novum_organum
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Disciplina:Filosofia e Ética2.204 materiais65.570 seguidores
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necessário para a completa

eliminação do calor adquirido do exterior, até alcançar as mesmas dimensões do

ar circunstante no momento em que foi submergido na água, o que provocará a

subida da água, na mesma proporção. Deve-se ainda fixar ao longo do tubo uma

tira de papel comprida e estreita e graduada, conforme se queira. Verificar-se-á

então que, quando a temperatura do dia é fria, o ar se contrai em menor espaço,

e quando é quente, ele se expande. E isso será percebido através da água que

sobe, quando o ar se contrai, ou desce, quando o ar se dilata. A sensibilidade do

ar, tanto para o frio quanto para o calor, é sutil e delicada a ponto de superar de

muito a capacidade do tato. Pois um raio de sol ou o calor da respiração ou o

calor da mão, dirigido para a extremidade do tubo, faz baixar a água de modo

manifesto. Pensamos, todavia, que o espírito dos animais possui uma

sensibilidade ainda mais sutil, em relação ao calor ou ao frio, desde que não seja

impedida ou embotada pela massa do corpo.101

39. Depois do ar, acreditamos que os corpos mais sensíveis ao calor sejam os

que foram há pouco modificados e contraídos pelo frio, como a neve e o gelo,

pois, com apenas uma leve tepidez começam a dissolver e liqüefazer-se. A

seguir, vem o mercúrio. Em seguida, os corpos graxos, como o óleo, a manteiga

e similares; depois a madeira, depois a água e, por fim, as pedras e os metais,

que se não aquecem com facilidade, especialmente na parte interior. Mas estes,

depois de contraído o calor, conservam-no por muito tempo, como é o caso do

tijolo, da pedra, ou do ferro incandescentes colocados ou mergulhados na água

fria, que retêm o calor durante perto de um quarto de hora, a ponto de não

poderem ser tocados.

40. Quanto menor é a massa de um corpo tanto mais rapidamente se aquece

pela aproximação de um corpo quente; o que demonstra que todo calor

conhecido é infenso aos corpos tangíveis.

41. O calor, em relação ao tato e aos demais sentidos humanos, é coisa

variável e relativa. Por isso a água tépida, se a mão que a toca está fria, parece

quente; se a mão está quente, parece fria.102

XIV

O quanto é pobre a nossa história natural, qualquer um pode facilmente

perceber pelo fato de que nas tábuas precedentes inserimos simples tradições e

relatos de terceiros (mas sempre acrescentando e pondo em dúvida mesmo a

mais segura autoridade), em lugar da história provada e das instâncias certas. E

ainda tivemos que nos servir muitas vezes de locuções como a seguinte: “É

necessário fazer o experimento”, “é necessário comprová-lo com ulterior

experimento”.

XV

Objetivo e oficio destas três tábuas é o de fazer uma citação de instância

perante o intelecto 103 (como usualmente as designamos). Uma vez feita a

citação, é necessário passar-se à prática da própria indução. É necessário, com

efeito, descobrir -se, considerando atentamente as tábuas e cada uma das

instâncias, uma natureza tal que sempre esteja presente quando está presente a

natureza dada, ausente quando aquela está ausente, e capaz de crescer e

decrescer acompanhando-a; e seja, como já se disse antes, uma limitação da

natureza mais comum.104 Assim, se a mente procura desde o início descobrir

essa natureza afirmativamente, como ocorre quando abandonada a si mesma,

ocorrem fantasias, meras opiniões e noções mal determinadas, e axiomas

carentes de contínuas correções, se não se quiser, segundo o costume das

escolas, combater em defesa de falsidade.105 Mas certamente os resultados serão

melhores ou piores conforme a capacidade e a força do intelecto que opera.

