novum_organum
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sem se inflamar só com a explosão e a expansão, quase se 
iguala à pólvora; e a ela misturado diz -se que multiplica a sua violência. 
Da mesma maneira, tome-se como objeto de investigação a natureza transitória 
da chama e a sua extinção momentânea. Com efeito, parece a nós, que a 
natureza da chama não se fixa, nem adquire consistência, e que se renova a cada 
instância e continuamente se vai extinguindo. E, de fato, manifesto que, nas 
chamas que persistem e duram, tal duração não é a continuação ininterrupta de 
uma mesma determinada chama, mas sucessão de chamas novas, que se engen-
dram em série e, na verdade, não permanecem idênticas em nenhum momento; 
como se depreende do fato de sua súbita extinção, se se corta o sebo ou o 
alimento. E, a respeito, defrontamo-nos com a seguinte bifurcação: ou a duração 
momentânea deriva da interrupção da causa que engendra a chama, como 
acontece com a luz, os sons, os movimentos tidos por violentos; ou a chama é 
levada a persistir pela sua natureza, mas é afetada e destruída pelas naturezas 
contrárias. 
A tal respeito a instância crucial poderia ser a que segue. Nos grandes incêndios 
notam-se chamas altas; tanto mais altas quanto maior a área incendiada. A causa 
da extinção parece situada nas bordas dos lados, onde a chama parece reprimida 
e combatida pelo ar. Mas as chamas do meio, não circundadas pelo ar mas 
unicamente por outras chamas, permanecem idênticas e não se extinguem, até 
que o ar se acerque e acabe por ocupar, pouco a pouco, toda a área. Isso faz com 
que a chama se assemelhe a uma pirâmide, mais ampla na base, onde está o 
alimento, e mais estreita no vértice, onde o ar a combate. A fumaça, ao 
contrário, é mais estreita na base, aumentando depois, formando uma espécie de 
pirâmide invertida; isso porque o ar acolhe o fumo e comprime a chama. 
Ninguém pode supor que a chama acesa seja feita de ar, uma vez que são dois 
corpos, sem dúvida, heterogêneos. 
Uma instância crucial mais acurada poderia ainda ser a da chama de duas cores. 
Coloque-se no fundo de um recipiente de metal uma pequena vela acesa; 
coloque-se o recipiente em uma vasilha e jogue-se em volta espírito de vinho 
em quantidade suficiente para alcançar a borda da vasilha; a seguir acenda-se o 
espírito de vinho. A sua chama será mais azulada e a da vela mais amarelada 
(como as chamas, ao contrário dos líquidos, não se fundem rapidamente, será 
fácil observar a diferença das cores). Nota-se, então, se a chama da vela 
permanece em forma piramidal ou tende mais para a forma de um globo, desde 
que não haja nada que a destrua ou constranja. Se assume a forma de um globo, 
é necessário tomar-se por certo que ainda dura a mesma chama, mesmo inserida 
na outra e dessa maneira protegida de força contrária do ar. 
E aqui deixamos as instâncias cruciais. Foram tratadas um pouco longamente 
para, aos poucos, habituar a mente humana a julgar por seus próprios meios e 
segundo experimentos lucíferos, e não a partir de razões prováveis.201 
XXXVII 
Entre as instâncias prerrogativas, colocamos em décimo quinto lugar as 
instâncias de divórcio,202 que indicam a separabilidade de naturezas que em 
grande parte se encontram juntas. Diferem das instâncias que se ligam às 
instâncias de acompanhamento 203 pelo fato de que estas indicam a 
separabilidade de uma natureza de um corpo concreto, que parece familiar, ao 
passo que as de divórcio indicam a possibilidade de separação de uma natureza 
de outra natureza. Diferem também das instâncias cruciais porque nada 
determinam, apenas se limitam a indicar a separabilidade de uma natureza de 
outra. Servem para a indicação de formas falsas e para refutar especulações 
levianas, nascidas de coisas óbvias; constituem uma espécie de peso ou lastro 
para o intelecto.204 
Por exemplo, tomem-se para a investigação as quatro naturezas que Telésio 
considera como companhias indivisíveis (ou inseparáveis)205 e da mesma 
morada, que são as do calor, da luz, da tenuidade e da mobilidade ou da 
prontidão para o movimento. Encontram-se entre elas muitas instâncias de 
divórcio, tais como: o ar é tênue e móvel, mas não quente, nem luminoso; a lua 
fornece luz, mas não calor; a água fervente é quente, mas não fornece luz; a 
agulha de ferro, presa a um eixo, é ágil e móvel, embora se trate de um corpo 
frio, denso e opaco, etc. 
