novum_organum
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Observa-se esta diferença no confronto dos resultados que produz o fogo com 
os resultados que produz o tempo ou a idade. O tempo tanto quanto o fogo 
queima, consome, alui e reduz a cinzas, mas de forma sutil e delicada, isso 
porque trata -se de um movimento muito lento, que procede por partículas 
minúsculas e onde não se percebe o calor. 
Ocorre também na comparação entre a dissolução do ferro e do ouro. O ouro de 
fato dissolve sem provocar calor, enquanto o ferro produz um calor fortíssimo, 
mesmo durante um tempo mais ou menos igual. Tal ocorre porque, com a 
introdução da água, a solução se processa mais naturalmente e a dissolução das 
partes advém sem esforço, mas com o ferro, ao contrário, a presença da água é 
áspera e contrastante, porque as partes do ferro opõem uma maior resistência. 
Ocorre ainda até certo ponto em certas gangrenas ou decomposições da carne 
que não produzem grande calor, nem dor, mas cumprem-se pelo processo sutil 
da putrefação. 
Seja esta, pois, a primeira vindima ou interpretação inicial da forma do calor, 
obtida por permissão do intelecto. 
Desta primeira vindima, obtêm-se a forma ou verdadeira definição do calor (o 
calor em relação ao universo e não apenas em relação aos sentidos), que pode 
ser expressa brevemente do seguinte modo: O calor é um movimento expansivo, 
reprimido e que atua sobre as partículas menores. A expansão pode ser 
definida: Pela natureza de expandir-se em todas as direções, mas que, apesar 
disso, se inclina um pouco mais para o alto. E o esforço sobre as partículas se 
define dizendo: Que não se trata de algo lento, mas apressado e impetuoso. 
Em relação à parte operativa, é a mesma coisa. De fato, o seu enunciado é o 
seguinte: Se em algum corpo natural pode produzir-se um movimento de 
dilatação e expansão e se se puder reprimi-lo e fazê-lo voltar sobre esse 
movimento, de modo que a dilatação não transcorra uniformemente, mas por 
partes e que seja em parte repeli da, nesse caso, sem dúvida, se engendrará 
calor. É indiferente se se trata de corpo elementar (como se diz) ou se recebe as 
suas qualidades dos corpos celestes; se é luminoso ou opaco; se é tênue ou 
denso; se aumentado em seu volume ou contido nos limites da primeira 
dimensão; se tendente a dissolver-se ou a permanecer no seu estado; se animal, 
vegetal ou mineral; se água, óleo ou ar; ou de qualquer outra substância 
suscetível do movimento mencionado. O calor sensível é, pois, a mesma coisa 
que o calor em si, mas em relação aos nossos sentidos.128 Mas agora é 
necessário passar aos outros auxílios do intelecto. 
XXI 
Depois das tábuas de primeira citação, depois da rejeição ou exclusão e depois 
da primeira vindima, feita segundo aquelas tábuas, é necessário passar aos 
outros auxílios do intelecto na interpretação da natureza, bem como à indução 
verdadeira e perfeita. Nessa exposição, se se fizer necessário o uso das tábuas, 
retomaremos as do calor e do frio. Mas quando houver necessidade de apenas 
alguns poucos exemplos, esses serão recolhidos aqui ou ali, para que não se 
torne confusa a investigação e a exposição muito restrita. 
Em primeiro lugar, trataremos das instâncias prerrogativas;129 em segundo 
lugar, dos adminículos da indução;130 em terceiro lugar, da retificação da 
indução;131 em quarto lugar, da variação da investi gação segundo a natureza 
do assunto;132 em quinto lugar, das prerrogativas da natureza 133 em relação à 
investigação, ou seja, daquilo que se deve investigar antes e depois; em sexto 
lugar, dos limites da 134 investigação ou sinopse de todas as naturezas do 
universo; em sétimo lugar, da dedução à prática,135 ou seja, daquilo que está 
relacionado como o homem; em oitavo lugar, dos preparativos para a 136 
investigação; em último lugar, da escala ascendente e descendente dos 
axiomas.137 
XXII 
Entre as instâncias prerrogativas, em primeiro lugar, proporemos as instâncias 
solitárias. Solitárias são aquelas instâncias que apresentam a natureza que se 
investiga, em coisas que nada têm em comum com outras, a não ser aquela 
natureza; ou que não apresentam a natureza que se investiga em coisas que são 
semelhantes a outras em tudo, exceto em relação a essa natureza. É claro que 
estas instâncias eliminam palavras inúteis e aceleram e reforçam a exclusão; 
bem por isso algumas poucas valem por muitas. 
