novum_organum
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ocasional, caça e situações semelhantes. Finalmente,

é necessário iniciar uma espécie de vigília noturna para a observação da

natureza, que mais se mostra à noite que durante o dia. De qualquer forma, o

estudo da natureza, em vista da pequenez e da intermitência da lâmpada, pode

ser considerado como empresa noturna.

O mesmo procedimento deve ser tentado com as coisas inanimadas, como o

fizemos por ocasião das observações sobre a expansão dos líquidos ao fogo. De

fato, a expansão ocorre de maneira diversa no leite, no óleo, etc. Isso é mais

fácil de ser observado fervendo-os lentamente em um recipiente de vidro, que

deixa à mostra todas as operações. Todavia, tratamos disso tudo apenas de

passagem, deixando para fazê-lo de maneira mais detida e exata quando

abordarmos o problema da descoberta do processo latente das coisas.224 Deve-se

sempre ter em conta que, aqui, não tratamos das coisas em si mesmas, mas

apenas aduzimos exemplos.

XLII

Entre as instâncias prerrogativas, colocamos em décimo nono lugar as

instâncias suplementares ou substitutivas,225 a que também costumamos chamar

de instâncias de refúgio.226 São as instâncias que oferecem informações em

circunstâncias em que os sentidos faltam completamente, servindo, portanto, de

refúgio quando não se dispõe de instâncias adequadas. A substituição ocorre de

duas maneiras: por graduação ou por analogia. Por exemplo: não se dispõe de

qualquer meio que iniba completamente a força magnética em relação ao ferro;

nem com a interposição do ouro, ou da prata, ou da pedra, ou do vidro, ou da

madeira, ou da água, ou do óleo, ou do pano, ou de corpos fibrosos, ou do ar, ou

da chama, etc. Contudo, através de ensaios meticulosos, pode ser que se

encontre um meio, em proporção e em grau, mais eficiente que outros, de

atenuar a sua virtude. Não chegamos a fazer nenhum experimento nesse sentido,

que se poderia processar segundo o exemplo seguinte: procurando verificar se o

magneto atrai igualmente o ferro, com a interposição de porções da mesma

espesssura de ouro, de ar, ou de prata candente e de prata natural, etc.,

igualmente, ainda não se descobriu nenhum corpo que, aproximado do fogo,

não retenha calor. Mas o ar se aquece muito mais rapidamente que a pedra. E tal

é a substituição que se processa por graus.

A substituição por analogia é, sem dúvida, útil, mas é menos segura, por isso

deve ser aplicada com critério. É a que ocorre quando se coloca o não -

perceptível ao alcance dos sentidos, não através de operações do próprio corpo

não-perceptível, procurando torná-lo sensível, mas através da observação de um

corpo sensível análogo. Por exemplo, tome-se para investigação a mistura de

espír itos, que são corpos não-visíveis, supondo que há certa afinidade entre os

corpos e os seus nutrientes ou alimentos. Os alimentos da chama parecem ser o

óleo e as substâncias graxas; os do ar, a água e os líquidos; de vez que a chama

se multiplica sobre os vapores do óleo e o ar, sobre os vapores da água. Por isso

deve-se observar a mistura da água com o óleo, que se manifesta aos sentidos,

visto que a mistura da chama com o ar se lhes escapa. Por meio da composição

e da agitação, a água e o óleo se misturam de modo muito imperfeito; mas nas

ervas, no sangue e nos organismos em geral, eles se misturam de modo acurado

e delicado. O mesmo pode acontecer em relação à mistura da chama com o ar,

nas substâncias espirituosas; embora não se misturem bem, por meio de fusão,

no espírito das plantas e dos animais, misturam-se perfeitamente. A propósito,

veja-se que todo espírito animado se alimenta do úmido, seja em forma de água,

seja em forma de óleo.

