O Mal-Estar de uma civilizacao
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O Mal-Estar de uma civilizacao


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em que Napoleão se lavava todas as manhãs. Na verdade, não nos surpreende a 
idéia de estabelecer o emprego do sabão como um padrão real de civilização. Isso é 
igualmente verdadeiro quanto à ordem. Assim como a limpeza, ela só se aplica às 
obras do homem. Contudo, ao passo que não se espera encontrar asseio na natureza, a 
ordem, pelo contrário, foi imitada a partir dela. A observação que o homem fez das 
grandes regularidades astronômicas não apenas o muniu de um modelo para a 
introdução da ordem em sua vida, mas também lhe forneceu os primeiros pontos de 
partida para proceder desse modo. A ordem é uma espécie de compulsão a ser 
repetida, compulsão que, ao se estabelecer um regulamento de uma vez por todas, 
decide quando, onde e como uma coisa será efetuada, e isso de tal maneira que, em 
todas as circunstâncias semelhantes, a hesitação e a indecisão nos são poupadas. Os 
benefícios da ordem são incontestáveis. Ela capacita os homens a utilizarem o espaço e 
o tempo para seu melhor proveito, conservando ao mesmo tempo as forças psíquicas 
deles. Deveríamos ter o direito de esperar que ela houvesse ocupado seu lugar nas 
atividades humanas desde o início e sem dificuldade, e podemos ficar admirados de 
que isso não tenha acontecido, de que, pelo contrário, os seres humanos revelem uma 
tendência inata para o descuido, a irregularidade e a irresponsabilidade em seu 
trabalho, e de que seja necessário um laborioso treinamento para que aprendam a 
seguir o exemplo de seus modelos celestes. 
Evidentemente, a beleza, a limpeza e a ordem ocupam uma posição especial entre as 
exigências da civilização. Ninguém sustentará que elas sejam tão importantes para a 
vida quanto o controle sobre as forças da natureza ou quanto alguns outros fatores 
com que ainda nos familiarizaremos. No entanto, ninguém procurará colocá-las em 
segundo plano, como se não passassem de trivialidades. Que a civilização não se faz 
acompanhar apenas pelo que é útil, já ficou demonstrado pelo exemplo da beleza, que 
não omitimos entre os interesses da civilização. A utilidade da ordem é inteiramente 
evidente. Quando à limpeza, devemos ter em mente aquilo que também a higiene exige 
de nós, e podemos supor que, mesmo anteriormente à profilaxia científica, a conexão 
entre as duas não era de todo estranha ao homem. Contudo, a utilidade não explica 
completamente esses esforços; deve existir algo mais que se encontre em ação. 
Nenhum aspecto, porém, parece caracterizar melhor a civilização do que sua estima e 
seu incentivo em relação às mais elevadas atividades mentais do homem - suas 
realizações intelectuais, científicas e artísticas - e o papel fundamental que atribui às 
idéias na vida humana. Entre essas idéias, em primeiro lugar se encontram os sistemas 
religiosos, cuja complicada estrutura já me esforcei por esclarecer em outra 
oportunidade. A seguir, vêm as especulações da filosofia e, finalmente, o que se 
poderia chamar de 'ideais'do homem - suas idéias a respeito de uma possível perfeição 
dos indivíduos, dos povos, ou da humanidade como um todo, e as exigências 
estabelecidas com fundamento nessas idéias. O fato de essas criações do homem não 
serem mutuamente independentes, mas, pelo contrário, se acharem estreitamente 
entrelaçadas, aumenta a dificuldade não apenas de descrevê-las, como também de 
traçar sua derivação psicológica. Se, de modo bastante geral, supusermos que a força 
motivadora de todas as atividades humanas é um esforço desenvolvido no sentido de 
duas metas confluentes, a de utilidade e a de obtenção de prazer, teremos de supor 
que isso também é verdadeiro quanto às manifestações da civilização que acabamos 
de examinar, embora só seja facilmente visível nas atividades científicas e estéticas. 
