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Disciplina:Filosofia e Ética2.204 materiais65.570 seguidores
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universo. Mas quanto ao seu valor devem ser consideradas à parte e por si

mesmas. Elas servem para indicar a estrutura e a composição das coisas, e

sugerem as causas do número e da qualidade das espécies ordinárias no

universo, e orientam o universo, daquilo que é para o que pode ser.

Como exemplos, têm-se: o musgo, que fica entre a matéria podre e a planta;

certos cometas, que ficam entre as estrelas e os meteoros incandescentes; os

peixes voadores, entre os pássaros e os peixes; os morcegos, entre as aves e

quadrúpedes; e também

“O símio, tão repugnante entre os animais

quanto próximo de nós”;172

e os partos de animais biformes ou mistos de diversas espécies; e coisas

semelhantes.

XXXI

Entre as instâncias prerrogativas, colocamos em décimo lugar as instâncias de

potestade ou do cetro 173 (tomando o vocábulo das insígnias de império), as

quais também costumamos chamar de engenho ou das mãos do homem. São as

obras mais nobres e perfeitas e quase sempre as últimas de qualquer arte. Pois,

se se busca acima de tudo fazer com que a natureza atenda às necessidades e às

comodidades humanas, é natural que se considerem e enumerem as coisas que

já se encontram em poder do homem como muitas outras províncias já ocupadas

e antes subjugadas; especialmente as que são mais completas e perfeitas, pois

destas é mais fácil e próxima a passagem às obras novas e ainda não inventadas.

De fato, se alguém quiser, pela consideração atenta de tais obras, progredir nas

suas próprias com acuidade e inventividade, certamente acabará por conseguir

desviar aquelas até um ponto próximo das suas ou conseguirá aplicá-las ou

transferi-las para um uso mais nobre.

E não é tudo. Assim como das obras raras e fora da rotina da natureza o

intelecto se levanta e eleva-se até a investigação e o descobrimento de formas

capazes de incluir também aquelas, da mesma forma vê-se ser isso aplicável em

obras de arte excelentes e dignas de admiração ; e isso é tanto mais verdadeiro

quando se sabe que o modo de realizar e executar tais milagres da arte é, na

maior parte dos casos, simples, enquanto que na maior parte das vezes é

obscuro nos prodígios da natureza. Contudo, em tais casos devem-se tomar

todos os cuidados para que não deprimam o intelecto e, por assim dizer,

ponham-no por terra.

Há perigo de que por meio de tais obras de arte, que são consideradas como os

cumes e os píncaros da indústria humana, o intelecto humano chegue a ficar

atônito e atado e como que embaraçado em relação a elas, e isso a tal ponto que

não se habitue a outras, mas pense que nada mais pode ser feito naquele setor a

não ser com o uso do mesmo procedimento com que aquelas foram executadas,

desdenhando, assim, o emprego de uma maior atenção e de uma mais cuidada

preparação.

Mas, na verdade, é certo que os caminhos e procedimentos relacionados com as

obras e as coisas, inventadas e até agora observadas, em sua maior parte são

muito pobres. Pois todo poder realmente grande depende e emana, de forma

ordenada, das formas, e nenhuma delas foi até agora descoberta.

Assim (como já dissemos),174 se se pensa nas máquinas de guerra e nas alhetas

usadas pelos antigos, ainda que em tal meditação se consuma toda a vida,

jamais se chegará à descoberta das armas de fogo que atuam por meio da

pólvora. Do mesmo, modo, quem puser toda a sua atenção e aplicação na

manufatura da lã e do algodão nunca alcançará, por tais meios, a natureza do

bicho-da-seda, nem a da seda.

A esse respeito, pode observar-se que todas as descobertas, dignas de serem

consideradas como mais nobres, quando bem examinadas, não poderão ser

tomadas como o resultado do desenvolvimento gradual e da extensão, mas do

acaso. E nada há que possa substitui-lo, pois o acaso só atua a longos intervalos,

através dos séculos, e não intervém na descoberta das formas.