Igualmente, procure-se considerar, não as misturas mais perfeitas dos corpos

espirituosos mas os seus componentes, para se verificar os que se incorporam

com facilidade; ou se há algum gás ou outros corpos espirituosos que não se

misturam com o ar comum, mas permanecem suspensos e flutuam em forma de

pequenos globos ou gotas; e que se espessam e pulverizam no ar, mas nele não

se fundindo ou se incorporando, devido à sua tenuidade tais corpos não podem

ser percebidos pelos sentidos, no ar comum ou em outras substâncias

espirituosas. Mas uma imagem dessa ocorrência, que permite recolherem-se

algumas características do fenômeno, pode ser conseguida através do que

sucede com o mercúrio, o óleo ou a água, como também com o ar, quando se

rompe na água e sobe em forma de pequenas bolhas; como também com fumaça

de tipo mais espesso; situações todas elas em que não ocorre a incorporação. A

representação que se acabou de descrever não é descabida para o caso, desde

que tenha sido prévia e cuidadosamente averiguada a existência entre os corpos

espirituosos da mesma heterogeneidade que entre os líquidos. Só então se

poderá fazer de maneira útil o uso de imagens por analogia.

E o que dissemos antes sobre as instâncias suplementares, que servem de

refúgio para a informação quando não há possibilidade de extrai-las de

instâncias próprias, queremos que seja entendido no sentido de que são de

grande uso ainda na existência de instâncias apropriadas, para corroborarem as

informações destas. Mas sobre isso discorreremos mais amplamente quando

tratarmos dos adminículos da indução.

XLIII

Entre as instâncias prerrogativas, colocamos em vigésimo lugar as instâncias

secantes,227 a que também costumamos chamar de instâncias velicantes.

Velicantes porque beliscam a inteligência, e secantes porque dividem a

natureza, pelo que também, às vezes , as chamamos de instâncias de

Demócrito.228 Tais instâncias previnem o intelecto da admirável sutileza da

natureza, para que desperte e estimule a atenção, a observação e a investigação

no sentido devido. Por exemplo: de como uma pequena gota de tinta é suficiente

para um tão grande número de letras e linhas; de como uma pequena porção de

prata dourada pode formar um tão longo fio dourado, de como um verme tão

pequeno, como o que ataca a pele, pode ter espírito e um corpo organizado; de

como uma mínima porção de açafrão é suficiente para tingir um tonel de água;

de como um pouco apenas de algália ou erva aromática pode inundar todo o

ambiente circundante com o seu perfume; de como apenas uma pequena porção

de matéria combustível levanta um tão grande volume de fumaça; de como as

mínimas diferenças de sons, como a voz articulada, propagam-se pelo ar, em

todas as direções, penetrando e repercutindo pelos poros e interstícios da

madeira, velozes e distintamente; de como, passando por refrações e reflexões, a

luz e o calor penetram corpos sólidos como o vidro e a água, a distância e com

grande rapidez, formando miríades de imagens, diversificadas ao infinito; de

como o magneto atua através dos corpos mais compactos. Mas o que é ainda

mais espantoso é que, em todas essas operações, que se desenvolvem em um

meio transparente como o ar, nada haja que ofereça resistência; pois, no mesmo

instante em que são transportadas, pelo ar, tantas imagens visuais, tantas

impressões de sons articulados, tantos odores diferentes, de violeta, de rosa, etc;

e ainda calor, frio, influências magnéticas; tudo isso, e não se chocam — como

se tivessem caminhos e direções distintas a seguir.

Costumamos, todavia, juntar a essas instâncias secantes estas outras, a que

chamamos de instâncias de divisão.229 Com efeito, nas coisas de que vimos

falando, uma ação não perturba, nem impede outra ação de gênero diverso, mas

submete e extingue as que são do mesmo gênero. A luz do sol domina e

extingue a luz do pirilampo, um tiro de canhão faz o mesmo em relação à voz;

um odor mais intenso suprime o mais fraco; o mesmo faz o calor;