novum_organum
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dos sentidos) produz tanto sensação de calor quanto de

frio, o que deve ter ficado patente pela instância 41, tábua 3.

Contudo, não se pode confundir a comunicação do calor, ou seja, a sua natureza

transitiva, graças à qual um corpo aproximando-se de outro quente, também se

aquece, com a forma do calor. Pois uma coisa é o quente e outra é o que

esquenta. E, como, com um movimento de atrito, se produz calor sem a

existência de um calor precedente, é necessário que se exclua o que se aquece

da forma do quente. É mesmo quando o calor sobrevém, pela aproximação de

algo quente, isso não se deve à forma do quente, mas resulta inteiramente de

uma natureza mais alta e comum, isto é, da natureza da assimilação ou da

multiplicação de si mesmo, o que deve ser investigado separadamente.125

A noção de fogo é vulgar e de nada vale; é composta de combinação do calor e

da luz de um corpo, como na chama e nos corpos aquecidos até a

incandescência.

Uma vez afastado todo equívoco, passemos às diferenças verdadeiras, que

limitam o movimento e constituem-no na forma do calor.126

A primeira diferença é a seguinte: o calor é movimento expansivo, pelo qual o

corpo se dilata e tende a dilatar-se ou a passar para uma esfera ou dimensão

maior que a antes ocupada. Esta diferença se mostra sobretudo na chama, onde

o fumo e o vapor espesso se dila tam e convertem-se em chama.

O mesmo se observa em todo líquido fervente que se intumesce, de maneira

manifesta, eleva-se e emite borbulhas, e o processo de expansão se estende até

alcançar uma extensão muito superior e muito mais ampla que a do próprio

líquido, quer dizer, convertendo o líquido em vapor, fumo ou ar.

Observa-se também em toda madeira ou matéria combustível, em que às vezes

ocorre exsudação e sempre evaporação.

Observa-se ainda na fusão dos metais que como corpos muito compactos que

são) não se intumescem nem se dilatam com facilidade, porém, o seu espírito,

depois de se ter dilatado, tendendo dessa forma a uma maior expansão, força e

leva as partes mais graxas ao estado liquido. E se for aumentado em muito o

calor, dissolve e torna volátil grande parte delas.

Observa-se igualmente no ferro e nas pedras: que, embora não se liqüefaçam ou

fundam, tornam-se mais moles. O que também ocorre com varas de madeira,

que se tornam flexíveis quando aquecidas em cinza quente. E esse movimento

se observa de modo mais evidente possível no ar, que com pouco calor se dilata

de modo continuo e manifesto, como se pode ver pela instância 38, tábua 3.

Observa-se, ainda, na natureza contrária, que é o frio. Com efeito, o frio contrai

todos os corpos e leva-os a se encolherem. Isso vai ao ponto de, por ocasião de

intenso frio, os pregos caírem das paredes, o bronze se dessoldar, e o vidro

aquecido, e subitamente colocado no frio, arquear-se e quebrar. Igualmente o ar,

submetido a um ligeiro resfriamento, se contrai em volume mais restrito, como

aparece na instância 38, tábua 2. Mas, sobre esse assunto, alongar-nos-emos

mais quando da investigação do frio.

Não é de estranhar que o calor e o frio produzam muitas ações comuns (a

respeito, veja-se instância 32, tábua 32), pois duas das diferenças que vêm a

seguir pertencem igualmente às duas naturezas; ainda que nesta diferença (a de

que estamos tratando) as ações sejam diametralmente opostas — pois o calor

engendra um movimento expansivo e dilatador, e o frio, ao contrário, engendra

um movimento de contração e de condensação.

A segunda diferença é uma modificação da precedente e reza que o calor é um

movimento expansivo ou orientado para a circunferência, mas com a condição

de que, ao mesmo tempo, o corpo tenda para o alto. Não há dúvida de que se

podem produzir muitos movimentos mistos. Por exemplo, uma seta ou um

dardo gira enquanto caminha e caminha enquanto gira. Da mesma maneira, o

movimento do calor é expansivo e ao mesmo tempo voltado para o alto.

