novum_organum
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os seus pólos, voltem-se-nos, 
não a norte e a sul, mas a oriente e a ocidente, mantendo-o nessa posição; sobre 
ele coloque-se depois uma agulha de ferro, ainda não tocada pelo magneto, 
assim permanecendo durante seis ou sete dias. A agulha, depois de colocada 
sobre o magneto, perde contato com os pólos do mundo, tornando seus os do 
magneto (sobre isso não há qualquer dúvida); por isso, enquanto permanece 
nessa posição, volta-se a oriente e ocidente do mundo; mas se a agulha tirada do 
magneto e colocada sobre um eixo voltar-se na direção do eixo da terra 
subitamente ou se tomar essa posição pouco a pouco, pode-se dizer, sem 
dúvida, que a causa é a presença da terra; mas se a agulha se voltar como antes, 
na posição oriente-ocidente, ou perder sua capacidade de apontar para os pólos, 
se isso ocorrer, considere-se a causa como duvidosa e prossiga-se na 
investigação. 
Da mesma maneira, tome-se para investigação a substância corpórea que forma 
a lua, a fim de se verificar se se trata de uma substância tênue, feita de fogo ou 
de ar, como muitos dentre os primeiros filósofos acreditaram; ou se é sólida, 
consistente, como Gilbert e muitos modernos e não poucos dentre os antigos 
asseveram. As razões desta última opinião residem sobretudo no argumento da 
reflexão dos raios solares por parte da lua, porque não parece possível uma tal 
reflexão a não ser nos sólidos. A respeito desse assunto, poderiam ser (se é que 
as há) instâncias cruciais todas as que demonstram a possibilidade de haver 
reflexão em um corpo tênue como a chama, mas com espessura suficiente. Entre 
outras, uma das causas do crepúsculo é a reflexão dos raios do sol na região 
superior do ar. Em tardes calmas pode-se, às vezes, observar os raios solares 
refletidos nas bordas das nuvens radiosas, de resplendor não menor, mas até 
mais brilhante e mais majestoso que o proveniente do corpo da lua. E, contudo, 
não se tem prova de que tais nuvens encerrem um corpo denso de água. Vê-se 
também que o lume da vela, à noite, reflete -se na escuridão de fora da janela, 
como se se tratasse de um corpo sólido. Poderia ser tentado o experimento de se 
fazerem passar os raios do sol por um furo sobre uma chama azulada. É sabido 
que os raios solares, incidindo a céu aberto sobre uma chama não muito clara, 
ofuscam-na a ponto de parecer mais uma fumaça branca que uma chama. Essas 
são as instâncias cruciais que ora ocorrem a propósito do assunto em questão, 
mas certamente se podem encontrar outras e melhores. Mas, em qualquer caso, 
deve-se considerar como estabelecido que apenas a chama de uma determinada 
espessura é capaz de refletir os raios; em caso contrário, eles se desvanecem na 
transparência. E tenha-se como certo que um raio luminoso, caindo sobre um 
corpo plano, ou é refle tido para trás ou é recebido e enviado para outro lado. 
Da mesma maneira, tome-se para investigação a natureza dos corpos projetados 
ao ar, como dardos, flechas e balas. Os escolás ticos, segundo o seu costume, 
tratam esse movimento com muita negligência, satisfazendo-se com dizer que é 
um movimento violento, mas distinto daquele que chamam de movimento 
natural. Descartam o problema da causa ou do primeiro impulso dado nesse 
movimento refugiando-se no axioma que diz que \u201cdois corpos não podem estar 
no mesmo lugar sem se penetrarem\u201d. E não se preocupam com o modo de se 
desenvolver desse movimento. E, a propósito dessa questão, tem-se a bifurcação 
seguinte: esse movimento, ou é produzido pelo ar que atua sobre o corpo 
arremessado, como a correnteza sobre o casco da nave ou vento sobre a palha; 
ou é produzido pelas partes do corpo, que, não podendo agüentar a violenta 
pressão, lançam-se sucessivamente à frente para dela se libertarem. Com a 
primeira solução está Fracastoro 199 e quase todos os outros que estudaram a 
fundo o assunto. Não há dúvida de que o ar toma parte, e muito, nesse 
movimento, mas há infinitos experimentos que confirmam a segunda como 
verdadeira causa. Entre outras, poderia se constituir na instância crucial do 
assunto a seguinte: uma lâmina ou um arame de ferro um pouco resistente, ou 
uma pena de ave, encurvados, por pressão do dedo polegar e do indicador, que 
em tal circunstância saltam bruscamente. E claro que esse fenômeno não r esulta 
do ar que se reúne atrás do corpo em movimento, porque o ponto preciso em 
que o movimento se manifesta é o centro e não a extremidade. 
