novum_organum
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Disciplina:Filosofia e Ética2.204 materiais65.570 seguidores
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espuma e na neve, que adquirem tal consistência que chegam

quase a ser passíveis de cortes, mesmo sendo corpos formados de ar e de água,

ambos líquidos. Todos esses exemplos indicam de maneira nada obscura que o

líquido 148 e a consistência são noções vulgares e relativas aos sentidos;149 mas

também que em todos os corpos está presente a fuga ou a tendên cia no sentido

de evitar a própria descontinuidade e que tal tendência nos corpos homogêneos,

como nos líquidos, é débil e frouxa; enquanto que nos corpos compostos de

partes heterogêneas é muito mais forte e viva. E isso porque a presença de um

corpo heterogêneo une os corpos, enquanto a introdução de um corpo

homogêneo os dis solve e relaxa.

Da mesma maneira, procure-se investigar, por exemplo, a natureza da atração

ou coesão dos corpos.150 A mais notável instância ostensiva dessa forma é o

magneto. A natureza contrária à atração é a não-atração, como a que existe em

substâncias semelhantes. O ferro não atrai o ferro, o chumbo não atrai o

chumbo, a madeira não atrai a madeira, a água não atrai a água, etc. Mas a

instância clandestina é o magneto armado de ferro, ou melhor, o ferro armado

em um magneto. A natureza é tal que o magneto, armado a uma certa distância,

não exerce mais atração sobre o ferro que o magneto desarmado. Mas se o ferro

é aproximado do magneto, armado até tocá-lo, então o magneto armado

sustentará um peso de ferro muito maior que um magneto simples e sem

armação, em vista da semelhança da substância do ferro com o ferro. Essa

propriedade de operar era completamente clandestina ou latente no ferro, antes

que o magneto dele fosse aproximado. Daí fica claro que a forma de coesão dos

corpos é algo de vivo e intenso no magneto, fraco e latente no ferro. Deve,

ainda, ser notado que pequenas flechas de madeira, sem ponta de ferro, dispara-

das por bestas grandes, penetram mais a madeira (como os flancos do navio ou

coisas semelhantes) que essas mesmas flechas armadas com a ponta de ferro;

isso devido à semelhança da substância da madeira com a madeira, embora essa

propriedade já antes estivesse latente na madeira. Da mesma maneira, apesar de

o ar manifestamente não atrair o ar e a água, água, uma bolha aproximada de

outra bolha dissolve-se mais facilmente que se tal não tivesse ocorrido, isso

devido ao apetite de coesão que tem a água para com a água e o ar para com o

ar. Tais instâncias clandestinas (que são de notável utilidade, como já foi dito)

tornam-se visíveis sobretudo em porções pequenas e sutis dos corpos. As

massas maiores seguem formas mais gerais e universais, como se dirá no devido

lugar.

XXVI

Entre as instâncias prerrogativas, colocamos em quinto lugar as instâncias

constitutivas,151 a que também costumamos chamar de manipulares.152 São as

que se constituem numa espécie da natureza investigada, à maneira de forma

menor. Com efeito, como as formas legítimas (que são sempre conversíveis nas

naturezas investigadas) são muito latentes e não são facilmente descobertas, a

vacilação e a fragilidade do intelecto humano requerem que as formas

particulares, que reúnem alguns punhados de instâncias, mas não todas em uma

noção comum, não sejam negligenciadas, antes notadas com toda diligência.

Pois tudo o que serve para conferir unidade à natureza, ainda que de modo

imperfeito, abre caminho à descoberta das formas. Portanto, as instâncias que

são úteis a esse propósito não podem ser desprezadas quanto à sua força e têm

até certas prerrogativas.

Mas o seu emprego deve ser feito com diligente cautela, para se evitar que o

intelecto humano, depois de ter descoberto muitas dessas formas particulares e

de ter estabelecido as partições ou divisões da natureza investigada, acabe se

contentando apenas com isso e não prossiga na investigação legítima da forma

grande;153 mas acabe supondo que a natureza, na sua própria raiz, é múltipla e

dividida, e descure e suponha a ulterior unidade da natureza como uma sutileza

vã, que conduz a meras abstrações.

