novum_organum
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do próprio ar comum

aquecido pelo fogo. De fato, a chama do espírito do vinho, ainda que rarefeita e

difusa, pode incendiar a palha, um pano ou o papel. E tal nunca ocorre com o

calor animal ou solar, sem o emprego de espelhos ustórios.

21. Contudo, as chamas e as coisas incandescentes têm calor e múltiplos

graus, tanto em intensidade quanto em tenuidade. Mas sobre o fato ainda não foi

feita uma indagação diligente e, por isso, só é possível tratá-los de passagem.

Entre as várias espécies de chamas, a do espírito do vinho parece ser a mais

débil, a não ser que as chamas ou a luminescência produzidas pelo suor animal

sejam ainda mais débeis. A seguir, segundo nos parece, seria a chama dos

vegetais leves e porosos, como a palha, o junco e as folhas secas, cujas chamas

não estão muito longe das produzidas por pêlos ou penas. A estas seguem-se as

chamas das madeiras que não possuem resinas ou pez. Deve ser observado,

porém, que a chama proveniente de madeiras delgadas, que comumente são

juntadas em feixes, é mais fraca que a produzida por troncos de árvores e por

raízes. E isso pode ser facilmente experimentado nos fornos que fundem ferro,

onde o fogo produzido por feixes e ramos de árvores não tem utilidade. A

seguir, assim pensamos, vem a chama produzida por óleo, sebo, cera e por

outras substâncias oleosas e graxas, que não possuem muita força. Contudo, o

calor mais forte é encontrado no pez e na resina; mais forte ainda no enxofre e

na cânfora, na nafta, no petróleo, bem como nos sais, uma vez eliminada a sua

matéria crua, e em seus compostos, como a pólvora, o fogo grego (conhecido

como fogo selvagem)9 5 e seus diferentes tipos, todos portadores de um calor

obstinado, que não se extingue facilmente com água.

22. Cremos também que a chama produzida por certos metais imperfeitos é

sobremaneira forte e aguda. Mas sobre tudo isso são necessárias investigações

ulteriores.

23. A chama dos raios 9 6 parece superar todas as demais em potência, a ponto

de chegar a fundir o ferro perfeito, reduzindo-o a gotas, o que os outros tipos de

chamas não conseguem fazer.

24. Há nos corpos incandescentes diversos graus de calor, que ainda não

foram diligentemente investigados, O calor mais fraco pensamos ser o do pano

queimado, usado comumente para acender o fogo e também o proveniente das

madeiras esponjosas e das cordas secas que servem de rastilho para disparar a

artilharia. A seguir vem o carvão vegetal ou mineral, ou ainda o dos tijolos

queimados e coisas semelhantes. Cremos que, de todos os corpos

incandescentes, os mais quentes são os metais, quando acesos, caso do ferro, do

cobre, etc. Também esse caso deve ser investigado ulteriormente.

25. Entre os corpos incandescentes, alguns há muito mais quentes que certas

chamas. De fato, é muito mais quente o ferro em brasa que a chama do espírito

do vinho.

26. Entre os corpos não incandescentes, mas aquecidos pelo fogo, como a

água fervente e o ar encerrado nos fomos, há alguns que superam em calor, e

em muito, corpos incandescentes e mesmo inflamados.

27. O movimento aumenta o calor, como se pode ver pelos foles e pelo sopro;

por isso os metais mais duros não se fundem ou derretem com fogo morto e

parado, sendo necessário excitá-lo com o maçarico.9 7

28. Faça-se com espelhos ustórios o experimento seguinte, conforme

recordamos:98 coloca-se o espelho à distância, por exemplo, de um palmo, de

um objeto combustível. Não queimará ou inflamará tanto o objeto quanto se se

colocar o espelho a uma distância de, por exemplo, meio palmo e deslocá-lo

gradual e lentamente até a distância inicial de um palmo. O cone de

convergência e o feixe dos raios são os mesmos e é o próprio movimento que

aumenta o efeito do calor.

