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Disciplina:Filosofia e Ética2.204 materiais65.570 seguidores
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tratar-se-á das

divisões e ramificações da natureza, tanto das ordinárias quanto das internas e

mais verdadeiras.

XVIII

É agora oportuna a apresentação de um exemplo de exclusão ou de rejeição de

naturezas, que nas tábuas de presença aparecem como não pertencendo à forma

do calor; mas também não deixando de se ter em mente que não apenas é

suficiente uma das tábuas de exclusão de uma natureza qualquer, mas que é

suficiente apenas uma das instâncias singulares nelas contidas. De fato, é

manifesto, pelo que já se disse, que mesmo apenas uma só instância que

contradiga destrói qualquer conjetura sobre a forma. De qualquer maneira,

sempre que necessário, para maior evidência e para a demonstração clara do uso

das tábuas, repetiremos e duplicaremos as exclusões.

Exemplo da Exclusão, ou Rejeição de Naturezas da Forma do Calor

1. Pelos raios do sol exclua-se a natureza elementar.

2. Pelo fogo comum e, mais ainda, pelos fogos subterrâneos, que estão

muito longe e muito distantes dos raios dos corpos celestes, exclua-se a natureza

dos corpos celestes.

3. Pela propriedade de se aquecerem que têm todos os corpos (minerais,

vegetais, as partes externas dos animais, água, azeite, ar e similares) pela

simples proximidade do fogo de outro corpo quente, exclua-se toda variedade e

delicadeza de textura dos corpos.

4. Pelo ferro e pelos metais incandescentes que aquecem todos os outros

corpos, sem, contudo, diminuírem de peso ou de substância, exclua-se a

comunicação ou a mescla de outro corpo quente.

5. Pela água fervente e pelo ar e ainda pelos metais e outros sólidos

aquecidos, mas não até a ignição e a incandescência, excluam-se a luz ou o

lume.114

6. Pelos raios da lua e de outras estrelas (com exceção do sol), excluam-se

ainda a luz e o lume.

7. Pela tábua comparativa do ferro incandescente e da chama do espírito do

vinho (que conclui que o ferro incandescente tem mais calor, mas menos luz, e a

chama do espírito do vinho, mais luz e menor calor), excluam-se também a luz e

o lume.

8. Pelo ouro e por outros metais incandescentes, que são corpos de grande

densidade, quando considerados como um todo, exclua-se a tenuidade.

9. Pelo ar, mais comumente encontrado frio, mas sempre permanecendo

tênue, exclua-se também a tenuidade.

10. Pelo ferro incandescente, cuja massa não se dilata, mas permanece em sua

dimensão visível, exclua-se o movimento local ou expansivo do todo.

11. Pela dilatação do ar nos termômetros 115 e coisas semelhantes, onde o ar

manifestamente tem um movimento local e expansivo, mas nem por isso contrai

qualquer manifesto aumento de calor, exclua-se também o movimento local e

expansivo do todo.

12. Pela facilidade com que todos os corpos se aquecem, sem qualquer

destruição ou alteração digna de nota, exclua-se a natureza destrutiva ou a

introdução violenta de qualquer natureza nova.

13. Pelo consenso e conformidade dos efeitos semelhantes produzidos pelo

calor e pelo frio, exclua-se o movimento, tanto de expansão quanto o de

contração do todo.

14. Pelo aumento do calor oriundo do atrito dos corpos, exclua-se a natureza

principal. 116 Chamamos de natureza principal a que se encontra positivamente

na natureza e não é causada por uma natureza precedente.

Há ainda outras naturezas (a serem excluídas), pois não fizemos tábuas

perfeitas, mas apenas exemplos.

Todas, e cada uma das naturezas enumeradas, não estão compreendidas na

forma do calor. E de todas essas naturezas mencio nadas, o homem deve estar

livre ao operar sobre o calor.