Da mesma maneira, tomem-se para investigação a natureza corpórea e ação 
natural. 206 Parece não poderem ser encontradas, a não ser subsistindo em um 
corpo natural. Mas há entre elas um grande número de instâncias de divórcio. 
Por exemplo , a ação magnética, pela qual o ferro é atraído pelo magneto e os 
corpos pesados pelo centro da terra. Podem-se também acrescentar algumas 
outras operações a distância. Tal ação atua no tempo, em momentos sucessivos, 
e em um instante, no espaço, por graus e distâncias. Há, pois, um momento no 
tempo e um intervalo no espaço no qual essa virtude ou ação permanece em 
suspenso entre os dois corpos que provocam o movimento. O problema fica, 
assim, colocado nos seguintes termos: os dois corpos que são os termos do 
movimento dispõem ou modificam os corpos intermediários de modo a passar a 
virtude, insensivelmente, de um termo a outro, por uma série de contatos reais, 
não deixando de subsistir, nesse entretempo, no corpo intermediário, ou nada se 
passa entre os dois corpos além da troca da sua virtude através do espaço. Em 
todo caso, através dos raios luminosos, dos sons e através de outras virtudes que 
atuam a distância, é possível que os corpos intermediários sejam dispostos e 
alterados, tanto mais que se exige um meio adequado para levar a cabo a 
operação, como vetor da força atuante. Mas a virtude magnética, ou de união 
dos corpos, admite indiferentemente qualquer corpo intermediário e a força não 
é por ele impedida, qualquer que seja a sua natureza. Se, pois, essa virtude ou 
ação não tem necessidade de nenhum corpo intermediário, segue-se que se trata 
de uma virtude ou ação natural que, por algum tempo e em algum lugar, 
subsiste sem corpo, uma vez que não subsiste num dos corpos terminais nem 
nos intermediários. Em vista disso, a ação magnética pode ser considerada uma 
instância de divórcio entre a natureza corpórea e a ação natural. Pode-se 
acrescentar como corolário ou vantagem, a não ser desprezado, o seguinte: 
mesmo quem faz filosofia segundo os sentidos 207 pode encontrar a prova da 
existência de entes ou substâncias separadas e incorpóreas. Com efeito, se uma 
virtude ou ação natural, que emana de um corpo, pode subsistir, por algum 
tempo, em algum lugar, separada do corpo, pode ser também que na sua origem 
possa emanar de uma substância incorpórea. E isso contra a opinião de que 
compete à natureza corpórea não apenas a conservação e a transmissão da ação 
natural mas também a sua estimulação e produção. 
XXXVIII 
Seguem-se cinco ordens de instâncias a que costumamos chamar, com o mesmo 
termo genérico, de instâncias de lâmpada ou de primeira informação,208 pelo 
socorro que prestam aos sentidos. Toda interpretação da natureza começa pelos 
sentidos e, das percepções dos sentidos e por uma via direta, firme e segura 
alcança as percepções do intelecto, que constituem as noções verdadeiras e 
axiomas. Em vista disso, quanto mais copiosas e exatas forem as representações 
e provisões dos sentidos necessariamente tanto mais felizes e fáceis serão os 
resultados finais. 
Dentre os cinco tipos de instâncias de lâmpada, o primeiro revigora, amplia e 
retifica as ações imediatas dos sentidos; o segundo torna sensível o que não é 
diretamente sensível; o terceiro indica os processos continuados ou séries de 
coisas e de movimentos que (em