novum_organum
254 pág.

novum_organum


DisciplinaFilosofia e Ética2.491 materiais75.097 seguidores
Pré-visualização50 páginas
universo. Mas quanto ao seu valor devem ser consideradas à parte e por si 
mesmas. Elas servem para indicar a estrutura e a composição das coisas, e 
sugerem as causas do número e da qualidade das espécies ordinárias no 
universo, e orientam o universo, daquilo que é para o que pode ser. 
Como exemplos, têm-se: o musgo, que fica entre a matéria podre e a planta; 
certos cometas, que ficam entre as estrelas e os meteoros incandescentes; os 
peixes voadores, entre os pássaros e os peixes; os morcegos, entre as aves e 
quadrúpedes; e também 
\u201cO símio, tão repugnante entre os animais 
quanto próximo de nós\u201d;172 
e os partos de animais biformes ou mistos de diversas espécies; e coisas 
semelhantes. 
XXXI 
Entre as instâncias prerrogativas, colocamos em décimo lugar as instâncias de 
potestade ou do cetro 173 (tomando o vocábulo das insígnias de império), as 
quais também costumamos chamar de engenho ou das mãos do homem. São as 
obras mais nobres e perfeitas e quase sempre as últimas de qualquer arte. Pois, 
se se busca acima de tudo fazer com que a natureza atenda às necessidades e às 
comodidades humanas, é natural que se considerem e enumerem as coisas que 
já se encontram em poder do homem como muitas outras províncias já ocupadas 
e antes subjugadas; especialmente as que são mais completas e perfeitas, pois 
destas é mais fácil e próxima a passagem às obras novas e ainda não inventadas. 
De fato, se alguém quiser, pela consideração atenta de tais obras, progredir nas 
suas próprias com acuidade e inventividade, certamente acabará por conseguir 
desviar aquelas até um ponto próximo das suas ou conseguirá aplicá-las ou 
transferi-las para um uso mais nobre. 
E não é tudo. Assim como das obras raras e fora da rotina da natureza o 
intelecto se levanta e eleva-se até a investigação e o descobrimento de formas 
capazes de incluir também aquelas, da mesma forma vê-se ser isso aplicável em 
obras de arte excelentes e dignas de admiração ; e isso é tanto mais verdadeiro 
quando se sabe que o modo de realizar e executar tais milagres da arte é, na 
maior parte dos casos, simples, enquanto que na maior parte das vezes é 
obscuro nos prodígios da natureza. Contudo, em tais casos devem-se tomar 
todos os cuidados para que não deprimam o intelecto e, por assim dizer, 
ponham-no por terra. 
Há perigo de que por meio de tais obras de arte, que são consideradas como os 
cumes e os píncaros da indústria humana, o intelecto humano chegue a ficar 
atônito e atado e como que embaraçado em relação a elas, e isso a tal ponto que 
não se habitue a outras, mas pense que nada mais pode ser feito naquele setor a 
não ser com o uso do mesmo procedimento com que aquelas foram executadas, 
desdenhando, assim, o emprego de uma maior atenção e de uma mais cuidada 
preparação. 
Mas, na verdade, é certo que os caminhos e procedimentos relacionados com as 
obras e as coisas, inventadas e até agora observadas, em sua maior parte são 
muito pobres. Pois todo poder realmente grande depende e emana, de forma 
ordenada, das formas, e nenhuma delas foi até agora descoberta. 
Assim (como já dissemos),174 se se pensa nas máquinas de guerra e nas alhetas 
usadas pelos antigos, ainda que em tal meditação se consuma toda a vida, 
jamais se chegará à descoberta das armas de fogo que atuam por meio da 
pólvora. Do mesmo, modo, quem puser toda a sua atenção e aplicação na 
manufatura da lã e do algodão nunca alcançará, por tais meios, a natureza do 
bicho-da-seda, nem a da seda. 
A esse respeito, pode observar-se que todas as descobertas, dignas de serem 
consideradas como mais nobres, quando bem examinadas, não poderão ser 
tomadas como o resultado do desenvolvimento gradual e da extensão, mas do 
acaso. E nada há que possa substitui-lo, pois o acaso só atua a longos intervalos, 
através dos séculos, e não intervém na descoberta das formas. 
