E

isso ocorre não devido ao solo, ao clima ou à constituição física.

Vale também recordar a força, a virtude e as conseqüências das coisas

descobertas, o que em nada é tão manifesto quanto naquelas três descobertas

que eram desconhecidas dos antigos e cujas origens, embora recentes, são

obscuras e inglórias. Referimo-nos à arte da imprensa, à pólvora e à agulha de

marear. Efetivamente essas três descobertas mudaram o aspecto e o estado das

coisas em todo o mundo: a primeira nas letras, a segunda na arte militar e a

terceira na navegação. Daí se seguiram inúmeras mudanças e essas foram de tal

ordem que não consta que nenhum império, nenhuma seita, nenhum astro

tenham tido maior poder e exercido maior influência sobre os assuntos humanos

que esses três inventos mecânicos.

A esta altura, não seria impróprio distinguirem-se três gêneros ou graus de

ambição dos homens. O primeiro é o dos que aspiram ampliar seu próprio poder

em sua