novum_organum
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que no fluxo a superfície é mais plana e lisa, voltando as águas à sua

posição anterior; então, em virtude dessa instância decisiva, pode ser aceita a

força magnética como causa das marés; caso contrário, deverá ser inteiramente

afastada. Esse experimento não deveria apresentar dificuldade se levado a efeito

nos estreitos, por meio de sonda, e possibilitaria estabelecer se o mar no refluxo

no centro é mais alto, ou seja, mais profundo que no fluxo. É necessário, porém,

observar, se este for o caso, que, ao contrário da opinião corrente, as águas se

elevam no refluxo e se abaixam no fluxo, banhando o litoral.

Da mesma maneira, tome-se para a investigação a natureza do movimento

espontâneo de rotação e procure-se verificar especialmente se o movimento

diurno, pelo qual o sol e as estrelas nascem e põem-se diante dos nossos olhos,

corresponde a um verdadeiro movimento de rotação daqueles corpos celestes,

ou trata-se de um movimento aparente causado pelo movimento da terra.

Instância crucial a respeito poderia ser a seguinte: se se puder constatar sobre o

oceano um movimento de oriente a ocidente, mesmo muito fraco; se tal movi-

mento parece um pouco mais rápido no ar, especialmente entre os trópicos,

onde é mais perceptível pela maior amplitude da volta, se se torna ainda mais

vivo e visível nos cometas mais próximos da terra; se também aparece nos

planetas com intensidade crescente, proporcional à sua distância da terra,

tornando-se muito veloz no céu estrelado; então se estabelecerá como certo que

o movimento diurno é próprio do céu e se o recusará à terra; pois tornar-se-á

claro que o movimento de oriente a ocidente pertence aos céus, na sua

universalidade, e diminui aos poucos à medida que se distancia das alturas do

céu, finalmente se interrompendo com a terra imóvel. 197

Da mesma maneira, tome-se para a investigação o movimento de rotação que é

difundido entre os astrônomos, que vai no sentido contrário ao do movimento

diurno, isto é, de ocidente a oriente; movimento que os astrônomos antigos

atribuíam aos planetas e ao céu estrelado, mas Copérnico e seus seguidores

também o atribuem à terra. Observe -se desde logo se se encontra na natureza

um movimento desse tipo, ou se foi suposto e estabelecido pela comodidade e

pela brevidade dos cálculos científicos, ou seja, para explicar os movimentos

celestes com círculos perfeitos. Contudo, não se pode provar que se encontre,

nas regiões celestes, um verdadeiro movimento desse gênero; nem pelo fato de

que o movimento diurno num planeta não retorna ao mesmo ponto do céu

estrelado, nem com a posição diversa dos pólos do zodíaco em relação ao da

terra, que são os dois caracteres pelos quais esse movimento se nos apresenta. O

primeiro fenômeno pode muito bem ser explicado pelo adiantamento do céu

estrelado que deixa para trás os planetas, o segundo pelas linhas espirais, de

modo a haver desigualdade no retorno dos planetas e a sua inclinação no sentido

dos trópicos pode ser antes modificação do movimento único diurno, que

movimentos recalcitrantes em volta de pólos diversos. E é mais do que certo

que aos sentidos esse movimento se apresenta exatamente na forma que

indicamos, sempre que queremos contemplar um pouco o céu com olhos de

leigo, sem nos dar conta do que dizem os astrônomos e as escolas, que com

freqüência ambicionam contradizer injustamente os sentidos, preferindo o que é

mais obscuro, O sentido do movimento, antes, já representamos como fios de

ferro como em uma máquina.

Instância crucial nesse assunto poderia ser a seguinte: se em alguma história

fidedigna for indicado um cometa, mais alto ou mais baixo, que não tenha

girado de acordo com o movimento diurno (ainda que de forma irregular), mas

que tenha tomado uma direção contrária, então, com certeza, poder-se-á

estabelecer a realidade daquele movimento. Se, contudo, nada for encontrado de

semelhante, será necessário duvidar, e ter-se-á que recorrer a outras instâncias

cruciais a respeito do assunto.