Não é necessário aduzirem-se exemplos particulares dessas instâncias, em vista 
de sua grande quantidade. É suficiente passar em revista e examinar-se 
atentamente todas as artes mecânicas e inclusive as artes liberais, quando 
relacionadas com a prática, e delas se retirar uma coleção de história particular 
das maiores, das mais perfeitas obras de cada uma das artes, ao lado dos 
respectivos procedimentos de produção e execução. 
Em tal coleção não queremos, porém, que o cuidado do investigador se limite a 
recolher unicamente as consideradas obras-primas e os segredos desta ou 
daquela arte, que é o que provoca admiração. Pois a admiração é filha da 
raridade e as coisas raras, mesmo que em seu gênero procedam de naturezas 
vulgares, provocam a imaginação. 
E, ao contrário, as que deveriam realmente provocar admiração, pela 
diversidade que revelam em relação a outras espécies, são pouco notadas e 
tornam-se de uso corrente. As instâncias monádicas da arte devem ser 
observadas com a mesma atenção que as da natureza, de que já falamos antes.175 
Como entre monádicas da natureza colocamos o sol, a lua, o magneto, etc., 
coisas muito conhecidas, mas de natureza quase única, o mesmo deve ser feito 
em relação às monádicas da arte. 
Exemplo de instâncias monádicas da arte é o papel, coisa sobremaneira 
conhecida. Com efeito, se bem observadas, ver-se-á que as matérias artificiais 
são ou simplesmente tecidas, por urdidura com fios retos e transversais, como é 
o caso dos gêneros de seda, de lã ou de linho e coisas semelhantes, ou são 
placas de sucos endurecidos, como o ladrilho, a argila de cerâmica, o esmalte, a 
porcelana e substâncias semelhantes, que, quando são bem unidas, brilham, e 
quando o são menos, brilham, embora igualmente duras. Mas todas essas coisas 
que se fazem de sucos prensados são frágeis e não possuem aderência ou 
tenacidade, O papel, porém, é um corpo tenaz, que pode ser cortado e rasgado, e 
tanto se parece com a pele do animal quanto com as folhas da planta, ou com 
algum produto semelhante da natureza. E não é frágil como o vidro; não é 
tecido como o pano; mas possui fibra e não fios separados, à maneira das 
matérias naturais; entre as matérias artificiais não se encontra nenhuma 
semelhante: bem por isso trata-se de uma instância monádica. Entre as 
substâncias artificiais, devem preferir -se as que mais se aproximam da natureza, 
em caso contrário devem ser preferidas as que a dominam e, com vigor, 
modificam-na. 
Entre as instâncias de engenho ou da mão do homem, não devem ser 
desprezados a prestidigitação e os jogos de destrezas; muitos deles, mesmo 
sendo de uso superficial e como diversão, podem propiciar informações úteis. 
Finalmente, não podem também ser omitidas a s coisas supersticiosas e mágicas 
(no sentido vulgar da palavra). Ainda que se trate de coisas recobertas de uma 
pesada massa de mentiras e de fábulas, mesmo assim devem ser observadas 
para se verificar, mesmo por acaso, alguma operação natural. Referimo-nos a 
fatos como o do ilusionismo ou do fortalecimento da imaginação, ou da 
simpatia das coisas a distância, o da transmissão de um espírito a outro, como 
de um corpo a outro, e fatos semelhantes.176 
XXXII 
De tudo que foi dito antes, fica claro que as cinco instâncias de que tratamos (a 
saber: instâncias conformes, instâncias monádicas, instâncias desviantes, 
instâncias limítrofes e instâncias de potestade) não devem ficar guardadas até 
que se estude uma natureza adequada (como deve ser feito com as outras 
instâncias propostas e com outras que vêm a seguir); ao contrário, deve-se 
imediatamente fazer uma coleção delas como uma espécie de história particular, 
pois servem para digerir as coisas que penetram no intelecto e para corrigir a 
própria constituição do intelecto, que não está infenso à perversão