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fim contrário àqueles para os quais ora são dirigidas. Até 
agora os homens tiveram grande curiosidade por conhecer a verdade das coisas 
e por explicar de modo apurado as diferenças existentes entre os animais, entre 
as ervas e entre os fósseis. Tais diferenças, na sua maior parte, são como que 
caprichos da natureza e não coisas de alguma utilidade para a ciência. Prestam-
se, certamente, ao divertimento, às vezes servem à práti ca, mas muito pouco ou 
nada para a prospecção da natureza. Por isso toda obra deve voltar-se 
inteiramente para a investigação e a observação das semelhanças e das 
analogias, seja no todo ou nas partes. Estas são, com efeito, as que conferem 
unidade à natureza e dão início à constituição da ciência. 
Mas em tudo é absolutamente necessário observar-se uma grave e severa 
cautela, pois se aceitam como instâncias conformes e proporcionadas apenas as 
que denotam, como antes foi dito, semelhanças físicas, isto é, reais e 
substanciais e fundadas na natureza, e não as meramente casuais e especiosas, 
como as que exibem os escritores de magia natural (homens levianos que não 
mereciam ser mencionados nos assuntos graves de que tratamos), os quais, com 
grande vaidade e ignorância, descrevem imaginárias semelhanças e fictícia 
simpatia entre as coisas, que eles mesmos inventam. 
Mas, deixando isso de lado, acrescentamos que nem mesmo na configuração do 
mundo, nos seus mais amplos espaços, devem-se negligenciar as instâncias 
conformes. A África e a região do Peru, com seu continente que se estende até o 
estreito de Magalhães, apresentam istmos e promontórios semelhantes, o que 
não pode ocorrer por acaso. 
Também o Novo e o Velho Mundo se correspondem no fato de que ambos se 
alargam no sentido setentrional e, ao contrário, nos meridianos são estreitos e 
terminam em ponta. 
Do mesmo modo, notáveis instâncias conformes são os frios intensos que 
reinam na chamada região média do ar, bem como os fogos fortíssimos que 
muitas vezes irrompem das regiões subterrâneas; duas coisas que são limites e 
extremas, ou seja, a natureza do frio que tende para a região do céu, e a natureza 
do calor, que tende para as entranhas da terra. Isso ocorre por antiperístase ou 
repulsão da natureza contrária. 
Finalmente, é digna de nota, nos axiomas das ciências, a conformidade das 
instâncias. Assim o tropo da retórica chamado Praeter Expectatum 164 está de 
acordo com o tropo musical chamado Declinatio Cadentiae.165 Da mesma 
maneira, o postulado matemático de que \u201cos ângulos iguais a um terceiro são 
iguais entre si\u201d é conforme à estrutura lógica do silogismo, que une as coisas 
que concordam ou convêm a um termo médio. É de muita utilidade, em 
numerosas investigações, a sagacidade no descobrir e no indagar as 
conformidades e as semelhanças físicas. 
XXVIII 
Entre as instâncias prerrogativas, colocamos em sétimo lugar as instâncias 
monádicas,166 a que também costumamos chamar de irregulares ou 
heteróclitas,167 tomando o vocábulo dos gramáticos. São aquelas que mostram 
ao concreto os corpos que parecem extravagâncias ou quase inesperados na 
natureza e que não estão de acordo com as outras coisas do mesmo gênero. 
Enquanto as instâncias conformes são semelhantes umas às outras, as instâncias 
monádicas só são semelhantes a si mesmas. O seu uso é idêntico ao das 
instâncias clandestinas, ou seja, servem para ressaltar e unir a natureza, na 
identificação dos gêneros ou naturezas comuns, que depois devem ser 
delimitados pelas diferenças verdadeiras. Não se deve desistir da investigação 
enquanto as propriedades e as qualidades que se encontram nas coisas, e podem 
ser consideradas espantosas na natureza, não fiquem reduzidas ou 
compreendidas segundo alguma forma ou lei certa, de maneira a ficar indicado 
que todo fenômeno irregular e singular depende de alguma forma comum; e que 
o milagre, enfim, seja colocado na dependência de apenas algumas diferenças 
específicas bem determinadas, e num grau e numa proporção raríssimos, e não 
na dependência da própria espécie. Mas atualmente as preocupações dos 
homens não vão mais longe que a determinação de tais coisas, como se fossem 
segredos e significativas manifestações da natureza,168 como se se tratasse de 
fatos sem causa, e assim acabam sendo consideradas como exceções das regras 
gerais. 
