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DisciplinaFilosofia e Ética2.556 materiais75.824 seguidores
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Depois, a partir dessas verdades tidas como imutáveis e 
fixas, por meio de proposições intermediárias, estabeleciam as conclusões 
inferiores e, a partir destas, constituíam a arte. Se, porventura, surgissem novos 
fatos particulares e exemplos que contrariassem as suas afirmações, por meio de 
distinções ou da aplicação de suas regras encaixavam-nos em suas doutrinas ou, 
quando não, grosseiramente os descartavam como exceções. E as causas dos 
fatos particulares, não conflitantes com os seus princípios, essas eram pertinaz e 
laboriosamente a eles acomodadas. Aquela experiência e aquela história natural 
não eram, pois, o que deviam ser, estavam antes muito longe e, ademais, esse 
vôo súbito aos princípios mais gerais punha tudo a perder. 
CXXVI 
Ainda nos pode ser endereçado o reparo de que, sob o pretexto de admitirmos 
unicamente a enunciação de juízos e o estabelecimento de princípios certos, só 
depois de se terem alcançado as verdades mais gerais, rigorosamente a partir de 
graus intermediários, sustentamos a suspensão do juízo e acabamos assim por 
cair em uma espécie de acatalepsia. Mas, em verdade, não cogitamos e nem 
propomos a acatalepsia, mas a eucatalepsia,121 pois não pretendemos abdicar 
dos sentidos, mas ampará-los; nem desprezar o intelecto, mas dirigi-lo. Enfim, é 
melhor saber-se tudo o que ainda está para ser feito, supondo que não o 
sabemos, que supor-se que bem o sabemos, e ignorar totalmente o que nos falta. 
CXXVII 
Ainda nos pode ser indagado, mais como dúvida que como objeção, se 
intentamos, com nosso método, aperfeiçoar apenas a filosofia natural 122 ou 
também as demais ciências: a lógica, a ética e a política. Ora, o que dissemos 
deve ser tomado como se estendendo a todas as ciências. Do mesmo modo que 
a lógica vulgar, que ordena tudo segundo o silogismo, aplica-se não somente às 
ciências naturais, mas a todas as ciências, assim também a nossa lógica, que 
procede por indução, tudo abarca. Por isso, pretendemos constituir história e 
tábuas de descobertas para a ira, o medo, a vergonha e assuntos semelhantes; e 
também para exemplos das coisas civis e, não menos, para as operações 
mentais, como a memória, para a composição e a divisão,123 para o juízo,124 etc. 
E, ainda, para o calor, para o frio, para a luz, vegetação e assuntos semelhantes. 
Porém, como o nosso método de interpretação, uma vez preparada e ordenada a 
história, não se dirige unicamente aos processos discursivos da mente, como a 
lógica vulgar, mas à natureza de todas as coisas, tratamos de conduzir a mente 
de tal modo que possa se aplicar à natureza das coisas, de forma adequada a 
cada caso particular. É por isso que na doutrina da interpretação indicamos 
muitos e diversos preceitos que, de alguma forma, ajustam o método de 
investigação às qualidades e condições do assunto que se considera. 
 CXXVIII 
Mas no que não pode pairar qualquer dúvida é quanto à nossa pretensa ambição 
de destruir e demolir a filosofia, as artes e as ciências, ora em uso. Antes pelo 
contrário, admitimos de bom grado o seu uso, o seu cultivo e o respeito de que 
gozam. De modo algum nos opomos a que as artes comumente empregadas 
continuem a estimular as disputas, a ornar os discursos, sirvam às conveniências 
professorais e aproveitem os reclamos da vida civil e, como as moedas, circu-
lem graças ao consenso dos homens. Indo mais longe, declaramos abertamente 
que tudo o que propomos não há de ser de muito préstimo a esse tipo de usos, 
uma vez que não poderá ser colocado ao alcance do vulgo, a não ser pelos seus 
efeitos e pelas obras propiciados. São testemunho de nossa boa disposição e de 
nossa boa vontade, para com as ciências ora aceitas, nossos escritos já 
publicados, especialmente os livros sobre O Progresso das Ciências.125 Não 
intentamos, por isso, prová-lo melhor com palavras. Contudo, advertimos de 
modo claro e firme que com os atuais métodos não se pode lograr grandes 
progressos nas doutrinas e nas indagações sobre ciências, e bem por isso não se 
podem esperar significativos resultados práticos. 