Assim, por exemplo, na investigação da natureza da cor, as instâncias solitárias 
são os prismas e os cristais que fazem aparecer a cor, não somente em si 
mesma, mas também a refletem sobre paredes externas, sobre o orvalho, etc. 
Tais instâncias nada têm em comum com as cores fixas nas flores, com as cores 
das gemas, dos metais, das madeiras, etc.; exceção feita da própria cor. Daí 
facilmente se estabelece que a cor nada mais é que uma modificação da imagem 
luminosa introduzida no corpo e recebida, no primeiro caso, com diversos graus 
de incidência, no segundo como efeito de estrutura e esquematismos diversos. 
Estas instâncias são solitárias por semelhança. 
Ainda, na mesma investigação, os veios do branco e do negro e as variações de 
cor, em flores da mesma espécie, constituem instâncias solitárias. Efetivamente, 
o branco e o negro do mármore e as manchas de branco e de vermelho de certas 
espécies de cravo parecem-se em quase tudo, exceto na cor. Daí facilmente se 
conclui que a cor não tem muito em comum com as naturezas intrínsecas dos 
corpos, mas que consiste tão -somente na disposição tosca e quase mecânica das 
partes. A estas instâncias que são solitárias, por diferença a um e outro gênero, 
chamamos de instância solitária, ou Ferinos,138 usando o termo astronômico. 
XXIII 
Entre as instâncias prerrogativas, colocaremos em segundo lugar as instâncias 
migrantes .139 São aquelas em que a natureza investigada migra ou passa a um 
processo de existência 140 se antes não existia, ou, ao contrário, migra no sentido 
da corrupção, se antes existia. Em ambos os casos, simétricos da alternância, as 
instâncias são duplas, ou uma única instância em movimento ou trânsito, que se 
estende ao ciclo contrário. As instâncias desse tipo não apenas acele ram e 
reforçam o processo de exclusão como também delimitam o afirmativo, isto é, a 
própria forma investigada. É necessário, com efeito, que a forma da coisa seja 
algo que, por meio das migrações, de um lado manifeste-se, de outro, destrua-se 
e seja eliminada. E ainda que toda exclusão promova a afirmação, isso se 
cumpre mais diretamente considerando-se um mesmo objeto, em vez de muitos. 
A forma (como deve ter ficado claro por tudo o que foi dito), depois de 
observada em um único, estende-se a todos os objetos. Quanto mais simples é a 
migração tanto mais significativa é a instância. Além disso, as instâncias 
migrantes são de grande utilidade na parte operativa (ou prática) do saber; isso 
porque, mostrando a forma juntamente com a causa que a faz ser ou não ser,141 
indicam de forma mais evidente a prática a ser seguida em certos casos, dos 
quais é fácil passar a outros, mas há ai um perigo a ser evitado que exige 
cautela, ou seja, tais instâncias conectam muito estreitamente a forma à causa 
eficiente,142 confundindo assim o intelecto, ou pelo menos iludindo-o com uma 
falsa opinião da forma, ao divisar a causa eficiente. E esta, para nós, nada mais 
é que o veículo ou o condutor da forma. Mas se o procedimento de exclusão é 
feito de maneira legítima, o remédio será facilmente encontrado. 
Exporemos agora um exemplo de instância migrante. Seja a natureza a ser 
investigada o candor ou a brancura: a instância migrante para a produção é o 
vidro inteiro e o vidro pulverizado. Também a água comum e a água agitada, até 
transformar-se em