O Mal-Estar de uma civilizacao
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O Mal-Estar de uma civilizacao

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das
três fontes de que nosso sofrimento provém: o poder superior da natureza, a
fragilidade de nossos próprios corpos e a inadequação das regras que procuram
ajustar os relacionamentos mútuos dos seres humanos na família, no Estado e na
sociedade. Quanto às duas primeiras fontes, nosso julgamento não pode hesitar muito.
Ele nos força a reconhecer essas fontes de sofrimento e a nos submeter ao inevitável.
Nunca dominaremos completamente a natureza, e o nosso organismo corporal, ele
mesmo parte dessa natureza, permanecerá sempre como uma estrutura passageira,
com limitada capacidade de adaptação e realização. Esse reconhecimento não possui
um efeito paralisador. Pelo contrário, aponta a direção para a nossa atividade. Se não
podemos afastar todo sofrimento, podemos afastar um pouco dele e mitigar outro
tanto: a experiência de muitos milhares de anos nos convenceu disso. Quanto à
terceira fonte, a fonte social de sofrimento, nossa atitude é diferente. Não a admitimos
de modo algum; não podemos perceber por que os regulamentos estabelecidos por nós
mesmos não representam, ao contrário, proteção e benefício para cada um de nós.
Contudo, quando consideramos o quanto fomos malsucedidos exatamente nesse
campo de prevenção do sofrimento, surge em nós a suspeita de que também aqui é
possível jazer, por trás desse fato, uma parcela de natureza inconquistável - dessa vez,
uma parcela de nossa própria constituição psíquica.
Quando começamos a considerar essa possibilidade, deparamo-nos com um
argumento tão espantoso, que temos de nos demorar nele. Esse argumento sustenta
que o que chamamos de nossa civilização é em grande parte responsável por nossa
desgraça e que seríamos muito mais felizes se a abandonássemos e retornássemos às
condições primitivas. Chamo esse argumento de espantoso porque, seja qual for a
maneira por que possamos definir o conceito de civilização, constitui fato
incontroverso que todas as coisas que buscamos a fim de nos protegermos contra as
ameaças oriundas das fontes de sofrimento, fazem parte dessa mesma civilização.
Como foi que tantas pessoas vieram a assumir essa estranha atitude de hostilidade
para com a civilização? Acredito que seu fundamento consistiu numa longa e
duradoura insatisfação com o estado de civilização então existente e que, nessa base,
se construiu uma condenação dela, ocasionada por certos acontecimentos históricos
específicos. Penso saber quais foram a última e a penúltima dessas ocasiões. Não sou
suficientemente erudito para fazer remontar a origem de sua cadeia o mais distante
possível na história da espécie humana, mas um fator desse tipo, hostil à civilização, já
devia estar em ação na vitória do cristianismo sobre as religiões pagãs, de uma vez
que se achava intimamente relacionado à baixa estima dada à vida terrena pela
doutrina cristã. A penúltima dessas ocasiões se instaurou quando o progresso das
viagens de descobrimento conduziu ao contacto com povos e raças primitivos. Em
conseqüência de uma observação insuficiente e de uma visão equivocada de seus
hábitos e costumes, eles apareceram aos europeus como se levassem uma vida simples
e feliz, com poucas necessidades, um tipo de vida inatingível por seus visitantes com
sua civilização superior. A experiência posterior corrigiu alguns desses julgamentos.
Em muitos casos, os observadores haviam erroneamente atribuído à ausência de
exigências culturais complicadas o que de fato era devido à generosidade da natureza
e à facilidade com que as principais necessidades humanas eram satisfeitas. A última
ocasião nos é especialmente familiar. Surgiu quando as pessoas tomaram

