novum_organum
254 pág.

novum_organum


DisciplinaFilosofia e Ética2.491 materiais75.097 seguidores
Pré-visualização50 páginas
Em terceiro lugar, desejará que lhe seja indicado algo que não seja 
tão difícil quanto a própria operação investigada, mas que seja mais próximo da 
prática. 
A regra verdadeira e perfeita para o operar pode ser assim enunciada: que seja 
certa, livre e predisposta ou que esteja ordenada para a ação.15 O mesmo deve 
ser levado em conta para a descoberta da forma. Pois a forma de uma natureza 
dada é tal que, uma vez estabelecida, infalivelmente se segue a natureza. Está 
presente sempre que essa natureza também o esteja, universalmente a afirma e é 
constantemente inerente a ela. E essa mesma forma é de tal ordem que, se se 
afasta, a natureza infalivelmente se desvanece; que sempre que está ausente está 
ausente a natureza, quando totalmente a nega, por só nela estar presente. 
Finalmente, a verdadeira forma é tal que deduz a natureza de algum princípio de 
essência 16 que é inerente a muitas naturezas e é mais conhecido (como se diz) 
na ordem natural que a própria forma.1 7 Por conseguinte, o enunciado e a regra 
do verdadeiro e perfeito axioma do saber: que se descubra outra natureza que 
seja conversível à natureza dada e que ainda seja a limitação de uma natureza 
mais geral, à maneira de um verdadeiro gênero.1 8 Estes dois enunciados, um 
ativo e outro contemplativo, são a mesma coisa, pois o que é mais útil na prática 
é mais verdadeiro no saber.1 9 
V 
A regra 2 0 ou axioma para a transformação dos corpos é de duas espécies. A 
primeira considera o corpo como um conjunto ou conjugação de naturezas 
simples. Veja-se, no ouro estão reunidas as seguintes características: ser 
amarelo, ter um determinado peso, ser maleável e dúctil até determinado limite, 
não ser volátil ou perder a sua quantidade sob a ação do fogo, liquefazer-se com 
determinada fluidez, separar-se e solver-se por determinados meios, e outras 
naturezas semelhantes que se encontram no ouro. Desse modo, tal axioma 
deduz a coisa das formas das naturezas simples. Quem conhecer as formas e os 
modos de se introduzir o amarelo, o peso, a ductilidade, a fixidez, a fluidez, a 
solução, etc., e suas graduações e modos, saberá como proceder para conjugar 
em um único corpo essas qualidades, para conduzi-las à transformação em 
ouro.21 Essa espécie de operação pertence à ação primária. Pois o método de se 
produzir uma única natureza simples é o mesmo que o de muitas; apenas o 
homem se sente mais limitado e tolhido nas suas operações, quando se trata de 
várias, em vista da dificuldade de coordenar essas naturezas que não se unem 
tão facilmente, como pelas trilhas ordinárias do mundo natural. Contudo, deve 
ser lembrado que tal método de operar 22 que distingue as naturezas é constante, 
eterno e universal, e abre amplas vias ao poder humano, e isso a um ponto tal 
que, no estado atual das coisas, a mente humana pode sequer cogitar ou 
representar. 
A segunda espécie de axiomas (a que depende da descoberta do processo 
latente)2 3 não procede das naturezas simples, mas dos corpos concretos, tal 
como se encontram na natureza em seu curso ordinário. Por exemplo, se se trata 
de investigar, a partir de sua origem, o modo e o processo de formação do ouro 
ou de qualquer outro metal ou a pedra, a partir de seus primeiros mênstruos 24 ou 
de seus rudimentos até o estado acabado de mineral; ou apreender o processo 
pelo qual se gera a erva, a partir das primeiras concreções do suco na terra ou a 
partir da semente até a planta formada, acompanhando toda a sucessão de 
movimentos e todos os diversos e continuados esforços da natureza; igualmente, 
investigar a geração dos animais, discernindo a partir do coito até o parto. E 
proceder da mesma forma em relação aos demais corpos. 
