novum_organum
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Disciplina:Filosofia e Ética2.204 materiais65.570 seguidores
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os cálculos. Depois disso, desamarre-se a bexiga e pese-se o

espírito restante na ampola; compare-se o seu peso atual com o inicial, compu-

tando-se quanto se transformou em vapor ou se tornou pneumático. Compare-se

também o volume da substância, quando em estado de espírito do vinho, com o

espaço que ocupou na forma de vapor. Dessa maneira, chegar-se-á ao resultado

de que a substância transformada adquiriu um volume e ocupou um espaço cem

vezes maior que o volu me inicial.

Da mesma maneira, tome-se para investigação a natureza do calor ou do frio;

mas em grau bem baixo, a ponto de não serem percebidos pelos sentidos: serão

tornados sensíveis por meio do termômetro, a que antes já nos referimos, O

calor e o frio, por si mesmos, não são perceptíveis pelo tato; mas o calor

expande o ar e o frio o contrai. E a expansão e a contração, mesmo não sendo

perceptíveis pela vista, podem ser observadas na depressão e no levantamento

da água produzidos respectivamente pela expansão ou pela contração do ar. Só

assim se torna visível, nem antes, nem em outra forma.

Da mesma maneira, tome-se para investigação a natureza da mistura dos corpos;

a saber, quanto de água, de óleo, de espírito, de cinza, e de sais e outras

substâncias semelhantes; ou, em particular, investigue-se quanto de manteiga

tem no leite, quanto de coágulo, quanto de cera, etc. Tudo isso pode ser tornado

sensível por meio de separações competentes e artificiais. Mas a natureza do

espírito, por si mesma, não pode perceber diretamente, mas tão-somente por

meio dos vários movimentos e dos esforços dos corpos tangíveis, no próprio

ato e processo de sua separação; e também pelos sinais das acidulações, das

corrosões, das diversas cores e sabores que os corpos adquirem depois da

separação. Na execução de destilações e separações, por meios artificiais,

trabalharam, certamente, os homens com grande dedicação, mas com tão pouco

êxito quanto nos processos ora em uso, onde agem por tateios e às cegas, com

mais esforço que inteligência; e o pior é que, sem procurarem imitar e estimular

a natureza, mas, ao contrário, têm acabado por destruir, com o uso de calores

demasiado fortes, e forças muito poderosas, os delicados esquematismos, onde

em especial, se encerram as virtudes ocultas e os consensos das coisas. Não é

levada em conta, por outro lado, durante os experimentos, a advertência por nós

já muitas vezes levantada, ou seja, que na separação dos corpos pela ação do

fogo, muitas qualidades estranhas ao composto acabaram interferindo, daí

advindo enganos espantosos. Pois, nem todo vapor que é desprendido pela água

colocada ao fogo era antes vapor ou ar no corpo da água; mas se formou, em

sua maior parte, na ocasião em que a água foi rarefeita pelo fogo.

Do modo por nós preconizado, devem ser feitas comparações mais preciosas,

tanto com corpos naturais quanto com corpos artificiais, procedendo-se à

separação entre o que é verdadeiro e o falso, entre o que é mais nobre e o mais

vil; o que é aqui lembrado, por promover a redução ao sensível, do que não é

sensível. Por isso, tais experimentos devem ser colecionados por toda parte,

com o maior cuidado.

Em relação ao quinto gênero de ocultação,219 é evidente que a ação dos sentidos

se processa no movimento, e o movimento, no tempo. Assim, se o movimento

de um corpo é muito lento ou muito rápido para ser percebido, o objeto acaba

por escapar aos sentidos, o que ocorre com o movimento do ponteiro do relógio

ou da bala do mosquete. O movimento que não pode ser percebido, por ser

muito lento, torna-se facilmente perceptível pela soma de vários movimentos;

mas o que escapa, por ser muito veloz, ainda não pode ser medido com

exatidão; e a investigação natural exige o seu cálculo, em alguns casos.

