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signos a que antes 
nos referimos graças aos quais se pode concluir que as filosofias e as 
especulações ora em uso andam muito mal \u2014, como também das causas desse 
fato, à primeira vista espantoso e inacreditável. O conhecimento dos signos 
prepara o assentimento, e a explicação de suas causas dissipa qualquer sombra 
de milagre. Ambas as coisas concorrem para a extirpação, de maneira fácil e 
suave, dos ídolos do intelecto. 
LXXI 
As ciências que possuímos provieram em sua maior parte dos gregos. O que os 
escritores romanos, árabes ou os mais recentes acrescentaram não é de monta 
nem de muita importância; de qualquer modo, está fundado sobre a base do que 
foi inventado pelos gregos. Contudo, a sabedoria 3 2 dos gregos era professoral 33 
e pródiga em disputas \u2014 que é um gênero dos mais adversos à investigação da 
verdade. Desse modo, o nome de sofistas, que foi aplicado depreciativamente 
aos que se pretendiam filósofos e que acabou por designar os antigos retores, 
Górgias, Protágoras, Hípias e Polo, compete igualmente a Platão, Aristóteles, 
Zenão, Epicuro, Teofrasto; e aos seus sucessores Crisipo, Carnéades, e aos 
demais. Entre eles havia apenas esta diferença: os primeiros eram do tipo 
errante e mercenário, percorriam as cidades, ostentando a sua sabedoria e 
exigindo estipêndio; os outros, do tipo mais solene e comedido, tinham moradas 
fixas, abriram escolas e ensinaram a filosofia gratuitamente. Mas ambos os 
gêneros, apesar das demais disparidades, eram professorais e favoreciam as 
disputas, e dessa forma facilitavam e defendiam seitas e heresias filosóficas, e 
as suas doutrinas eram (como bem disse, não sem argúcia, Dionísio, de Platão) 
palavras de velhos ociosos a jovens ignorantes.34 Mas os mais antigos dos 
filósofos gregos, Empédocles, Anaxágoras, Leucipo, Demócrito, Parmênides, 
Heráclito, Xenófanes, Filolau e outros (omitimos Pitágoras, por se ter entregue à 
superstição), não abriram escolas, ao que saibamos: ao contrário, e, no maior 
silêncio, com rigor e simplicidade, vale dizer, com menor afetação e aparato, se 
consagraram à investigação da verdade. E a nosso juízo, melhor se saíram, só 
que suas obras, com o decorrer do tempo, foram sendo ofuscadas por outras 
mais superficiais, mas mais afeitas à capacidade e ao gosto do vulgo; pois o 
tempo, como o rio, trouxe-nos as coisas mais leves e infladas, submergindo o 
mais pesado e consis tente. Contudo, nem mesmo eles foram imunes aos vícios 
de seu povo, pois propendiam mais que o desejável à ambição e à vaidade de 
fundarem uma seita e captarem a aura popular. Nada se há de esperar, com 
efeito, da busca da verdade, quando distorcida por tais inanidades. E, a 
propósito, não se deve omitir aquela sentença, ou melhor, vaticínio, do 
sacerdote egípcio a respeito dos gregos: \u201cSempre serão crianças, não possuirão 
nem a antiguidade da ciência, nem a ciência da Antiguidade\u201d.35 Os gregos, com 
efeito, possuem o que é próprio das crianças: estão sempre prontos para 
tagarelar, mas são incapazes de gerar, pois, a sua sabedoria é farta em palavras, 
mas estéril de obras. Aí está por que não se mostram favoráveis os signos 36 que 
se observam na gente e na fonte de que provém a filosofia ora em uso. 
