novum_organum
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Disciplina:Filosofia e Ética2.204 materiais65.570 seguidores
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os seus pólos, voltem-se-nos,

não a norte e a sul, mas a oriente e a ocidente, mantendo-o nessa posição; sobre

ele coloque-se depois uma agulha de ferro, ainda não tocada pelo magneto,

assim permanecendo durante seis ou sete dias. A agulha, depois de colocada

sobre o magneto, perde contato com os pólos do mundo, tornando seus os do

magneto (sobre isso não há qualquer dúvida); por isso, enquanto permanece

nessa posição, volta-se a oriente e ocidente do mundo; mas se a agulha tirada do

magneto e colocada sobre um eixo voltar-se na direção do eixo da terra

subitamente ou se tomar essa posição pouco a pouco, pode-se dizer, sem

dúvida, que a causa é a presença da terra; mas se a agulha se voltar como antes,

na posição oriente-ocidente, ou perder sua capacidade de apontar para os pólos,

se isso ocorrer, considere-se a causa como duvidosa e prossiga-se na

investigação.

Da mesma maneira, tome-se para investigação a substância corpórea que forma

a lua, a fim de se verificar se se trata de uma substância tênue, feita de fogo ou

de ar, como muitos dentre os primeiros filósofos acreditaram; ou se é sólida,

consistente, como Gilbert e muitos modernos e não poucos dentre os antigos

asseveram. As razões desta última opinião residem sobretudo no argumento da

reflexão dos raios solares por parte da lua, porque não parece possível uma tal

reflexão a não ser nos sólidos. A respeito desse assunto, poderiam ser (se é que

as há) instâncias cruciais todas as que demonstram a possibilidade de haver

reflexão em um corpo tênue como a chama, mas com espessura suficiente. Entre

outras, uma das causas do crepúsculo é a reflexão dos raios do sol na região

superior do ar. Em tardes calmas pode-se, às vezes, observar os raios solares

refletidos nas bordas das nuvens radiosas, de resplendor não menor, mas até

mais brilhante e mais majestoso que o proveniente do corpo da lua. E, contudo,

não se tem prova de que tais nuvens encerrem um corpo denso de água. Vê-se

também que o lume da vela, à noite, reflete -se na escuridão de fora da janela,

como se se tratasse de um corpo sólido. Poderia ser tentado o experimento de se

fazerem passar os raios do sol por um furo sobre uma chama azulada. É sabido

que os raios solares, incidindo a céu aberto sobre uma chama não muito clara,

ofuscam-na a ponto de parecer mais uma fumaça branca que uma chama. Essas

são as instâncias cruciais que ora ocorrem a propósito do assunto em questão,

mas certamente se podem encontrar outras e melhores. Mas, em qualquer caso,

deve-se considerar como estabelecido que apenas a chama de uma determinada

espessura é capaz de refletir os raios; em caso contrário, eles se desvanecem na

transparência. E tenha-se como certo que um raio luminoso, caindo sobre um

corpo plano, ou é refle tido para trás ou é recebido e enviado para outro lado.

Da mesma maneira, tome-se para investigação a natureza dos corpos projetados

ao ar, como dardos, flechas e balas. Os escolás ticos, segundo o seu costume,

tratam esse movimento com muita negligência, satisfazendo-se com dizer que é

um movimento violento, mas distinto daquele que chamam de movimento

natural. Descartam o problema da causa ou do primeiro impulso dado nesse

movimento refugiando-se no axioma que diz que “dois corpos não podem estar

no mesmo lugar sem se penetrarem”. E não se preocupam com o modo de se

desenvolver desse movimento. E, a propósito dessa questão, tem-se a bifurcação

seguinte: esse movimento, ou é produzido pelo ar que atua sobre o corpo

arremessado, como a correnteza sobre o casco da nave ou vento sobre a palha;