São exemplos de instâncias monádicas, entre os astros, o sol e a lua; o magneto, 
entre as pedras; o mercúrio, entre os metais; o elefante, entre os quadrúpedes; a 
sensibilidade erótica, entre as espécies de tato; o faro da caça nos cães, entre os 
gêneros de olfato. Também a letra S entre os gramáticos é tomada como uma 
letra monádica pela facilidade que tem de se combinar, seja com duas outras, 
com outras três consoantes, o que não ocorre com nenhuma outra letra. As 
instâncias deste tipo devem ser levadas em grande conta, porque aguçam e 
estimulam a investigação e corrigem o intelecto depravado pelo hábito e pelas 
ocorrências rotineiras. 
XXIX 
Entre as instâncias prerrogativas, colocamos em oitavo lugar as instâncias 
desviantes,169 ou seja, os erros da natureza, as coisas vagas e monstruosas, nos 
quais a natureza rompe e se desvia do seu curso natural. Os erros da natureza e 
as instâncias monádicas diferem no fato de que os primeiros são milagres dos 
indivíduos enquanto que as segundas são milagres da espécie. Mas o seu uso é 
quase o mesmo, pois retificam o intelecto da experiência habitual e revelam as 
formas comuns. Também aqui não se deve abandonar a investigação até que se 
descubra a causa do desvio. Na verdade, essas causas não alcançam 
propriamente qualquer forma, mas chegam até ao processo latente que conduz à 
forma; e quem conhece com familiaridade os caminhos da natureza facilmente 
observará os seus desvios. Por outro lado, aquele que está familiarizado com os 
desvios mais acuradamente descreverá aqueles caminhos. As instâncias 
monádicas também se diferenciam pelo fato de serem muito mais instrutivas 
para a prática e para a parte operativa. De fato, seria algo muito difícil o 
surgimento de novas espécies; mas a variação das espécies já conhecidas e, com 
isso, a produção de uma infinidade de coisas raras inusitadas, seria tarefa menos 
árdua. Com efeito, fácil é o passo dos milagres da natureza aos milagres da 
arte.170 Uma vez que se surpreenda a natureza em uma variação, e se indique 
claramente a sua razão, será depois fácil, pela arte, repará-la em seu descaminho 
acidental. E não apenas em relação a este erro, mas ainda em relação a outros; 
pois os erros em um determinado passo abrem caminho a erros e desvios por 
toda parte. E aqui não é o caso de se indicar exemplos, dada a sua grande 
abundância: deve-se proceder a uma coleta ou a uma história natural de todos os 
monstros e partos prodigiosos da natureza; de tudo o que na natureza é novo, 
raro e excepcional. Mas a escolha deve ser muito severa para que mereça fé. 
Sobretudo devem considerar-se como suspeitos os milagres que se originam de 
alguma maneira das superstições, como os prodígios relatados por Tito Lívio, 
como também os que se encontram nos escritores de magia natural e de 
alquimia, e pessoas do gênero, que são próceres e amantes das fábulas. Os 
referidos fatos devem ser buscados em histórias sérias e em tradições seguras. 
XXX 
Entre as instâncias prerrogativas, colocamos em nono lugar as instâncias 
limítrofes e as que também costumamos chamar de partícipes.171 São as que 
revelam aquelas espécies de corpos que parecem compostos de duas espécies ou 
de rudimentos entre uma espécie e outra. Estas instâncias podem também ser 
incluídas entre as monádicas ou heteróclitas, pois são raras e extraordinárias no