novum_organum
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DisciplinaFilosofia e Ética2.555 materiais75.786 seguidores
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atrito, como a pedra, a madeira, o pano, 
etc; como os lemes ou os eixos das rodas que às vezes provocam chamas, ou 
como costumam fazer fogo os índios ocidentais, por atrito. 
17. As ervas verdes e úmidas, juntadas e amassadas, como as rosas, 
comprimidas nos cestos; como o feno que, guardado úmido, às vezes produz 
fogo. 
18. O ferro pode começar a dissolver com água forte (ácido) em recipiente de 
vidro sem uso do fogo; e mesmo o estanho sob as mesmas condições, mas 
menos intensamente. 
19. A cal viva, aspergida com água. 
20. Os animais, especialmente nas partes internas, ainda que o calor dos 
insetos, pela sua pequenez, não seja percebido pelo tato. 
21. O esterco do cavalo e semelhantes excrementos recentes de animais. 
22. O óleo forte do enxofre e do vitríolo produzem o efeito do calor, 
queimando linho. 
23. O óleo de orégão, e outros semelhantes, produz os efeitos do calor, 
queimando a parte óssea dos dentes. 
24. O espírito do vinho forte e bem retificado produz os efeitos do calor, e 
isso a tal ponto que, se lhe jogar uma clara de ovo, esta endurece e se torna 
branca, quase como que ocorre com o ovo cozido, e também o fato, que fica 
ressecado e com crosta, como quando é tostado. 
25. Os aromas e as ervas quentes como o estragão, o mastruz velho, etc., 
ainda que na mão não pareçam quentes, nem inteiros ou em pó, mas quando 
mastigados são quentes e parecem queimar à lín gua e ao paladar. 
26. O vinagre forte e todos os ácidos, aplicados a partes sem pele, como o 
olho, a língua, ou sobre uma parte ferida, produzem uma dor não muito 
diferente da produzida pelo calor. 
27. Mesmo o frio quando agudo e intenso produz sensação de queimadura.51 
28. Outras instâncias. 
A esta chamamos de Tábua de essência e de presença. 
XII 
Em segundo lugar, deve-se fazer uma citação perante o intelecto, das instâncias 
privadas da natureza dada, uma vez que a forma, como já foi dito, deve estar 
ausente quando está ausente a natureza, bem como estar presente quando a 
natureza está presente.5 2 
Contudo, se se fosse examinar todas as instâncias, a investigação iria ao infinito. 
Por isso, é necessário que se limite o recolhimento das instâncias negativas em 
correspondência com as positivas e considerem-se as privações apenas naqueles 
objetos muito semelhantes a aqueles em que elas estão presentes e são 
manifestas.5 3 E a esta resolvemos chamar de Tábua de desvio (ou declinação) 
ou de ausência em fenômenos próximos.5 4 
Instâncias em fenômenos próximos, privados da natureza do calor.5 5 
Primeira instância negativa oposta à primeira instância afirmativa. 
1. Os raios da lua, das estrelas e dos cometas não trazem calor ao tato, mas, 
ao contrário, é no plenilúnio que se observam os frios mais rigorosos. Todavia, 
acredita -se que quando há conjunção entre o sol e as estrelas fixas maiores, ou 
quando delas está próximo, há aumento do calor solar; é o que ocorre quando o 
sol está no signo de Leão e nos dias de canícula.5 6 
2. (Oposta à segunda afirmativa.) Os raios solares na chamada região 
intermediária não produzem calor; para o que o vulgo dá uma razão não de todo 
má: esta região não está nem próxima do sol, donde vêm os raios, nem da terra, 
que os reflete. É o que se observa nos picos das montanhas (a não ser quando 
muito altos), onde se encontram neves eternas. Por outro lado, observou-se que 
no pico de Tenerife, bem como nas cumieiras dos Andes do Peru, os cumes não 
apresentam neve, que se fixa nas partes mais baixas. Fala -se ainda que no 
vértice desses montes o ar não é frio, mas rarefeito e penetrante, e isso a tal 
ponto que, nos Andes, magoa e ofende os olhos, pela sua intensidade, e irrita a 
boca do estômago e provoca vômitos. Foi notado pelos antigos que no vértice 
do Olimpo era tal a tenuidade do ar que obrigava aos que o escalavam a levarem 
esponjas embebidas em água e vinagre, para aplicação na boca e no nariz, por 
não ser o ar suficiente à respiração.57 Relatam, ainda, aqueles que era tal a 
serenidade e tranqüilidade do ar e ausência de chuvas, neves e ventos,5 8 que as 
letras escritas com o dedo nas cinzas, sobre o altar de Júpiter, pelos fautores de 
sacrifícios, duravam todo um ano, sem se alterarem. E ainda hoje os que sobem 
aos cimos do pico de Tenerife caminham à noite e não à luz do dia; e ao surgir 
do sol os guias os apressam a descer rapidamente, ante o perigo (segundo 
parece) de que a rarefação sufoque e dissolva o espírito. 
