novum_organum
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Parece bem fundada a famosa divisão da racionalidade do homem e da 
instintividade dos animais. Contudo, algumas ações das bestas parecem indicar 
que elas quase que sabem fazer uso do silogismo. Conta-se, por exemplo, que 
um corvo, estando quase morto de sede, devido a grande seca, encontrou água 
na cavidade de um tronco de árvore, e como não pudesse penetrar pela estreita 
abertura, pôde a jogar pedras até que, subindo o nível da água, por fim, pôde 
matar a sede, passando tal fato a provérbio.191 
Da mesma maneira, proceda-se à investigação da natureza do visível. Para não 
comportar objeções, a distinção entre a luz, que é o meio comum que permite a 
visão dos objetos, e a cor, que é o meio subordinado, porque não pode surgir 
sem a luz, da qual parece nada mais ser que uma imagem ou modificação: a 
respeito, constituem instâncias de aliança, de um lado a neve em grande 
quantidade, e de outro, a chama do enxofre. No primeiro caso parece haver uma 
cor primariamente reluzente, no segundo, uma luz em vias de assumir uma cor. 
XXXVI 
Entre as instâncias prerrogativas, colocamos em décimo quarto lugar as 
instâncias cruciais,192 vocábulo tomado às cruzes que se colocam nas estradas 
para indicar as bifurcações. Também as costu mamos chamar de instâncias 
decisivas e judiciais 193 e, em alguns casos, de instâncias de oráculo e 
mandato.194 São elas descritas como se segue. Quando, na investigação de uma 
natureza, o intelecto se acha inseguro e em vias de se decidir entre duas ou mais 
naturezas que se devem atribuir à causa da natureza examinada, em vista do 
concurso freqüente e comum de mais naturezas, em tais situações, as instâncias 
cruciais indicam que o vínculo de uma dessas naturezas com a natureza dada é 
constante e indissolúvel, enquanto o das outras é variável e dissociável. A 
questão é resolvida e é aceita como causa da primeira natureza, enquanto as 
demais são afastadas e repudiadas. Tais instâncias são muito esclarecedoras e 
têm uma significativa autoridade. Muitas vezes, nelas termina o curso da 
investigação ou em muitas outras este é por elas completado. Mas às vezes as 
instâncias crucia is aparecem entre as instâncias antes indicadas; mas, em sua 
maior parte, são buscadas, aplicadas intencionalmente e estabele cidas com 
trabalho árduo e diligente. 
Como exemplo para a investigação, tome-se o fluxo e o refluxo do mar, que se 
repete duas vezes por dia, durante seis horas o fluxo e seis horas o refluxo, com 
intervalos regulares, e com alguma diferença que coincide com o movimento da 
lua. Tem-se aí uma bifurcação ou encruzilhada. 
Esse movimento necessariamente é provocado por uma das seguintes causas: ou 
pelo movimento da água de um lugar para outro, como acontece quando se agita 
uma vasilha, ou pela subida e descida da água a partir do fundo, como acontece 
com a água fervente, que sobe borbulhando e depois se acalma. O problema 
reside em se relacionar o fluxo e o refluxo a uma dessas causas. Se é a primeira 
escolhida, segue-se que enquanto há fluxo de um lado do mar em algum outro, 
ao mesmo tempo, deve haver refluxo. E necessário verificar se isso é 
verdadeiro. Contudo, as observações feitas p or Acosta,195 ao lado das de outros 
observadores cuidadosos, testemunham que o fluxo ocorre ao mesmo tempo 
sobre as costas da Flórida e nas costas do lado oposto, da Espanha e da África, o 
mesmo ocorrendo com o refluxo. Ao contrário, portanto, do que se poderia 
esperar, ou seja, havendo fluxo na costa da Flórida teria de haver refluxo nas 
costas da Espanha e da África. Examinando o assunto mais atentamente, não 
fica rechaçado o movimento de progressão em favor do movimento de elevação. 