CXXIX 
Resta-nos dizer algumas palavras acerca da excelência do fim proposto. Se as 
tivéssemos dito logo de início, poderiam ser tomadas por simples aspirações. 
Mas, uma vez que firmamos as esperanças e eliminamos os iníquos prejuízos, 
terão certamente mais peso. Se tivéssemos conduzido e realizado tudo sem 
invocar a participação e a ajuda de outros para a nossa empresa, nesse caso, 
abster-nos-íamos de quaisquer palavras, para que não fossem tomadas como 
proclamadoras de nossos próprios méritos. Mas, como é necessário estimular a 
indústria dos outros homens, e mesmo excitar e inflamar-lhes o ânimo, é de toda 
conveniência fixar certos pontos em suas mentes. 
Em primeiro lugar, parece-nos que a introdução de notáveis descobertas ocupa 
de longe o mais alto posto entre as ações humanas. Esse foi também o juízo dos 
antigos. Os antigos, com efeito, tributavam honras divinas aos inventores,126 
enquanto que concediam aos que se distinguiam em cometimentos públicos, 
como os fundadores de cidades e impérios, os legisladores, os libertadores da 
pátria de males repetidos, os debeladores das tiranias, etc., simplesmente honras 
de heróis. E, em verdade, a quem estabelecer entre ambas as coisas um 
confronto correto, parecerá justo o juízo daqueles tempos remotos. Pois, de fato, 
os benefícios dos inventos podem estender-se a todo o gênero humano, e os 
benefícios civis alcançam apenas algumas comunidades e estes duram poucas 
idades, enquanto que aqueles podem durar para sempre. Por outro lado, a 
reforma de um Estado dificilmente se cumpre sem violência e perturbação, mas 
os inventos trazem venturas e os seus benefícios a ninguém prejudicam ou 
amarguram. 
Além disso, os inventos são como criações e imitações das obras divinas, como 
bem cantou o poeta: 
Primum frugiferos foetus mortalibus aegris 
Dididerant quondam praestanti nomini Athenae 
Et RECREAVERUNT vitam legesque rogarunt.127 
E é digno de nota o exemplo de Salomão, eminente pelo império, pelo ouro, 
pela magnificência de suas obras, pela escolta e famulagem, pela sua frota, pela 
imensa admiração que provocava nos homens, e que nada dessas coisas elegeu 
para a sua glória, e em vez disso proclamou: \u201cA glória de Deus consiste em 
ocultar a coisa, a glória do rei em descobri-la\u201d. 128 
Considere-se ainda, se se quiser, quanta diferença há entre a vida humana de 
uma região das mais civilizadas da Europa e uma região das mais selvagens e 
bárbaras da Nova Índia.129 Ela parecerá tão grande que se poderá dizer que \u201cO 
homem é Deus para o homem\u201d,130 , não só graças ao auxílio e benefício que ele 
pode prestar a outro homem, como também pela comparação das situações. E 
isso ocorre não devido ao solo, ao clima ou à constituição física. 
Vale também recordar a força, a virtude e as conseqüências das coisas 
descobertas, o que em nada é tão manifesto quanto naquelas três descobertas 
que eram desconhecidas dos antigos e cujas origens, embora recentes, são 
obscuras e inglórias. Referimo-nos à arte da imprensa, à pólvora e à agulha de 
marear. Efetivamente essas três descobertas mudaram o aspecto e o estado das 
coisas em todo o mundo: a primeira nas letras, a segunda na arte militar e a 
terceira na navegação. Daí se seguiram inúmeras mudanças e essas foram de tal 
ordem que não consta que nenhum império, nenhuma seita, nenhum astro 
tenham tido maior poder e exercido maior influência sobre os assuntos humanos 
que esses três inventos mecânicos. 
A esta altura, não seria impróprio distinguirem-se três gêneros ou graus de 
ambição dos homens. O primeiro é o dos que aspiram ampliar seu próprio poder 
em sua