Da mesma maneira, tome-se para investigação a natureza do movimento súbito 
e violento de expansão, que é provocado pela pólvora, graças à qual massas tão 
grandes são levantadas e pesos tão consideráveis são arremessados como se 
observa nas grandes minas e nos canhões. Eis a bifurcação a respeito dessa 
natureza: o movimento ou é produzido por mero desejo do corpo em e xpandir-
se, logo que pega fogo ou é produzido pelo desejo misto do espírito cru 200 em 
fugir rapidamente do fogo, pelo qual é circundado, e por isso escapa 
violentamente como de um cárcere. Os escolásticos e a opinião vulgar só 
conhecem a primeira causa e acreditam estar fazendo boa filosofia dizendo que 
a chama eclode em virtude da própria forma de seu ele mento, na sua 
necessidade de se expandir para ocupar um espaço maior do que o que ocupava 
o corpo quando se encontrava sob a forma de pólvora, e que daí advém aquele 
movimento. Não pensam, no caso, que se isso fosse verdadeiro poder-se-ia 
impedir a chama com corpo que tivesse uma massa capaz de comprimi-la e 
sufocá-la, e, assim sendo, não haveria a necessidade do que falamos. Estão cor-
retos ao pensar que se se produz a chama é necessário que se produza uma 
expansão e que daí segue-se uma explosão ou a remoção do corpo que se opõe. 
Mas tal necessidade será evitada se a massa do corpo pesado chegar ao ponto de 
sufocar a chama antes que se produza. Observa-se que a chama, especialmente 
no seu início, é débil e leve, e requer uma cavidade na qual se possa exercitar e 
ganhar forças. Com efeito, não se pode atribuir à chama, tomada isoladamente, 
qualquer força extraordinária. Mas é verdade que as chamas explosivas, ou seja, 
os ventos inflamados, são produzidas pelo contraste de dois corpos que possuem 
naturezas contrárias, completamente inflamável um, como é o caso do enxofre; 
e não inflamável outro, como é o caso do nitro; daí se produzindo um violento 
contraste (uma vez que o terceiro corpo, isto é, o carvão de sálcio, não tem outra 
função que a de amalgamar e juntar os outros dois corpos), tendendo o enxofre, 
a todo custo, a se inflamar, e procurando subitamente o espírito do nitro fugir 
com toda força e, ao mesmo tempo, se dilatando (como o fazem também o ar, a 
água e todas as demais substâncias cruas que se dilatam pelo calor), e nessa 
fuga, unida à erupção, alimenta -se de todos os lados a chama do enxofre, como 
por meio de foles ocultos. 
De dois tipos podem ser as instâncias cruciais a respeito. Uma é oferecida pelos 
corpos que são inflamáveis ao máximo, como o enxofre, a cânfora, a nafta e 
semelhantes, como também os seus compostos. São mais aptos e mais fáceis de 
se inflamarem que a pólvora, se não são impedidos; o que demonstra que a 
simples tendência para se inflamar não é suficiente para a produção daquele 
espantoso efeito. A segunda é oferecida pelos corpos infensos à chama e que a 
incomodam, como é o caso de todos os sais. Estes, jogados no fogo, emitem um 
espírito aquoso com peculiar ruído antes de se inflamarem; o mesmo, mas 
menos intensamente, acontece com as folhas, ainda não completamente secas, 
que se liberam da parte aquosa antes de pega rem fogo. Esse fenômeno observa-
se ainda no mercúrio, que não de todo mal é chamado de água mineral. O 
mercúrio, realmente,