novum_organum
254 pág.

novum_organum

Disciplina:Filosofia e Ética2.204 materiais65.570 seguidores
Pré-visualização50 páginas
distinguem o cheiro do alho ou da rosa e coisas semelhantes. Mesmo os

indivíduos que ficam com o nariz obstruído por catarro não distinguem nem

percebem o podre, o rançoso ou o odor da água de rosas aspergida sobre algo.

Porém, se se provocar a desobstrução do nariz com violento sopro, no mesmo

instante terão a percepção do mau cheiro ou do odor de qualquer coisa que

tenham na boca. Estas instâncias darão e constituirão esta espécie ou parte do

gosto, tornando claro que o sentido do gosto nada mais e, em parte, que um

olfato interno que passa e desce, dos canais superiores do nariz à boca, e ao

paladar, e, em contrapartida, o salgado, o doce, o acre, o ácido, o seco, o amargo

e semelhantes, tais sabores, todos eles são totalmente percebidos pelos que são

desprovidos do olfato ou o tenham obstruído. Assim, torna-se evidente que o

sentido do gosto é algo composto do olfato interno e de uma espécie de tato

delicado, do qual não cabe tratar aqui.

Ainda, do mesmo modo, tome-se, por exemplo, a investigação da natureza da

comunicação sem mescla de substância. A instância das luzes oferecerá ou

constituirá uma espécie de comunicação; o calor e o magneto uma outra. Com

efeito, a comunicação das luzes é momentânea e, subitamente, se desvanece

quando se tolda sua fonte de irradiação. Por seu turno, o calor e a força

magnética depois de transmitidos, ou melhor, excitados em corpo, aderem a ele

e nele permanecem por algum tempo, mesmo na falta do objeto que originou o

movimento.

Em suma, é sobremaneira grande a prerrogativa das instâncias constitutivas, por

serem de grandíssima valia no estabelecimento das definições (especialmente

particulares) e nas divisões ou partições da natureza, e a cujo respeito disse com

acerto Platão “que se deve considerar como um Deus o que bem souber definir e

dividir”.1 59

XXVII

Entre as instâncias prerrogativas, colocaremos em sexto lugar as instâncias

conformes ou proporcionadas,160 a que costumamos também chamar de

paralelas ou semelhanças físicas.161 E são as instâncias que ostentam as

semelhanças e as conjunções das coisas, não nas formas menores, como as

instâncias constitutivas, mas simplesmente no concreto. Constituem por isso

como que os primeiros e mais baixos graus de unificação da natureza. Não

constituem imediatamente, logo de início, um axioma, mas tão-somente indicam

e observam certa conformidade entre os corpos. Mesmo não sendo de grande

valia para o descobrimento das formas, revelam, contudo, de maneira útil, as

estruturas das partes do universo, perfazendo quase a anato mia de seus

membros; por isso, dirigem-se quase pelas mãos aos axiomas nobres e sublimes

e especialmente àqueles que se relacionam com a configuração do mundo, e

muito pouco servem para se chegar às naturezas ou formas simples.

Por exemplo, são instâncias conformes as seguintes: o espelho e o olho; a

estrutura do ouvido e dos lugares que produzem eco. A partir dessa

conformidade, deixando-se de lado a mera observação da semelhança, bastante

útil para muitas coisas, é fácil recolher e estabelecer o axioma de que os órgãos