XIX

Com as tábuas das exclusões estão colocados os fundamentos da verdadeira

indução; que, contudo, não será perfeita se não se apoiar na afirmativa. Mas

nem a própria exclusiva está completa, mormente logo de início. Com efeito, a

exclusiva (como é evidente) representa a rejeição das naturezas simples; mas se

ainda não possuímos noções justas e verdadeiras das naturezas simples,117 como

pode o procedimento exclusivo ser correto? Algumas das noções antes

mencionadas (como a noção da natureza elementar, como a noção da natureza

celeste, como a noção de tenuidade)118 são noções vagas e não bem

determinadas. Por isso, de vez que não ignoramos, nem nos esquecemos da

magnitude da obra que empreender (qual seja, a de colocar o intelecto humano

ao nível da natureza e das coisas), de nenhum modo nos podemos contentar com

o que até agora preceituamos; ao contrário, intentamos oferecer e subministrar

ao intelecto os mais poderosos auxílios, que é o que passaremos a indicar. E,

certamente, na interpretação da natureza deve-se formar e preparar o ânimo na

interpretação da natureza, de modo que, de um lado, detenha-se devidamente

nos vários graus de certeza e, de outro, pense também, especialmente no início,

que o que lhe é permitido examinar depende sobremaneira do que ainda está

para ser examinado.

xx

Contudo, como a verdade emerge mais rapidamente do erro que da confusão,

reputamos ser útil permitir -se ao intelecto, depois de elaboradas e devidamente

consideradas as três tábuas de primeira citação (ou comparecimento ou de

apresentação, tal como o fizemos), o empreendimento da obra de interpretação

da natureza na afirmativa,120 a partir das instâncias contidas nas tábuas, ou das

que ocorrerem fora delas. A essa espécie de tentativa continuamos a chamar de

Permissão ao Intelecto ou de Interpretação Inicial ou ainda de Primeira

Vindima.121

Primeira Vindima da Forma do Calor

Deve ter-se presente que a forma é inerente (o que deve ter ficado claro pelo

que antes foi dito) a todas e a cada uma das instâncias particulares, nas quais se

encontra a própria coisa; de outra maneira não seria forma, pois não pode

ocorrer nenhuma instância contraditória. Todavia, a forma é muito mais visível

em algumas instâncias que em outras; ou seja, nas que a natureza da forma está

menos coibida e impedida pelas outras naturezas e reduzida à sua ordem. A

estas instâncias costumamos chamar de instâncias luminosas ou instâncias

ostensivas.122

Em todas e em cada uma das instâncias em que a limitação é o calor, a natureza

parece ser o movimento. Isso é manifesto na chama, no seu perpétuo mover, nos

líquidos aquecidos ou ferventes, também sempre em movimento. Fica

igualmente claro, quando se excita o calor pelo movimento, como acontece com

os foles e com o vento (veja-se instância 29, tábua 3). O mesmo pode ser dito de

outros tipos de movimento, a cujo respeito veja instâncias 28 e 31, tábua 3. Isso

também se observa na extinção do fogo e do calor, por qualquer forte

compressão que refreia e interrompe o movimento (veja instâncias 30 e 32,

tábua 3). Fica igualmente claro que todos os corpos se destroem ou, pelo menos,

se alteram consideravelmente, por qualquer fogo ou calor forte e veemente, daí

se seguindo que o calor produz um movimento forte, um tumulto ou

perturbação nas partes internas do corpo, que gradualmente caminham para a

dissolução.

O que dissemos a respeito do movimento (ou seja, que é como o gênero em

relação ao calor) não deve ser entendido como significando que o calor gera o

movimento ou que o movimento gera o calor (embora nisso haja alguma

verdade), mas que o calor é em si, 123 ou que a própria qüididade do calor 124 é

movimento e nada mais; observando-se, porém, as diferenças específicas que a

seguir enumeraremos, depois de indicar algumas precauções contra os

equívocos.

O calor, enquanto coisa sensível, é algo relativo ao homem e não ao universo, e

é corretamente estabelecido como sendo efeito (do calor) sobre o espírito

animal. Pelo que, em si mesmo, é coisa variável, pois em um mesmo corpo

(conforme a disposição