Mas, na verdade, essa investigação não se restringe à geração dos corpos, mas 
se estende aos outros movimentos e operações da natureza. Assim, por exemplo, 
se se trata de investigar a série completa e contínua da ação da nutrição, a partir 
da ingestão inicial do alim ento até a sua perfeita assimilação; ou o movimento 
involuntário dos animais, a partir da primeira impressão da imaginação e dos 
continuados esforços do espírito 25 até as flexões e movimentos dos membros; 
ou os distintos movimentos da língua, dos lábios e dos demais instrumentos até 
a emissão de vozes articuladas, tudo isso, com efeito, também respeita às 
naturezas concretas ou coligadas e conjugadas. Estas podem ser consideradas 
como modos de ser habituais, particulares e especiais da natureza e não como 
leis fundamentais e comuns que constituem as formas. Não obstante, deve-se 
reconhecer que este segundo procedimento é mais expedito, mais disponível e 
oferece mais esperanças que o primeiro. 
E da mesma forma, a parte operativa, que corresponde a esta especulativa, 
estende e promove a operação, a partir do que ordinaria mente se descobre na 
natureza, indo para as mais próximas, até as que se não distanciam muito destas. 
Mas as operações mais profundas e mais radicais na natureza dependem sempre 
dos primeiros axiomas. Em vista disso, onde não é dada ao homem a faculdade 
de operar, mas apenas de saber, como em relação às coisas celestes \u2014 pois não 
é possível ao homem agir sobre as coisas celestes, para mudá-las ou transformá-
las \u2014, a investigação do próprio fato ou da verdade da coisa, bem como o 
conhecimento das causas e dos consensos, refere-se tão somente àqueles 
axiomas primários e universais,2 6 relativos às naturezas simples (como os 
relacionados à natureza da rotação espontânea, da atração ou virtude magnética 
e de muitas outras coisas, ainda mais comuns que os próprios corpos celestes). 
E que ninguém espere resolver a questão de que se o movimento diurno é da 
terra ou do céu antes de haver compreendido a natureza da rotação espontânea. 
VI 
O processo latente de que falamos está longe daquilo que pode ocorrer à mente 
dos homens, com as preocupações a que ora se entregam. Não o entendemos, de 
fato, como medidas, ou signos ou escalas dos processos visíveis dos corpos, 
mas como um processo continuado, que na maior parte escapa aos sentidos. 
Por exemplo, em toda geração ou transformação de corpos, e necessário 
investigar o que se perde e volatiliza; o que permanece ou se acrescenta; o que 
se dilata e o que se contrai; o que se une e o que se separa; o que continua e o 
que se divide; o que impele e o que retarda; o que domina e o que sucumbe; e 
muitas outras coisas. 
E essa investigação não se deve limitar à geração e às transformações dos 
corpos, mas deve estender-se, igualmente, ao que antecede e ao que sucede; ao 
que é mais veloz e ao que é mais lento; ao que produz e ao que regula o 
movimento; e assim por diante. Todas essas coisas são desconhecidas e 
deixadas intactas pelas ciências, de textura grosseira e inábil, 27 como as que se 
professam. De vez que toda ação natural se cumpre em mínimos graus,28 ou pelo 
menos em proporções que não chegam a ferir os sentidos, ninguém poderá 
governar ou transformar a natureza antes de havê-lo devidamente notado e 
compreendido. 
VII 
A investigação e a descoberta do esquematismo latente 2 9 é igualmente coisa 
nova, à semelhança da descoberta do processo latente e da forma. Ainda nos 
encontramos nos átrios da natureza e não estamos preparados para adentrar-lhe 
os íntimos recessos. E nenhum corpo pode ser dotado de uma nova natureza, ou 
ser transformado, com acerto e sucesso, em outro corpo, sem um completo 
conhecimento do corpo que se quer alterar ou transformar. Sem o que, acabarão 
sendo usados procedimentos vãos, ou pelo menos difíceis e penosos e 
impróprios para a natureza do corpo em que se opera. Daí ser necessária a nova 
via, adequadamente provida. 
Na anatomia dos corpos