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de Graus ou de Comparação do Calor

Em primeiro lugar, trataremos dos corpos que não apresentam qualquer calor ao

tato, mas que parecem possuir um calor potencial ou uma disposição ou

preparação para o calor. A seguir, consideraremos os corpos que são quentes em

ato, ou seja, ao tato, sua intensidade e seus graus.

1. Não há entre os palpáveis e sólidos nenhum corpo que seja naturalmente

quente. Não há uma única pedra, um único metal, nem enxofre, nem fóssil, nem

madeira, nem água, nem cadáver dos animais, que se apresentem com calor. As

águas quentes dos balneários parecem aquecer-se por acidente, ou por alguma

chama ou fogo subterrâneo, como os que vomitam o Etna e muitas outras

montanhas, ou por conflito de corpos, como ocorre com o calor produzido na

dissolução do ferro e do estanho. Dessa forma, não há qualquer espécie de calor

nos corpos inanimados perceptível ao tato do homem, e esses corpos se

diferenciam entre si pelos graus (de frio) de frigidez. Com efeito, não são iguais

o frio da madeira e o do metal. Mas esse assunto pertence à Tábua de Graus do

Frio.

2. Todavia, encontram-se muitos corpos inanimados com calor potencial e

com predisposição à chama, como é o caso do enxofre, da nafta e do petróleo. 88

3. O que antes estava quente, como o esterco eqüino, ou a cal, ou talvez as

cinzas, ou a fuligem provocados pelo fogo, conserva latentes resíduos do calor

anterior. Por isso se fazem certas destila ções e separações de corpos,

enterrando-os em esterco eqüino, e o calor da cal pode ser provocado com a

aspersão de água.8 9

4. Entre os vegetais não há qualquer planta ou parte (como resinas ou

medula) que se mostre quente ao tato humano. Mas, como já foi antes dito,90 as

ervas verdes quando abafadas se aquecem, e parecem quentes ao tato interno,

isto é, ao paladar e ao estômago e mesmo a partes externas, depois de algum

tempo, como ocorre com emplastros e ungüentos vegetais que podem parecer

quentes ou frios.

5. Não há qualquer calor nas partes separadas dos animais mortos

perceptível pelo tato humano. Nem mesmo o esterco eqüino, se não for coberto

e abafado, conserva o calor. Contudo, todo esterco parece possuir

potencialmente calor, como se observa nas marcas que ficam pelos campos. E,

igualmente, os cadáveres dos animais parecem possuir também um calor latente

e potencial, e isso a tal ponto que nos cemitérios em que todos os dias se fazem

sepultamentos a terra conserva um calor oculto, que consome os cadáveres

recentes muito mais rapidamente que na terra comum. Segundo se diz, os

orientais usam um certo tipo de tecido tênue e suave, feito de plumas de aves,

que por qualidades próprias dissolve e derrete a manteiga. quando por ele

levemente envolvida.

6. Tudo o que aduba os campos, como todos os tipos de esterco, a greda, a

areia do mar, o sal e coisas semelhantes, possui alguma disposição ao calor.

7. Todo processo de putrefação possui traços de um tênue calor. ainda que

não alcance ser percebido pelo tato. Nem mesmo aquelas coisas, que na

putrefação se transformam em animálculos,9 1 como a carne e o queijo, chegam a

ser perceptíveis ao tato. Nem tampouco a madeira podre, que brilha à noite,

parece quente ao tato. Mas, às vezes, o calor das coisas em putrefação se faz

sentir por meio de odores fortes e repugnantes.

8. Assim, o primeiro grau de calor, entre as coisas perceptíveis ao tato

humano, parece ser o calor animal, que por sua vez se desdobra em muitos

graus. No seu grau mais baixo, como no caso dos insetos, é muito mal

percebido pelo tato, O seu grau mais alto é atingido pelo calo r solar, nas zonas e

nos climas tropicais, mas não chega a ser tão forte a ponto de não ser tolerado

pela mão. Contudo, conta-se que Constâncio 9 2 e alguns outros tinham certo tipo

de temperamento e hábitos físicos de tal modo secos que, atacados por febre

agudíssima, ficaram quentes a ponto de parecerem queimar as mãos de quem

deles se aproximasse.