conhecimento do mecanismo das neuroses, que ameaçam solapar a pequena parcela
de felicidade desfrutada pelos homens civilizados. Descobriu-se que uma pessoa se
torna neurótica porque não pode tolerar a frustração que a sociedade lhe impõe, a
serviço de seus ideais culturais, inferindo-se disso que a abolição ou redução dessas
exigências resultaria num retorno a possibilidades de felicidade.
Existe ainda um fator adicional de desapontamento. Durante as últimas gerações, a
humanidade efetuou um progresso extraordinário nas ciências naturais e em sua
aplicação técnica, estabelecendo seu controle sobre a natureza de uma maneira jamais
imaginada. As etapas isoladas desse progresso são do conhecimento comum, sendo
desnecessário enumerá-las. Os homens se orgulham de suas realizações e têm todo
direito de se orgulharem. Contudo, parecem ter observado que o poder recentemente
adquirido sobre o espaço e o tempo, a subjugação das forças da natureza, consecução
de um anseio que remonta a milhares de anos, não aumentou a quantidade de
satisfação prazerosa que poderiam esperar da vida e não os tornou mais felizes.
Reconhecendo esse fato, devemos contentar-nos em concluir que o poder sobre a
natureza não constitui a única precondição da felicidade humana, assim como não é o
único objetivo do esforço cultural. Disso não devemos inferir que o progresso técnico
não tenha valor para a economia de nossa felicidade. Gostaríamos de perguntar: não
existe, então, nenhum ganho no prazer, nenhum aumento inequívoco no meu
sentimento de felicidade, se posso, tantas vezes quantas me agrade, escutar a voz de
um filho meu que está morando a milhares de quilômetros de distância, ou saber, no
tempo mais breve possível depois de um amigo ter atingido seu destino, que ele
concluiu incólume a longa e difícil viagem? Não significa nada que a medicina tenha
conseguido não só reduzir enormemente a mortalidade infantil e o perigo de infecção
para as mulheres no parto, como também, na verdade, prolongar consideravelmente a
vida média do homem civilizado? Há uma longa lista que poderia ser acrescentada a
esse tipo de benefícios, que devemos à tão desprezada era dos progressos científicos e
técnicos. Aqui, porém, a voz da crítica pessimista se faz ouvir e nos adverte que a
maioria dessas satisfações segue o modelo do 'prazer barato' louvado pela anedota: o
prazer obtido ao se colocar a perna nua para fora das roupas de cama numa fria noite
de inverno e recolhê-la novamente. Se não houvesse ferrovias para abolir as distâncias,
meu filho jamais teria deixado sua cidade natal e eu não precisaria de telefone para
ouvir sua voz; se as viagens marítimas transoceânicas não tivessem sido introduzidas,
meu amigo não teria partido em sua viagem por mar e eu não precisaria de um
telegrama para aliviar minha ansiedade a seu respeito. Em que consiste a vantagem
de reduzir a mortalidade infantil, se é precisamente essa redução que nos impõe a
maior coerção na geração de filhos, de tal maneira que, considerando tudo, não
criamos mais crianças do que nos dias anteriores ao reino da higiene, ao passo que, ao
mesmo tempo, criamos condições difíceis para nossa vida sexual no casamento e
provavelmente trabalhamos contra os efeitos benéficos da seleção natural? Enfim, de
que nos vale uma vida longa se ela se revela difícil e estéril em alegrias, e tão cheia de
desgraças que só a morte é por nós recebida como uma libertação?
Parece certo que não nos sentimos confortáveis na civilização atual, mas é muito
difícil formar uma opinião sobre se, e em que grau, os homens de épocas anteriores se
sentiram mais felizes, e sobre o papel que suas condições culturais desempenharam
nessa questão. Sempre tendemos a considerar objetivamente a aflição das pessoas -
isto é, nos colocarmos, com nossas próprias necessidades e sensibilidades, nas

condições delas, e então examinar quais as ocasiões que nelas encontraríamos para
experimentar felicidade ou infelicidade. Esse método de examinar as coisas, que
parece objetivo por ignorar as variações na sensibilidade subjetiva, é, naturalmente, o
mais subjetivo possível, de uma vez que coloca nossos próprios estados mentais no
lugar de quaisquer outros, por mais desconhecidos que estes possam ser. A felicidade,
contudo, é algo essencialmente subjetivo. Por mais que nos retraiamos com