No sexto gênero, em que os sentidos deixam de perceber o objeto, em vista de

seu grande impacto, promove-se a redução ou por ummaior distanciamento

do objeto; ou atenuando-se os efeitos do objeto pela interposição de algum

meio, mas que não chegue a anulá-los; ou limitando-se à consideração de

apenas os efeitos reflexos do objeto, não afetando a sua intensidade original,

como a imagem do sol refle tindo em um espelho d’água.

O sétimo gênero de ocultação, em que os sentidos ficam tão sobrecarregados e

tomados pelo objeto, a ponto de não permitirem a percepção de nenhum outro,

acontecendo apenas com o olfato e os odores; e não são de importância para o

que ora consideramos. E assim enumeramos o que diz respeito às reduções do

não-sensível ao sensível.

Às vezes, porém, a redução se processa não nos sentidos do homem, mas nos

sentidos de algum outro animal, que em alguns casos são mais penetrantes que

os humanos; é o caso de alguns odores percebidos pelo olfato dos cães, ou da

luz, que fica impregnada no ar exterior não iluminado, e que é percebida pelo

gato; é o caso da coruja e outros animais que vêem à noite. Como bem o indica

Telésio, há no ar uma certa luminosidade que lhe é própria, embora fraca e

tênue, e insuficiente para ser percebida pela maior parte dos animais, inclusive

pelo homem; assim, é possível aos animais com sentidos mais aptos verem à

noite, pois não se pode admitir que vejam sem luz ou com a lguma luz interna.

Deve ser lembrado que nos estamos ocupando tão -somente das deficiências dos

sentidos e de seus remédios. As falácias dos sentidos, por sua vez, pertencem a

uma investigação própria sobre os sentidos e sobre a sensibilidade,220 afora

aquela magna falácia que consiste em estabelecer as linhas das coisas por

analogia com o homem e não por analogia com o universo, que só pode ser

corrigido pela razão e por toda a filosofia.221

XLI

Entre as instâncias prerrogativas, colocamos em décimo oitavo lugar as

instâncias de caminho,222 a que também costumamos chamar de instâncias

itinerantes e instâncias articuladas.223 São as que indicam os movimentos

uniformes e graduais da natureza. Esse gênero de instância escapa mais à

observação que aos sentidos, pois é espantosa a negligência dos homens a seu

respeito. Só estudam a natureza a intervalos ou periodicamente e quando os

corpos já estão acabados e completos, e não em sua operação. Pois bem, se

alguém se dispusesse a considerar o talento e a habilidade de um artífice, teria

que observar não apenas o material empregado e depois a obra acabada, mas

teria que presenciar também as operações do artífice e o desenvolvimento de

sua obra. Esse mesmo comportamento deve ser observado em relação à

natureza. Por exemplo, na investigação sobre a vegetação das plantas, é

necessário começar pelas sementes, observando-as quase diariamente,

enterradas, e retirando-as da terra a intervalos crescentes, primeiro depois de um

dia, a seguir depois de dois, a seguir depois de três, para se poder lobrigar de

que modo e em que momento as sementes começam a inchar e intumescer-se, a

encher-se de espírito; depois, a romper o revestimento emitindo os primeiros

brotos para fora da terra, se estes não forem impedidos pela dureza do terreno;

para se verificar de que modo se lançam as fibras, como as raízes para baixo,

como os ramos para cima, que às vezes se prendem lateralmente, se o terreno

assim o facilita; e assim por diante. Da mesma maneira, devem-se observar os

ovos, nos quais é possível ver os processos de vivificação e organização de

todas as partes, distinguir as partes que procedem da gema das partes que

procedem da clara e outras coisas semelhantes. Da mesma maneira, observar os

animais que nascem da putrefação. No caso dos animais superiores, seria

crueldade abrir continuamente o ventre da mãe, para extrair o feto do útero; a

não ser em casos de aborto