9. Os animais aumentam o próprio calor pelo movimento e pelos exercícios

físicos, pelo vinho, pelos banquetes, pelo sexo, pelas febres ardentes e pela dor.

10. Os animais, durante os acessos de febres intermitentes, inicialmente são

acometidos de frio e tremores, mas depois adquirem um calor muito intenso. E

o mesmo acontece no início das febres ardentes e nas febres pestilentas.

11. Façam-se ulteriores investigações sobre o calor em animais diversos,

como peixes, quadrúpedes, serpentes, aves e também em suas diversas espécies,

como o leão, o abutre, o homem. Pois, conforme a opinião vulgar, a parte

interna dos peixes é pouco quente, as aves são mais quentes, especialmente as

pombas, os falcões e as avestruzes.

12. Façam-se ainda investigações ulteriores acerca dos diversos graus de

calor nas partes e nos membros do mesmo animal. Com efeito, o leite, o sangue,

o esperma, os ovos, são moderadamente quentes e menos quentes que as partes

externas de um animal em agitação e movimento. Ainda não foi feita uma

investigação do mesmo teor para se saber o grau de calor do cérebro e do

estômago, do coração, etc.

13. Todos os animais, no inverno e nas épocas frias, são frios nas partes

externas, mas nas partes internas crê-se encerrarem mais calor.

14. O calor dos corpos celestes, mesmo na região mais quente e durante a

estação e o dia mais quente, não atinge nunca um grau tal que chegue a

incendiar e queimar a madeira bem seca ou a palha ou um pedaço de trapo, a

não ser que seja auxiliado por espelhos ustórios. Mas pode sempre provocar

vapores das coisas úmidas.

15. Segundo a tradição dos astrônomos, algumas estrelas são mais quentes

que outras. Dentre os planetas, depois do sol, Marte é o mais quente, depois

vem Júpiter e depois Vênus. Estabelecem-se como os mais frios primeiro a Lua

e, mais que todos, Saturno. Entre as estrelas fixas estabelece-se como a mais

quente Sírio, vindo depois Coração de Leão, e a seguir Canícula,93 etc.

16. O sol mais aquece quanto mais se inclina na perpendicular ou no zênite; o

que também é de se crer verdadeiro para os demais planetas, em relação ao seu

próprio calor. Júpiter, por exemplo, aquece mais quando se encontra sob Câncer

ou Leão que quando sob Capricórnio ou Aquário.

17. Tudo leva a crer que o sol e os outros planetas aquecem mais quando

atingem o seu perigeu, pela maior proximidade da Terra, que quando do seu

apogeu.9 4 E se acontecer que, em alguma região, o sol esteja ao mesmo tempo

no perigeu e mais próximo à perpendicular, necessariamente será aí mais quente

que na região em que o sol também esteja em seu perigeu, mas em posição

oblíqua. Por isso deve ser notada a situação relativa de altitude dos planetas, nas

diversas regiões, em relação à sua posição vertical ou obliqua.

18. Supõe-se ainda que o sol, como os outros planetas, aqueça mais quando

se aproxima das estrelas fixas maiores. Assim, quando o sol se encontra em

Leão, mais próximo ao Coração de Leão, à Cauda de Leão, à Espiga da Virgem,

a Sírio, à Canícula, aquece mais que quando se encontra em Câncer, onde,

contudo, está mais na posição perpendicular. E é para se crer que as partes do

céu infundem um calor tanto maior (ainda que não perceptível ao tato) quanto

mais são ornadas de estrelas e especialmente das estrelas maiores.

19. Em suma, o calor dos corpos celestes pode ser aumentado em vista de três

fatores, ou seja, pela posição perpendicular, pela proximidade ao perigeu e pela

conjunção ou combinação das estrelas.

20. Em verdade, há uma grande diferença entre o calor dos animais e dos

raios dos corpos celestes, tal como chegam a nós, e o da mais tênue chama, e

mais ainda o dos corpos incandescentes, o dos líquidos e