Não é necessário aduzirem-se exemplos particulares dessas instâncias, em vista

de sua grande quantidade. É suficiente passar em revista e examinar-se

atentamente todas as artes mecânicas e inclusive as artes liberais, quando

relacionadas com a prática, e delas se retirar uma coleção de história particular

das maiores, das mais perfeitas obras de cada uma das artes, ao lado dos

respectivos procedimentos de produção e execução.

Em tal coleção não queremos, porém, que o cuidado do investigador se limite a

recolher unicamente as consideradas obras-primas e os segredos desta ou

daquela arte, que é o que provoca admiração. Pois a admiração é filha da

raridade e as coisas raras, mesmo que em seu gênero procedam de naturezas

vulgares, provocam a imaginação.

E, ao contrário, as que deveriam realmente provocar admiração, pela

diversidade que revelam em relação a outras espécies, são pouco notadas e

tornam-se de uso corrente. As instâncias monádicas da arte devem ser

observadas com a mesma atenção que as da natureza, de que já falamos antes.175

Como entre monádicas da natureza colocamos o sol, a lua, o magneto, etc.,

coisas muito conhecidas, mas de natureza quase única, o mesmo deve ser feito

em relação às monádicas da arte.

Exemplo de instâncias monádicas da arte é o papel, coisa sobremaneira

conhecida. Com efeito, se bem observadas, ver-se-á que as matérias artificiais

são ou simplesmente tecidas, por urdidura com fios retos e transversais, como é

o caso dos gêneros de seda, de lã ou de linho e coisas semelhantes, ou são

placas de sucos endurecidos, como o ladrilho, a argila de cerâmica, o esmalte, a

porcelana e substâncias semelhantes, que, quando são bem unidas, brilham, e

quando o são menos, brilham, embora igualmente duras. Mas todas essas coisas

que se fazem de sucos prensados são frágeis e não possuem aderência ou

tenacidade, O papel, porém, é um corpo tenaz, que pode ser cortado e rasgado, e

tanto se parece com a pele do animal quanto com as folhas da planta, ou com

algum produto semelhante da natureza. E não é frágil como o vidro; não é

tecido como o pano; mas possui fibra e não fios separados, à maneira das

matérias naturais; entre as matérias artificiais não se encontra nenhuma

semelhante: bem por isso trata-se de uma instância monádica. Entre as

substâncias artificiais, devem preferir -se as que mais se aproximam da natureza,

em caso contrário devem ser preferidas as que a dominam e, com vigor,

modificam-na.

Entre as instâncias de engenho ou da mão do homem, não devem ser

desprezados a prestidigitação e os jogos de destrezas; muitos deles, mesmo

sendo de uso superficial e como diversão, podem propiciar informações úteis.

Finalmente, não podem também ser omitidas a s coisas supersticiosas e mágicas

(no sentido vulgar da palavra). Ainda que se trate de coisas recobertas de uma

pesada massa de mentiras e de fábulas, mesmo assim devem ser observadas

para se verificar, mesmo por acaso, alguma operação natural. Referimo-nos a

fatos como o do ilusionismo ou do fortalecimento da imaginação, ou da

simpatia das coisas a distância, o da transmissão de um espírito a outro, como

de um corpo a outro, e fatos semelhantes.176

XXXII

De tudo que foi dito antes, fica claro que as cinco instâncias de que tratamos (a

saber: instâncias conformes, instâncias monádicas, instâncias desviantes,

instâncias limítrofes e instâncias de potestade) não devem ficar guardadas até

que se estude uma natureza adequada (como deve ser feito com as outras

instâncias propostas e com outras que vêm a seguir); ao contrário, deve-se

imediatamente fazer uma coleção delas como uma espécie de história particular,

pois servem para digerir as coisas que penetram no intelecto e para corrigir a

própria constituição do intelecto, que não está infenso à perversão