novum_organum
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Disciplina:Filosofia e Ética2.204 materiais65.570 seguidores
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é muito mais leve e moderado; a segunda é de

que em qualidade é muito mais úmido, especialmente porque chega até nós

através da atmosfera; a terceira (que é a mais importante) é sumamente

desigual: quando se aproxima aumenta, quando se distancia diminui, o que

contribui muito para a geração dos corpos. Aristóteles com razão assegura que a

causa prin cipal das gerações e das corrupções que ocorrem sobre a superfície da

terra reside no curso oblíquo do sol sobre o zodíaco,184 ocasião em que o calor

solar, quer durante a aproximação do dia e da noite, quer durante a sucessão das

estações, resulta sempre estranhamente diverso. Mas Aristóteles não deixa de

desfigurar e corromper essa correta sentença, porque, colocando-se como

árbitro da natureza, como era de seu feitio, indica, de modo autoritário, como

causa da geração a aproximação e como causa da corrupção o distanciamento

do sol. Na verdade, a proximidade e o distanciamento do sol, indiferentemente,

são causas tanto da geração como da corrupção. Pois a diversidade do calor

ajuda tanto a um como a outro processo, enquanto a sua constância serve apenas

para a conservação dos corpos. Mas há ainda uma quarta diferença entre o calor

do sol e o do fogo e que é muito importante: a de que as operações do sol se

desenvolvem durante um lapso bastante longo, enquanto a duração do fogo,

atiçada pela impaciência humana, desenvolve-se e é levada a termo em lapso

breve. Porém, se se procura amainar e reduzir o calor do fogo a um grau mais

moderado e mais leve de intensidade, o que é possível de muitas maneiras,

aspergindo ar úmido para reproduzir a diversidade do calor solar, depois de um

processo lento (não tão lento como o que ocorre devido às operações do sol,

mas mais longo do que o que ocorre comumente pelas operações comuns do

fogo), será então observado o desaparecimento de toda a heterogeneidade entre

os dois gêneros de calor, e será possível imitar a ação do sol e, até mesmo, em

alguns casos, superá-lo com o calor do fogo. Uma outra instância de aliança é a

revivescência, colocada em estado letárgico e quase morta pelo frio, graças à

ação de um débil torpor do fogo. Daí facilmente se retira a conseqüência de que

o fogo tanto serve para restituir a vida aos animais como para sazonar os frutos.

Também é célebre a invenção de Fracastoro,185 da ventos a muito quente, que os

médicos colocam na cabeça dos apopléticos em gravíssimo estado, a qual lhes

devolve a vida, colocando em movimento os espíritos animais, comprimidos e

sufocados pelos tumores e pelas obstruções do cérebro. É exatamente como age

o fogo sobre a água ou sobre o ar. Ainda, às vezes, o calor do fogo abre os ovos,

reproduzindo o próprio calor animal. E há ainda muitos exemplos semelhantes

que não são passíveis de dúvida, de que o calor do fogo em muitas ocasiões

pode ser substituído eficazmente pelo calor dos corpos celestes e pelo calor dos

animais.

Igualmente, tomem-se para investigação as naturezas do movimento e do

repouso. Parece haver uma solene diferença, extraída dos arcanos da filosofia,

de que os corpos naturais ou giram ou seguem em linha reta, ou ficam em

repouso e quietos. Pois pode ocorrer o movimento sem término ou o repouso

sem término, ou movimento para o término. Pois bem, o movimento de rotação

perene parece ser próprio dos corpos celestes, o repouso ou a quietude parecem

pertencer ao globo terrestre; e os outros corpos que são chamados pesados e

leves, colocados fora do seus lugares naturais, movem-se em linha reta no

sentido da massa ou agregado dos corpos semelhantes, isto é, leves, para cima,

em direção ao sol; os pesados, para baixo em direção à terra. E são belas

palavras para serem ditas!186

Uma instância de aliança é um cometa qualquer, mesmo dos mais baixos, que,

apesar de estar muito abaixo do céu, mesmo assim tem movimento circular. E já

foi abandonado o juízo de Aristóteles,187 segundo o qual haveria um

encadeamento de cometas, ligando-os a alguma estrela, o mesmo não

acontecendo com os satélites. Não só as suas razões são improváveis como

também a experiência mostra o percurso errante e irregular que têm os cometas

no céu.