dos sentidos e os corpos que comportam os reflexos sobre os sentidos são

semelhantes por natureza. Com isso em conta, o intelecto se eleva sem

dificuldade a um axioma mais alto e nobre, que é o seguinte: não há, entre os

consensos ou simpatias dos corpos dotados de sensação e os inanimados e

privados de sensação, outra diferença que a que os primeiros possuem um corpo

disposto de tal forma a poder receber o espírito animal, os segundos não. Assim,

quantos sejam os consensos nos corpos inanimados outros tantos poderão ser os

sentidos nos corpos dos animais, desde que para isso haja espaço no corpo

animado, suficiente para o espírito animal em um membro adequadamente

ordenado como um órgão idôneo. E, ainda, tantos sejam os sentidos dos animais

quantos serão, sem dúvida, os movimentos em um corpo inanimado, desprovido

do espírito animal. Mas é necessário que os movimentos nos corpos inanimados

sejam em muito maior número que os dos sentidos nos corpos animados, em

vista da pequenez dos órgãos dos sentidos. E disso há um exemplo bastante

manifesto nas dores. Pois, existindo muitos gêneros de dores nos animais e, por

assim dizer, distintos caracteres delas (uma é a dor da queimadura, outra a do

frio intenso, outra a de uma pontada, outra a de uma distensão e outras do

mesmo tipo), é absolutamente certo que todas ocorram em corpos inanimados,

em relação ao movimento. E o caso, por exemplo, da madeira e da pedra,

quando queimadas, ou quando contraídas pelo gelo, ou quando furadas, ou

quando partidas, ou quando dobradas, ou quando golpeadas, e assim por diante;

embora não haja sensação, devido à ausência do espírito animal.

Do mesmo modo (embora estranho para ser dito), as instâncias conformes são

as raízes e os ramos da planta. De fato, todo vegetal, crescendo, aumenta de

volume e tende a estender suas partes em cír culo, tanto para cima quanto para

baixo. Não há outra diferença entre as raízes e os ramos que o fato de as raízes

estarem sob a terra, enquanto os ramos se estenderem pelo ar e ao sol. Tome-se

um ramo tenro e verde e coloque-se em uma pequena porção de terra; mesmo

antes de se fixar ao terreno, o que logo aparece não é um ramo mas uma raiz. E

vice-versa, se se coloca terra na parte superior e por meio de uma pedra ou de

uma substância dura se arruma a planta de tal forma que ela fique comprimida e

não possa brotar para cima, ela soltará ramos no ar existente na parte de baixo.

Do mesmo modo, são instâncias conformes a resina das árvores e muitas gemas

de rubi. Umas e outras, de fato, são exsudações e filtrações de sucos, no

primeiro caso de árvores, no segundo, de seixos. Daí a existência em ambos do

esplendor e brilho causados, sem dúvida, pela filtração delicada e perfeita. Daí

procede também o fato de os pêlos dos animais não serem tão belos e de cores

tão vivas como as penas das aves — pois os sucos não se filtram pela pele com

a mesma delicadeza que pelos pequenos tubos das penas.

Do mesmo modo, são instâncias conformes o escroto nos animais masculinos e

a matriz nas fêmeas. Pois a notável estrutura que permite ao sexo se diferenciar

(pelo menos os animais terrestres) não parece ser outra coisa que a diferença

entre o interno e o externo; ou seja, o calor, que tem maior força no sexo

masculino, impele para fora as partes genitais; ao passo que nas fêmeas tal não

ocorre, porque o calor é mais fraco e as partes genitais ficam contidas no

interior.162 Do mesmo modo, são instâncias conformes as barbatanas dos peixes,

os pés dos quadrúpedes, os pés e as asas das aves, ao que Aristóteles acrescenta

as quatros flexões que fazem as serpentes.163 Assim, na estrutura do universo o

movimento dos seres vivos parece poder ser explicado com dois pares de

artelhos ou membros flexíveis.

E do mesmo modo são instâncias conformes os dentes dos animais terrestres e o

bico das aves: em vista do que se torna claro que todos os animais perfeitos têm

algo de duro na boca.

Do mesmo modo, não é absurda a semelhança e conformidade graças às quais o

homem parece uma planta invertida. De fato, a raiz dos nervos e das faculdades

dos animais é a cabeça; as partes seminais são as mais baixas, sem se levar em

conta as extremidades das pernas e dos braços. Na planta, ao contrário, é a raiz

que está no lugar da cabeça, que está situada na parte mais baixa, e as sementes

na parte mais alta.

Finalmente deve ser sempre lembrado que todas as investigações diligentes e

toda coleta de fatos empreendidas pela história natural devem mudar de direção

e voltarem-se para um