LXXII 
Os signos que se podem retirar das características do tempo e da idade não são 
muito melhores que os das características do lugar e da nação. Naquela época 
era limitado e superficial o conhecimento his tórico e geográfico, o que é muito 
grave sobretudo para os que tudo depositam na experiência. Não possuíam, 
digna desse nome, uma his tória que remontasse aos mil anos, e que se não 
reduzisse a fábulas e rumores da Antiguidade. Na verdade, conheciam apenas 
uma exígua parte dos países e das regiões do mundo. Chamavam 
indistintamente de citas a todos os povos setentrionais e de celtas a todos os 
ocidentais. Nada conheciam das regiões africanas, situadas além da Etiópia 
setentrional, nem da Ásia de além Ganges, e muito menos ainda das províncias 
do Novo Mundo, de que nada sabiam, nem de ouvido, nem de qualquer tradição 
certa e constante. E mais, julgavam inabitáveis muitas zonas e climas em que 
vivem e respiram inumeráveis povos. As viagens de Demócrito, Platão, 
Pitágoras, que não eram mais que excursões suburbanas, eram celebradas como 
grandiosas. Em nossos tempos, ao contrário, tornaram-se conhecidas não apenas 
muitas partes do Novo Mundo, como também todos os extremos limites do 
Mundo Antigo, e assim é que o número de possibilidades de experimentos foi 
incrementado ao infinito. Enfim, se se devem interpretar os signos à maneira 
dos astrólogos, os que se podem retirar do tempo de nascimento e de concepção 
daquelas filosofias indicam que nada de grande delas se pode esperar. 
LXXIII 
De todos os signos nenhum é mais certo ou nobre que o tomado dos frutos. Com 
efeito, os frutos e os inventos são como garantias e fianças da verdade das 
filosofias. Ora, de toda essa filosofia dos gregos e todas as ciências particulares 
dela derivadas, durante o espaço de tantos anos, não há um único experim ento 
de que se possa dizer que tenha contribuído para aliviar e melhorar a condição 
humana, que seja verdadeiramente aceitável e que se possa atribuir às especu-
lações e às doutrinas da filosofia. É o que ingênua e prudentemente reconhece 
Celso 3 7 ao falar que primeiro se fizeram experimentos em medicina, e depois 
sobre eles os homens construíram os sistemas filo sóficos, buscando e 
assinalando as causas, e não inversamente, ou seja, que da descoberta das 
causas se tenham estabelecido e deduzido os experimentos da medicina. Por 
isso não deve parecer estranho que entre os egípcios, que divinizavam e 
consagravam os inventores, houvesse mais imagens de animais que de homens, 
pois os animais com seu instinto natural produziram muito no caminho de 
descobertas úteis, enquanto os homens, com os seus discursos e ilações 
racionais, pouco ou nada concluíram. 
Os alquimistas com sua atividade fizeram algumas descobertas, mas como que 
por acaso e pela variação dos experimentos (como fazem com freqüência os 
mecânicos), não por arte e com método, e isso porque a sua atividade tende 
mais a confundir os experimentos que a estimulá -los. Mesmo aqueles que se 
dedicaram à chamada magia natural fizeram algumas descobertas, mas poucas 
em número e sobretudo superficiais e frutos da impostura. Devemos, em suma, 
aplicar à filosofia o princípio da religião, que quer que a fé se manifeste pelas 
obras, estabelecendo assim que um sistema filosófico seja julgado pelos frutos 
que seja capaz de dar; se é estéril deve ser refutado como coisa inútil, sobretudo 
se em lugar de frutos bons como os da vinha e da oliva produz os cardos e 
espinhos das disputas e das contendas. 
LXXIV 
Outros signos se podem retirar do desenvolvimento e do progresso da filosofia e 
das ciências, porque aquilo que tem o seu fundamento na natureza cresce e se 
desenvolve, mas o que não tem outro fundamento que a opinião varia, mas não 
progride. Por isso, se aquelas doutrinas em vez de serem, como são, 
comparáveis a plantas despojadas de suas raízes tivessem aprofundado suas 
raízes no próprio seio da natureza e dela tivessem retirado a própria substância, 
as ciências não teriam permanecido por dois mil anos estagnadas no seu estádio 
originário; e quase no mesmo estado permanecem, sem qualquer progresso 
notável. Dessa forma. foram pouco a pouco declinando à medida que se 
afastaram dos primeiros autores que as fizeram florescer. Nas artes mecânicas, 
que são fundadas na natureza e se enriquecem das luzes da experiência, vemos 
acontecer o contrário, e essas (desde que cultivadas), como que animadas por 
um espírito, continuamente