Estabeleça-se, por exemplo, que a natureza a ser investigada seja a memória ou

aquilo que excita e ajuda a memória. As instâncias constitutivas são a ordem ou

a distribuição que manifestamente ajudam a memória, como também é o caso

dos tópicos 154 da memória artificial,155 que podem ser lugares, no seu

significado verdadeiro e próprio, como a porta, o ângulo, a janela e coisas

parecidas, e podem ser pessoas, familiares e conhecidas; podem ser, ainda,

outras coisas (desde que dispostas em uma determinada ordem), como animais

ou ervas; podem ser, ainda, palavras, letras, caracteres, personagens históricas,

etc. Para cada caso devem ser verificados os que são mais ou menos aptos e

cômodos. Tais tópicos ajudam significativamente a mente e predispõem-na em

relação a forças naturais. Por essa razão os versos permanecem e prendem mais

facilmente a memória que a prosa. O conjunto ou manípulo dessas três

instâncias, ou seja, a ordem, os tópicos da memória artificial e os versos,

constitui uma só espécie de ajuda à memória de tal espécie que pode chamar -se

justamente de corte do infinito.156 Com efeito, quando se procura recordar

alguma coisa ou buscá-la na memória, se não se conta com nenhuma prenoção

ou percepção do que se busca, a procura se cumpre de maneira errante, indo-se

aqui e ali, e assim quase ao infinito. Mas, se se dispõe de alguma prenoção

segura, subitamente é interrompido o vagar ao infinito e o discurso da memória

se torna mais próximo. Pois bem, na três instâncias supracitadas a prenoção é

evidente e certa: na primeira, trata-se de algo que retoma certa ordem; na

segunda, trata-se de uma imagem que tem alguma relação ou conveniência com

os tópicos estabelecidos; na terceira, trata-se de palavras que formam um verso.

E assim é que se interrompe o vagar ao infinito. Outras instâncias nos

oferecerão a seguinte segunda espécie: tudo o que conduz o que é do intelecto à

impressão dos sentidos 157 ajuda a memória (conforme uma regra muito seguida

pela memória artificial). Outras instâncias oferecerão esta terceira espécie: tudo

o que provoca uma impressão, sob um intenso afeto,158 ou seja, o que infunde

medo, admiração, vergonha, deleite, ajuda a memória. Outras instâncias

oferecerão esta quarta espécie: tudo o que se imprime na mente pura ou antes de

estar ocupada ou despreocupada de algo, como o que se aprende na infância ou

o que se pensa antes do sono e ainda o que acontece pela primeira vez, melhor

se fixa na memória. Outras instâncias oferecerão esta quinta espécie: o grande

número de circunstâncias e de ocasiões ajuda a memória como o hábito de

escrever-se por partes descontínuas e a leitu ra e recitação em voz alta. Outras

instâncias, finalmente, oferecerão esta sexta espécie: tudo o que se espera e que

excita a atenção grava-se na mente muito mais que o que transcorre sem

preocupação. Por isso, se se ler um escrito vinte vezes, não será aprendido de

memória com a facilidade resultante de dez leituras, nas quais se procure dizer o

texto de memória, apenas retomando o escrito quando aquela falhar.

Assim, seis são as formas menores de ajuda à memória: a inter rupção ou corte

do vagar ao infinito, a redução do intelectual ao sensível, a impressão recebida

sob intensa vibração de ânimo, a impressão feita em uma mente pura, a

multidão de ocasiões, a expectativa prévia.

Da mesma maneira, tome-se, por exemplo, para a investigação, a natureza do

gosto ou da degustação. As instâncias que se seguem são constitutivas: os

indivíduos que por natureza são destituídos do olfato são também providos do

gosto, assim não distinguem o alimento rançoso ou podre, como também não