ou é produzido pelas partes do corpo, que, não podendo agüentar a violenta

pressão, lançam-se sucessivamente à frente para dela se libertarem. Com a

primeira solução está Fracastoro 199 e quase todos os outros que estudaram a

fundo o assunto. Não há dúvida de que o ar toma parte, e muito, nesse

movimento, mas há infinitos experimentos que confirmam a segunda como

verdadeira causa. Entre outras, poderia se constituir na instância crucial do

assunto a seguinte: uma lâmina ou um arame de ferro um pouco resistente, ou

uma pena de ave, encurvados, por pressão do dedo polegar e do indicador, que

em tal circunstância saltam bruscamente. E claro que esse fenômeno não r esulta

do ar que se reúne atrás do corpo em movimento, porque o ponto preciso em

que o movimento se manifesta é o centro e não a extremidade.

Da mesma maneira, tome-se para investigação a natureza do movimento súbito

e violento de expansão, que é provocado pela pólvora, graças à qual massas tão

grandes são levantadas e pesos tão consideráveis são arremessados como se

observa nas grandes minas e nos canhões. Eis a bifurcação a respeito dessa

natureza: o movimento ou é produzido por mero desejo do corpo em e xpandir-

se, logo que pega fogo ou é produzido pelo desejo misto do espírito cru 200 em

fugir rapidamente do fogo, pelo qual é circundado, e por isso escapa

violentamente como de um cárcere. Os escolásticos e a opinião vulgar só

conhecem a primeira causa e acreditam estar fazendo boa filosofia dizendo que

a chama eclode em virtude da própria forma de seu ele mento, na sua

necessidade de se expandir para ocupar um espaço maior do que o que ocupava

o corpo quando se encontrava sob a forma de pólvora, e que daí advém aquele

movimento. Não pensam, no caso, que se isso fosse verdadeiro poder-se-ia

impedir a chama com corpo que tivesse uma massa capaz de comprimi-la e

sufocá-la, e, assim sendo, não haveria a necessidade do que falamos. Estão cor-

retos ao pensar que se se produz a chama é necessário que se produza uma

expansão e que daí segue-se uma explosão ou a remoção do corpo que se opõe.

Mas tal necessidade será evitada se a massa do corpo pesado chegar ao ponto de

sufocar a chama antes que se produza. Observa-se que a chama, especialmente

no seu início, é débil e leve, e requer uma cavidade na qual se possa exercitar e

ganhar forças. Com efeito, não se pode atribuir à chama, tomada isoladamente,

qualquer força extraordinária. Mas é verdade que as chamas explosivas, ou seja,

os ventos inflamados, são produzidas pelo contraste de dois corpos que possuem

naturezas contrárias, completamente inflamável um, como é o caso do enxofre;

e não inflamável outro, como é o caso do nitro; daí se produzindo um violento

contraste (uma vez que o terceiro corpo, isto é, o carvão de sálcio, não tem outra

função que a de amalgamar e juntar os outros dois corpos), tendendo o enxofre,

a todo custo, a se inflamar, e procurando subitamente o espírito do nitro fugir

com toda força e, ao mesmo tempo, se dilatando (como o fazem também o ar, a

água e todas as demais substâncias cruas que se dilatam pelo calor), e nessa

fuga, unida à erupção, alimenta -se de todos os lados a chama do enxofre, como

por meio de foles ocultos.

De dois tipos podem ser as instâncias cruciais a respeito. Uma é oferecida pelos

corpos que são inflamáveis ao máximo, como o enxofre, a cânfora, a nafta e

semelhantes, como também os seus compostos. São mais aptos e mais fáceis de

se inflamarem que a pólvora, se não são impedidos; o que demonstra que a

simples tendência para se inflamar não é suficiente para a produção daquele

espantoso efeito. A segunda é oferecida pelos corpos infensos à chama e que a

incomodam, como é o caso de todos os sais. Estes, jogados no fogo, emitem um

espírito aquoso com peculiar ruído antes de se inflamarem; o mesmo, mas

menos intensamente, acontece com as folhas, ainda não completamente secas,

que se liberam da parte aquosa antes de pega rem fogo. Esse fenômeno observa-

se ainda no mercúrio, que não de todo mal é chamado de água mineral. O

mercúrio, realmente,