Da mesma maneira, tome-se para investigação a natureza do peso e da

gravidade. De imediato, apresentam-se duas orientações. Ou os corpos pesados

e graves tendem, por natureza, ao centro da terra, isto é, graças ao seu

esquematismo; ou são atraídos e arrastados pela força da própria massa

terrestre, como por efeito de agregação dos corpos de igual natureza e a ela

levados pelo consenso. Se se tomar por verdadeira a segunda hipótese, segue-se

que quanto mais os graves se aproximam da terra tanto maiores são a força e o

ímpeto com que são impelidos para ela; enquanto, quanto mais se distanciam

tanto mais fraca e lenta torna-se essa força, exatamente como acontece na

atração magnética. Por outro lado, a atração deve ocorrer a partir de uma certa

distância, senão o corpo se distanciaria da terra a ponto de fugir ao seu influxo e

permaneceria suspenso como a própria terra, sem nunca cair.198

A respeito desse assunto, poderia ser a seguinte a instância crucial: seja o caso

de dois relógios, um dos quais movido por contrapeso de chumbo, outro movido

por compressão de uma mola de ferro; verifique-se se um é mais veloz que o

outro; coloque-se o primeiro no ápice de algum templo altíssimo, tendo antes

sido regulado com o outro de forma a funcionarem de modo correspondente,

deixando o outro embaixo; isso para se verificar cuidadosamente se o relógio

colocado no alto se move mais devagar em vista da menor força de gravidade.

A experiência deve ser repetida com a colocação do relógio nas profundezas de

alguma mina situada muito abaixo da superfície da terra, para ser verificado se

ele se move mais velozmente que antes, em razão de maior força de atração. Se

se verificar que efetivamente o peso dos corpos diminui com a sua colocação no

alto e que aumenta embaixo, quando mais próximos do centro da terra, então

estará estabelecido que a causa do peso é a atração da massa terrestre.

Da mesma maneira, tome-se para investigação a natureza de polaridade que tem

a agulha de ferro quando tocada pelo magneto. A explicação a respeito de tal

natureza se bifurca na ordem seguinte: é necessário que seja o magneto que

comunique à agulha a sua capacidade de se voltar para o pólo; ou que o ferro

simplesmente seja excitado e predisposto pelo magneto, mas que o movimento

em si mesmo tenha sido causado pela presença da terra; é o que Gilbert afirma e

procura demonstrar com muitos exemplos. Pois para isso tendem as

observações que levou a efeito com muita perspicácia e que foram por ele

colecionadas. Uma é a de que um cravo de ferro que tenha permanecido por

muito tempo na posição norte -sul adquire uma tendência à polaridade, sem ter

sido tocado pelo magneto; como se a própria terra, que pela sua distância atua

muito debilmente (estabelece Gilbert que de fato a superfície ou crosta terrestre

é desprovida de força magnética), apesar disso, fosse capaz de substituir o toque

do magneto da excitação do ferro, pela longa permanência e depois de excitado

ser capaz de dirigi-lo e voltá-lo no sentido do pólo. A outra explicação é a de

que o ferro vermelho ou branco de calor colocado a esfriar na direção dos pólos,

contrai a capacidade de para ele voltar-se sem o contato do magneto; como se as

partes do ferro colocadas em movimento pelo fogo, quando de sua retração à

posição original, isto é, durante o processo de esfriamento, fossem mais aptas e

mais sensíveis à virtude emanada pela terra, permanecendo excitadas. Mas tais

observações, embora cuidadosas, não chegam a provar de fato o que ele

sustenta.

A propósito desse assunto, poderia ser a seguinte a instância crucial: tome-se

um magneto esférico como a terra. Assinalados