Outra instância semelhante de aliança sobre esse assunto é o movimento do ar,

que nos trópicos (onde os círculos de rotação são mais amplos) gira do oriente

para o ocidente.

E uma outra instância poderia ser o fluxo e o refluxo do mar, se se conseguisse

averiguar que as próprias águas têm um movimento de rotação (ainda que débil

e lento), do oriente para o ocidente; mas de forma tal que haja um movimento

completo duas vezes por dia. Se assim são as coisas, é evidente que o

movimento de rotação não se limita aos corpos celestes, mas que também se

comunica ao ar e a água. Também a propriedade dos corpos leves de tenderem

para o alto é duvidosa. Em relação a isso pode-se tomar uma bolha de água

como instância de aliança. De fato, quando se introduz ar debaixo da água,

aquele sobe rapidamente para a superfície, por um movimento de percussão,

como o chama Demócrito,188 isto é, graças ao próprio golpe da água que desce é

que o ar é expelido, e não por alguma força própria. E, quando chega à

superfície, o ar é impedido pela própria água de sair rapidamente, pois, mesmo

que a resistência da água seja muito débil, ela não suporta com muita facilidade

a interrupção da sua continuidade, por mais forte que seja o impulso do ar no

sentido das regiões superiores.

Tome-se igualmente para a investigação a natureza do peso. A distinção,

comumente aceita, é a de que os corpos densos e sólidos movem-se em direção

ao centro da terra e os corpos leves e tênues em direção aos céus, como seus

lugares naturais . Mas tal opinião (ainda que bem aceita nas escolas), de que os

lugares têm alguma força, é inteiramente estúpida e pueril. Provoca o riso dos

filósofos que afirmam que, se a terra fosse perfurada, os corpos pesados

parariam ao chegar ao centro. Na verdade seria uma grande força do nada, ou de

um ponto matemático, a de atrair para si os corpos, ou o que se queira! Um

corpo só pode ser afetado por um outro corpo e a tendência a subir e a descer

está ou no esquematismo que se move ou no seu consenso ou simpatia com um

outro corpo. E, se se encontrasse um corpo denso e sólido que caísse para a

terra, estaria já refutada essa distinção. Mas se se aceita a opinião de Gilbert 189

de que a força magnética da terra para atrair os corpos graves não vai além da

órbita de sua atividade (pois ela atua sempre até uma certa distância e não

mais), e se se pudesse provar isso com algum exemplo, teríamos por fim uma

instância de aliança nessa matéria. Contudo, até agora não se observou nenhuma

instância certa e evidente a esse respeito. Uma instância próxima é dada pelos

caracteres do céu conhecidos dos navegantes do oceano Atlântico a caminho

das Índias Orientais ou Ocidentais. Repentinamente vertem os céus tanta água

que parece se ter formado, nessas alturas, com antecedência, uma porção de

água, que ai permaneceu suspensa, e que foi desalojada e arremessada por uma

causa violenta, não parecendo dever-se o fenômeno ao movimento natural da

gravidade. Em vista disso pode-se chegar à conclu são de que uma massa de

matéria densa e compacta, colocada a grande distância da terra, continuaria

suspensa, como a própria terra, sem cair, a não ser se provocada. Mas não se

pode ter muita certeza disso. Deste e de outros exemplos pode-se chegar à

conclusão do quanto falta à história na tural de que dispomos, pois somos

obrigados a servirmo-nos de seus exemplos no lugar de instâncias certas.

Igualmente, tome-se como exemplo para investigação o discurso da razão.190