3. (Oposta à segunda afirmativa.) A reflexão dos raios do sol nas regiões 
próximas dos círculos polares é muito fraca e ineficaz em calor, e os belgas que 
invernaram na Nova Zembla 5 9 esperando a liberação e o desencalhe de sua 
nave dos gelos (que a aprisionavam), no início do mês de julho, viram 
frustradas as suas esperanças e tiveram que recorrer a botes. Assim os raios do 
sol diretos parecem de pouco poder, mesmo sobre terreno plano; nem também 
os seus reflexos, a não ser quando são multiplicados e reunidos, o que ocorre 
quando o sol bate perpendicularmente, pois, em tal caso, os ângulos formados 
pelos raios incidentes são mais agudos, e assim as linhas dos raios ficam mais 
próximas entre si. E de outro lado, nas posições muito oblíquas do sol, os 
ângulos são muito obtusos e por isso as linhas dos raios estão mais distantes 
entre si. Mas deve ser notado que muitas podem ser as operações dos raios do 
sol, com respeito ao problema da natureza do calor, que não estão ao alcance do 
nosso tato, e, mesmo assim, afetam outros corpos. 
 
4. Faça-se o seguinte experimento:6 0 Tome-se uma lente,6 1 feita de forma 
contrária aos espelhos e seja ela colocada entre as mãos e os raios do sol. 
Observe-se que nessa posição o calor do sol é diminuído, da mesma forma que 
o espelho o aumenta e intensifica. Pois é manifesto que os raios ópticos, em um 
espelho que apresenta diferença de espessura entre o centro e as partes laterais, 
oferecem imagens 6 2 mais difusas ou concentradas. O mesmo deve ocorrer em 
relação ao calor. 
5. Faça-se cuidadosamente o experimento de se os raios da lua, passando 
por espelhos ustórios bastante fortes e bem constituídos, podem produzir algum 
grande calor, mesmo que diminuto. Mas como essa grande tepidez é de tal 
forma sutil e fraca a ponto de não ser percebida pelo tato, seria necessário 
recorrer àqueles vidros que indicam o estado frio ou quente do ar, 6 3 de modo 
que os raios da lua, caindo em um espelho ustório, fossem refletidos sobre a 
superfície do vidro, para se verific ar a ocorrência do abaixamento do nível da 
água, devido ao calor. 
6. (À segunda instância.) Experimente-se colocar um vidro ustório sobre um 
corpo quente que não seja nem radiante, nem luminoso, como o ferro ou a pedra 
aquecidos, mas não em ignição, ou água fervente e coisas semelhantes, e 
observe-se se ocorre um aumento ou intensificação do calor, como nos raios do 
sol.6 4 
7. (À segunda instância.) Experimente-se ainda colocar um espelho ustório 
sobre a chama comum. 
8. (Em oposição à terceira instância.) 6 5 Não se pode deixar de observar o 
constante e manifesto efeito dos cometas (se se reconhece como estando 
compreendidos entre os meteoros)6 6 no aumento do calor na época de sua 
oposição, embora tenha sido notado que em seguida surge um período de seca. 
Contudo, as traves 67 ou colunas luminosas e as aberturas do céu 68 e fenômenos 
semelhantes parecem mais freqüentes no inverno que no verão e especialmente 
em épocas de intensos frios, acompanhados de seca. Mas os raios, os 
relâmpagos e os trovões dificilmente ocorrem no inverno, mas na época dos 
grandes calores. As chamadas estrelas cadentes supõe-se vulgarmente 
constituídas de uma matéria viscosa,