29. Acredita-se que os incêndios, quando acompanhados de fortes ventos,

mais progridem contra que a favor do vento. Isso porque as chamas se movem

mais rapidamente quando o vento as rechaça que quando as impele.

30. A chama não brilha, nem se produz, a menos que alcance algo de côncavo

em que se possa movimentar e dançar; exceção feita das chamas detonantes da

pólvora e análogas, caso em que a compressão e o aprisionamento da chama

aumentam o seu furor.

31. A bigorna se torna muito quente ante os golpes do malho. Se a bigorna

fosse feita de um metal mais mole, acreditamos que chega ria a ficar rubra, por

força dos duros e repetidos golpes do malho. Disso se deve fazer mais

experimentos.

32. Nos corpos incandescentes que são porosos, de tal forma que haja espaço

para o movimento do fogo, se o seu movimento for coibido por forte

compressão, logo o fogo se apagará. Assim, quando um pano queimado, o pavio

aceso de uma vela ou lâmpada, um pedaço de carvão vegetal ou uma brasa, são

abafados ou pisados, ou algo semelhante, interrompe-se subitamente a ação do

fogo.

33. A aproximação de um corpo quente de outro aumenta o calor na própria

razão dessa proximidade. Também é o que ocorre com a luz, p ois quanto mais

próximo da luz é um objeto mais visível ele se torna.

34. A união de calores de origens diversas aumenta o calor, desde que se não

misturem com corpos. Com efeito, um grande fogo e um fogo menor ateados no

mesmo local aumentam igualmente o calor tanto de um quanto de outro; mas

água morna misturada à água fervente esfria -a.

35. A permanência do calor em um corpo aumenta o calor. Pois o calor que

constantemente circula e emana mistura-se ao calor preexistente e assim

multiplica o calor. Por isso, o fogo aceso durante meia hora, em um cômodo,

não o aquece da mesma forma que um que dura uma hora inteira. Mas não se dá

o mesmo com a luz, já que uma lâmpada ou uma vela acesa não ilumina mais

determinado lugar durante um dia inteiro que logo no in icio.

36. A irritação produzida por um ambiente frio aumenta o calor,9 9 como se

observa no fogo aceso durante uma forte nevasca. Supomos que tal sucede não

apenas devido à concentração e contra ção do calor, que é uma espécie de união,

mas devido à exasperação, como ocorre com o ar muito comprimido ou um

bastão violentamente desviado de sua posição natural anterior, que não

retornam ao mesmo ponto em que estavam, mas muito além dele, em uma

posição oposta. Faça-se um diligente experimento com um bastão, ou com algo

semelhante, colocando-o no fogo, para verificar se não se consome mais

rapidamente nas extremidades que no meio da chama.

37. Há grande diversidade de graus de suscetibilidade ao calor. Sobre isso

note-se, em primeiro lugar, que o calor, mesmo pequeno e fraco, sempre acaba

por afetar e aquecer um pouco até os corpos a ele mesmo receptivos. Assim é

que o mesmo calor da mão que aquece um pouco uma bola de chumbo ou de

outro metal qualquer, por ela segu rada por algum tempo, facilmente se

transmite e se provoca o calor, sem que haja aparência de modificação nos

corpos.

38. De todos os corpos conhecidos, o ar é o que mais facilmente recebe e

transmite o calor, o que é bem visível pelos termômetros, 100 cuja confecção é a

seguinte: toma-se um tubo de vidro delgado e oblongo. Submerge-se o tubo

com a boca para baixo em outro recipiente de vidro, com água, de modo que o

seu orifício alcance o seu fundo, apoiando-se o seu gargalo na sua borda. Para

mantê-lo nessa posição, coloca-se um pouco de cera nas bordas internas do reci-

piente, sem, contudo, obstrui-lo, evitando-se, dessa forma, que falte o ar que é

indispensável ao movimento sumamente sutil e delicado de que vamos falar.

Deve-se, porém, aquecer ao fogo, antes de submergi-lo, a parte superior do

tubo. Depois de colocado o vidro, na forma indicada, o ar que foi aquecido vai-

se pouco a pouco contraindo, durante o tempo