Não se pode, porém, duvidar de que as outras atividades também correspondem a 
fortes necessidades dos homens - talvez a necessidades que só se achem desenvolvidas 
numa minoria. Tampouco devemos permitir sermos desorientados por juízos de valor 
referentes a qualquer religião, qualquer sistema filosófico ou qualquer ideal. Quer 
pensemos encontrar neles as mais altas realizações do espírito humano, quer os 
deploremos como aberrações, não podemos deixar de reconhecer que onde eles se 
acham presentes, e, em especial, onde eles são dominantes, está implícito um alto nível 
de civilização. 
Resta avaliar o último, mas decerto não o menos importante, dos aspectos 
característicos da civilização: a maneira pela qual os relacionamentos mútuos dos 
homens, seus relacionamentos sociais, são regulados - relacionamentos estes que 
afetam uma pessoa como próximo, como fonte de auxílio, como objeto sexual de outra 
pessoa, como membro de uma família e de um Estado. Aqui, é particularmente difícil 
manter-se isento de exigências ideais específicas e perceber aquilo que é civilizado em 
geral. Talvez possamos começar pela explicação de que o elemento de civilização entra 
em cena com a primeira tentativa de regular esses relacionamentos sociais. Se essa 
tentativa não fosse feita, os relacionamentos ficariam sujeitos à vontade arbitrária do 
indivíduo, o que equivale a dizer que o homem fisicamente mais forte decidiria a 
respeito deles no sentido de seus próprios interesses e impulsos instintivos. Nada se 
alteraria se, por sua vez, esse homem forte encontrasse alguém mais forte do que ele. 
A vida humana em comum só se torna possível quando se reúne uma maioria mais 
forte do que qualquer indivíduo isolado e que permanece unida contra todos os 
indivíduos isolados. O poder dessa comunidade é então estabelecido como 'direito', em 
oposição ao poder do indivíduo, condenado como 'força bruta'. A substituição do 
poder do indivíduo pelo poder de uma comunidade constitui o passo decisivo da 
civilização. Sua essência reside no fato de os membros da comunidade se restringirem 
em suas possibilidades de satisfação,ao passo que o indivíduo desconhece tais 
restrições. A primeira exigência da civilização, portanto, é a da justiça, ou seja, a 
garantia de que uma lei, uma vez criada, não será violada em favor de um indivíduo. 
Isso não acarreta nada quanto ao valor ético de tal lei. O curso ulterior do 
desenvolvimento cultural parece tender no sentido de tornar a lei não mais expressão 
da vontade de uma pequena comunidade - uma casta ou camada de uma população ou 
grupo racial -, que, por sua vez, se comporta como um indivíduo violento frente a 
outros agrupamentos de pessoas, talvez mais numerosos. O resultado final seria um 
estatuto legal para o qual todos - exceto os incapazes de ingressar numa comunidade - 
contribuíram com um sacrifício de seus instintos, que não deixa ninguém - novamente 
com a mesma exceção - à mercê da força bruta. 
A liberdade do indivíduo não constitui um dom da civilização. Ela foi maior antes da 
existência de qualquer civilização, muito embora, é verdade, naquele então não 
possuísse, na maior parte, valor, já que dificilmente o indivíduo se achava em posição 
de defendê-la. O desenvolvimento da civilização impõe restrições a ela, e a justiça 
exige que ninguém fuja a essas restrições. O que se faz sentir numa comunidade 
humana como desejo de liberdade pode ser sua revolta contra alguma injustiça 
existente, e desse modo esse desejo pode mostrar-se favorável a um maior 
desenvolvimento da civilização; pode permanecer compatível com a civilização. 
Entretanto, pode também originar-se dos remanescentes de sua personalidade 
original, que ainda não se acha domada pela civilização, e assim nela tornar-se a base 
da hostilidade à civilização. O impulso de liberdade, portanto, é dirigido contra 
formas e exigências específicas da civilização ou contra a civilização em geral. Não 
parece que qualquer influência possa induzir o homem a transformar sua natureza na 
de uma térmita. Indubitavelmente, ele sempre defenderá sua reivindicação à 
liberdade individual contra a vontade do grupo. Grande parte das lutas da 
humanidade centralizam-se em torno da tarefa única de encontrar uma acomodação