novum_organum
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Disciplina:Filosofia e Ética2.204 materiais65.570 seguidores
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sem se inflamar só com a explosão e a expansão, quase se

iguala à pólvora; e a ela misturado diz -se que multiplica a sua violência.

Da mesma maneira, tome-se como objeto de investigação a natureza transitória

da chama e a sua extinção momentânea. Com efeito, parece a nós, que a

natureza da chama não se fixa, nem adquire consistência, e que se renova a cada

instância e continuamente se vai extinguindo. E, de fato, manifesto que, nas

chamas que persistem e duram, tal duração não é a continuação ininterrupta de

uma mesma determinada chama, mas sucessão de chamas novas, que se engen-

dram em série e, na verdade, não permanecem idênticas em nenhum momento;

como se depreende do fato de sua súbita extinção, se se corta o sebo ou o

alimento. E, a respeito, defrontamo-nos com a seguinte bifurcação: ou a duração

momentânea deriva da interrupção da causa que engendra a chama, como

acontece com a luz, os sons, os movimentos tidos por violentos; ou a chama é

levada a persistir pela sua natureza, mas é afetada e destruída pelas naturezas

contrárias.

A tal respeito a instância crucial poderia ser a que segue. Nos grandes incêndios

notam-se chamas altas; tanto mais altas quanto maior a área incendiada. A causa

da extinção parece situada nas bordas dos lados, onde a chama parece reprimida

e combatida pelo ar. Mas as chamas do meio, não circundadas pelo ar mas

unicamente por outras chamas, permanecem idênticas e não se extinguem, até

que o ar se acerque e acabe por ocupar, pouco a pouco, toda a área. Isso faz com

que a chama se assemelhe a uma pirâmide, mais ampla na base, onde está o

alimento, e mais estreita no vértice, onde o ar a combate. A fumaça, ao

contrário, é mais estreita na base, aumentando depois, formando uma espécie de

pirâmide invertida; isso porque o ar acolhe o fumo e comprime a chama.

Ninguém pode supor que a chama acesa seja feita de ar, uma vez que são dois

corpos, sem dúvida, heterogêneos.

Uma instância crucial mais acurada poderia ainda ser a da chama de duas cores.

Coloque-se no fundo de um recipiente de metal uma pequena vela acesa;

coloque-se o recipiente em uma vasilha e jogue-se em volta espírito de vinho

em quantidade suficiente para alcançar a borda da vasilha; a seguir acenda-se o

espírito de vinho. A sua chama será mais azulada e a da vela mais amarelada

(como as chamas, ao contrário dos líquidos, não se fundem rapidamente, será

fácil observar a diferença das cores). Nota-se, então, se a chama da vela

permanece em forma piramidal ou tende mais para a forma de um globo, desde

que não haja nada que a destrua ou constranja. Se assume a forma de um globo,

é necessário tomar-se por certo que ainda dura a mesma chama, mesmo inserida

na outra e dessa maneira protegida de força contrária do ar.