Esta diferença fica bastante evidente ao serem colocadas tenazes ou atiçadores

de ferro no fogo. Se são colocados perpendicularmente, segurando-se na outra

extremidade, o calor rapidamente queimará as mãos, mas se são colocados

horizontalmente ou em nível inferior ao do fogo, as mãos se vão aquecer muito

depois.

É também evidente nas destilações, per discensorium, que são usadas pelos

homens para flores muito delicadas cujos aromas rapidamente se evolam. De

fato, a indústria humana descobriu uma maneira de colocar o fogo não por

baixo, mas por cima, para aquecimento mais lento. Não apenas a chama mas

também toda espécie de calor tende para o alto.

Faça-se um experimento disso, na natureza contrária do frio, para se verificar se

o frio não provoca a contração dos corpos para baixo, da mesma maneira que o

calor dilata os corpos para o alto. Para isso, tomem-se duas barras de ferro, ou

dois tubos de vidro, iguais em todos os outros aspectos, e levem-nos ao fogo

para se aquecerem um pouco; coloque-se uma esponja embebida em água fria

ou neve, em cima de uma e embaixo de outra respectivamente. Supomos que o

resfriamento no sentido das extremidades será mais rápido na barra em que a

neve esteja em cima do que naquela em que a neve venha colocada embaixo, ou

seja, exatamente o contrário do que ocorre com o calor.

A terceira diferença é a seguinte: o calor é um movimento expansivo, não

uniforme segundo o todo, mas segundo as menores partículas do corpo, e ao

mesmo tempo reprimido, repelido e afastado, de maneira que adquire um

movimento alternado e continuamente trêmulo e irritado pela repercussão 127 e

do qual se origina o furor do fogo e do calor.

Esta diferença aparece sobretudo na chama e nos líquidos ferventes, que

continuamente tremem e nas menores partes se intumescem e repentinamente

esmorecem.

Ocorre ainda nos corpos que têm tal densidade que aquecidos ou incandescentes

não se intumescem, nem se dilatam em sua massa; esse é o caso do ferro

candente, em que o calor é muito intenso.

Ocorre ainda no fato de o fogo arder mais intensamente por ocasião da estação

fria.

Ocorre ainda no fato de que, quando o ar se dilata, no termômetro, sem qualquer

impedimento ou força repulsiva, isto é, com uniformidade e conformidade, não

se percebe qualquer calor. Ainda nos ventos fechados, mesmo irrompendo com

a máxima força, mesmo assim não se percebe um calor significativo; isso

porque o movimento ocorre segundo o todo e não alternadamente nas partículas.

Faça-se um experimento a esse respeito para se verificar se a chama não queima

mais fortemente nos lados que no centro.

Ocorre também de forma clara no fato de que toda a combustão penetra pelos

diminutos poros do corpo, que se queima; de modo que a combustão o abate,

penetra, atravessa e perfura como se possuísse infinitas pontas de agulha. É por

isso que também todas as águas-fortes (se são adequadas ao corpo sobre o qual

agem) produzem os efeitos do fogo, devido à sua natureza corrosiva e

penetrante.

Esta diferença (a de que estamos falando) é comum à natureza do frio, no qual o

movimento de contração é contido pela força expansiva; do mesmo modo que

no calor é reprimido o movimento expansivo pela força de contração.

Por isso, tanto faz se as partículas do corpo o penetrem para dentro ou no

sentido do exterior, o processo é o mesmo, embora o grau de intensidade seja

muito diferente, pois, mesmo aqui bem perto de nós, na superfície da Terra,

nada temos que seja puramente frio (veja -se instância 27, tábua 1).

A quarta diferença é uma modificação da anterior, ou seja, o movimento

estimulante ou penetrante deve ser rápido, e não lento, e provir por partículas

não extremamente pequenas, mas um pouco maiores.