Contudo, só a Deus, criador e introdutor das formas,106 ou talvez aos anjos e às

inteligências celestes compete a faculdade de apreender as formas

imediatamente por via afirmativa, e desde o início da contemplação. Certamente

essa faculdade é superior ao homem, ao qual é concedida somente a via

negativa de procedimento, e só depois no fim, depois de um processo completo

de exclusões, pode passar às afirmações.1O7

XIV

Em vista disso, é necessário analisar e decompor, de forma completa, a

natureza, não certamente pelo fogo, mas com a mente, que é uma espécie de

centelha divina.108 A primeira obra da verdadeira indução, para a investigação

das formas, é a rejeição ou exclusão das naturezas singulares que não são

encontradas em nenhuma instância em que está presente a natureza dada, ou

encontram-se em qualquer instância em cuja natureza dada não está presente, ou

cresçam em qualquer instância em cuja natureza dada decresce, ou decrescem

quando a natureza dada cresce. Depois de ter feito as convenientes rejeições ou

exclusões na forma devida, restará no fundo, como resíduo donde se evolaram

como fumaça as opiniões, a forma afirmativa, sólida, verdadeira e bem

determinada. Tudo isso é breve para ser dito, mas é conseguido depois de

muitas tentativas. De nossa parte, acreditamos nada negligenciar do que é

necessário ao nosso propósito.

XVII

Devemos, no entanto, prevenir sem demora os homens de que se acautelem de

confundir as formas, de que falamos, com as que as suas especulações e

reflexões tratam habitualmente,109 o que pode ocorrer em vista da importância

que reconhecem às formas.

Em primeiro lugar, e por esse motivo, não nos ocuparemos das formas

compostas,110 que são, como já se disse, combinações das naturezas simples

conforme o curso comum do universo, como a do leão, da águia, da rosa, do

ouro, e de muitas outras. Elas serão devidamente consideradas quando nos

ocuparmos dos processos latentes, dos esquematismos latentes e de sua

descoberta, na medida em que se encontram nas chamadas substâncias ou

naturezas concretas.

De outra parte, mesmo em relação às naturezas simples, não se devem confundir

as formas de que tratamos com as idéias abstratas, ou seja, com a s idéias mal ou

não determinadas na matéria.111 Com efeito, quando falamos das formas, mais

não entendemos que aquelas leis e determinações do ato puro, que ordenam e

constituem toda e qualquer natureza simples, como o calor, a luz, o peso, em

qualquer tipo de matéria ou objeto a elas suscetível. Falar em forma do calor ou

da luz é o mesmo que falar da lei do calor ou da luz;112 não nos afastamos ou

abstraímos do aspecto operativo das coisas. Assim, por exemplo, quando

falamos na investigação da forma do calor: rechace-se a tenuidade ou a

tenuidade não é a forma do calor; é como se disséssemos: o homem pode

introduzir o calor em um corpo denso ou o homem pode retirar ou colocar à

parte o calor de um corpo tênue.

Por conseguinte, se as nossas formas parecerem a alguém com algo de abstrato,

pelo fato de misturarem e combinarem coisas hete rogêneas (pois parecem, sem

dúvida, heterogêneos o calor dos corpos celestes e do fogo; o vermelho fixo da

rosa ou similares, e o que aparece no arco-íris ou nos sais da opala ou do

diamante; a morte por submersão e a por cremação, a por um golpe de espada e

a por apoplexia e a por atrofia; e isso apesar de todos esses caracteres perten-

cerem à natureza do calor, do vermelho e da morte), reconheça ele que seu

intelecto está inteiramente preso e estacado pelo hábito, pelas coisas como um

todo 113 e pelas opiniões.

Está fora de dúvida que tais coisas, ainda que heterogêneas e diversas entre si,

coincidem na forma ou lei que ordena o calor, o vermelho ou a morte; e que ao

homem não é dado o poder de se emancipar e liberar-se do curso da natureza e

aventurar-se a novas causas eficientes e a novas de operar, afora da revelação e

da descoberta de tais formas. Porém, depois de haver considerado a natureza em

sua unidade, que é o principal, depois no seu devido lugar,