De fato, poderia ocorrer que o movimento de progressão provocasse, ao mesmo 
tempo, a inundação das praias opostas de um mesmo leito, como acontece nos 
rios, quando as águas trazidas de outra parte sobem e baixam em ambas as 
margens nas mesmas horas. Mas, assim mesmo, trata-se de um movimento de 
progressão. Desse modo, pode ocorrer que as águas provenientes em grande 
quantidade do oceano Oriental Indico sejam lançadas no leito do oceano Atlân-
tico, provocando a inundação simultânea das praias opostas. O fluxo poderia 
assim se verificar no mar Austral, que na verdade não é menor que o Atlântico, 
mas mais largo e extenso. 
Com isso chegamos, finalmente, a uma instância crucial. Se soubéssemos 
seguramente que, quando ocorre o fluxo nas duas praias opostas da Flórida e da 
Espanha no Atlântico, o mesmo ocorre no Peru e no dorso da China, no mar 
Austral, então, essa seria uma instância decisiva que conduziria ao repúdio do 
movimento progressivo como causa, pois não haveria outro mar ou lugar onde 
pudesse ocorrer o retorno ou o refluxo ao mesmo tempo. Tal fato pode 
facilmente ser verificado através dos habitantes do Panamá e de Lima (onde se 
localiza o pequeno istmo que separa o oceano Atlântico do Austral), que podem 
observar se o fluxo e o refluxo ocorrem ao mesmo tempo em uma e outra face 
do istmo ou não. Esta seria a solução, considerando-se a terra como imóvel; mas 
se a terra gira, poderia ocorrer, devido à desigualdade do movimento de 
velocidade e de aceleração da terra e das águas do mar, que isso provocasse 
violenta agitação das águas, que seriam arremessadas para o alto, produzindo o 
fluxo; e que depois, caindo, abandonadas a si mesmas, ocasionariam o refluxo. 
Mas esse seria assunto para outra investigação. Porém, deve ficar assentado que, 
se ocorre o fluxo em algum lugar, há necessidade de que em algum outro ocorra 
o refluxo ao mesmo tempo. 
Semelhantemente, tome-se como objeto de investigação a natureza do 
movimento que acabamos de supor, ou seja, o movimento marinho de subida e 
de descida das águas, para que se possa (depois de um diligente exame) 
rechaçar o mencionado movimento progressivo. Deparamo-nos, então, com 
uma trifurcação. É necessário que este movimento, graças ao qual as águas 
sobem e descem, sem o concurso do impulso das águas de outro mar, ocorra de 
uma dessas três maneiras seguintes. Que tal quantidade de água surja das 
entranhas da terra e para elas de novo se recolha; ou que não haja qualquer 
quantidade maior de água, mas que as mesmas águas, sem aumentar a sua 
quantidade, dilatem-se ou rarifiquem-se a ponto de ocupar maior espaço e 
dimensão, e depois se contraiam para o volume inicial; ou que não haja aumento 
nem de quantidade e nem de extensão, mas que as mesmas águas (tal como são 
em quantidade, densidade e rarefação) subam e depois desçam em razão de uma 
força magnética que as atrai para o alto e por simpatia. Assim, deixando de lado 
os dois primeiros movimentos, vamos restringir a questão (se assim se desejar) 
a este último movimento, procurando investigar se há a elevação por consenso, 
simpatia ou força magnética.196 Em primeiro lugar, é manifesto que a totalidade 
das águas contidas no vão do mar não se pode elevar de uma vez, por falta de 
algo que a substitua no fundo; se houvesse nas águas uma tendência nesse 
sentido, ela seria reprimida e interrompida pela força de coesão das coisas ou 
(como se diz vulgarmente) para se evitar a produção do vazio. Em 
conseqüência, o que resta é que as águas se elevam de um lado e de outro 
diminuem e abaixam. Donde, também, a necessidade de que a força magnética, 
não podendo exercer -se sobre o todo, atua mais intensamente no centro, de 
maneira a atrair as águas que se elevam e deixam livres e descobertas as praias. 
Chegamos, com isso, a uma instância crucial sobre esse assunto, e que é a 
seguinte: se se descobrir que no refluxo a superfície do mar é mais arqueada e 
redonda, elevando-se as águas no centro do mar e retirando-se das praias; 
enquanto