E aqui deixamos as instâncias cruciais. Foram tratadas um pouco longamente

para, aos poucos, habituar a mente humana a julgar por seus próprios meios e

segundo experimentos lucíferos, e não a partir de razões prováveis.201

XXXVII

Entre as instâncias prerrogativas, colocamos em décimo quinto lugar as

instâncias de divórcio,202 que indicam a separabilidade de naturezas que em

grande parte se encontram juntas. Diferem das instâncias que se ligam às

instâncias de acompanhamento 203 pelo fato de que estas indicam a

separabilidade de uma natureza de um corpo concreto, que parece familiar, ao

passo que as de divórcio indicam a possibilidade de separação de uma natureza

de outra natureza. Diferem também das instâncias cruciais porque nada

determinam, apenas se limitam a indicar a separabilidade de uma natureza de

outra. Servem para a indicação de formas falsas e para refutar especulações

levianas, nascidas de coisas óbvias; constituem uma espécie de peso ou lastro

para o intelecto.204

Por exemplo, tomem-se para a investigação as quatro naturezas que Telésio

considera como companhias indivisíveis (ou inseparáveis)205 e da mesma

morada, que são as do calor, da luz, da tenuidade e da mobilidade ou da

prontidão para o movimento. Encontram-se entre elas muitas instâncias de

divórcio, tais como: o ar é tênue e móvel, mas não quente, nem luminoso; a lua

fornece luz, mas não calor; a água fervente é quente, mas não fornece luz; a

agulha de ferro, presa a um eixo, é ágil e móvel, embora se trate de um corpo

frio, denso e opaco, etc.

Da mesma maneira, tomem-se para investigação a natureza corpórea e ação

natural. 206 Parece não poderem ser encontradas, a não ser subsistindo em um

corpo natural. Mas há entre elas um grande número de instâncias de divórcio.

Por exemplo , a ação magnética, pela qual o ferro é atraído pelo magneto e os

corpos pesados pelo centro da terra. Podem-se também acrescentar algumas

outras operações a distância. Tal ação atua no tempo, em momentos sucessivos,

e em um instante, no espaço, por graus e distâncias. Há, pois, um momento no

tempo e um intervalo no espaço no qual essa virtude ou ação permanece em

suspenso entre os dois corpos que provocam o movimento. O problema fica,

assim, colocado nos seguintes termos: os dois corpos que são os termos do

movimento dispõem ou modificam os corpos intermediários de modo a passar a

virtude, insensivelmente, de um termo a outro, por uma série de contatos reais,

não deixando de subsistir, nesse entretempo, no corpo intermediário, ou nada se

passa entre os dois corpos além da troca da sua virtude através do espaço. Em

todo caso, através dos raios luminosos, dos sons e através de outras virtudes que

atuam a distância, é possível que os corpos intermediários sejam dispostos e

alterados, tanto mais que se exige um meio adequado para levar a cabo a

operação, como vetor da força atuante. Mas a virtude magnética, ou de união

dos corpos, admite indiferentemente qualquer corpo intermediário e a força não

é por ele impedida, qualquer que seja a sua natureza. Se, pois, essa virtude ou

ação não tem necessidade de nenhum corpo intermediário, segue-se que se trata

de uma virtude ou ação natural que, por algum tempo e em algum lugar,

subsiste sem corpo, uma vez que não subsiste num dos corpos terminais nem

nos intermediários. Em vista disso, a ação magnética pode ser considerada uma

instância de divórcio entre a natureza corpórea e a ação natural. Pode-se

acrescentar como corolário ou vantagem, a não ser desprezado, o seguinte:

mesmo quem faz filosofia segundo os sentidos 207 pode encontrar a prova da

existência de entes ou substâncias separadas e incorpóreas. Com efeito, se uma

virtude ou ação natural, que emana de um corpo, pode subsistir, por algum

tempo, em algum lugar, separada do corpo, pode ser também que na sua origem

possa emanar de uma substância incorpórea. E isso contra a opinião de que

compete à natureza corpórea não apenas a conservação e a transmissão da ação

natural mas também a sua estimulação e produção.

XXXVIII

Seguem-se cinco ordens de instâncias a que costumamos chamar, com o mesmo

termo genérico, de instâncias de lâmpada ou de primeira informação,208 pelo

socorro que prestam aos sentidos. Toda interpretação da natureza começa pelos

sentidos e, das percepções dos sentidos e por uma via direta, firme e segura

alcança as percepções do intelecto, que constituem as noções verdadeiras e

axiomas. Em vista disso, quanto mais copiosas e exatas forem as representações

e provisões dos sentidos necessariamente tanto mais felizes e fáceis serão os

resultados finais.

Dentre os cinco tipos de instâncias de lâmpada, o primeiro revigora, amplia e

retifica as ações imediatas dos sentidos; o segundo torna sensível o que não é

diretamente sensível; o terceiro indica os processos continuados ou séries de

coisas e de movimentos que (em