Jurisprudência Nascituro (3)
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Jurisprudência Nascituro (3)


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nos próximos 
dias. 
A Sra. Ministra Ellen Gracie (Presidente) - Não, 
Ministro Marco Aurélio, em absoluto. O motivo que me leva a adiantar o 
meu voto - o Ministro Carlos Alberto Direito o compreenderá 
perfeitamente - é muito pragmático. 
Esta ação direta ingressou no Tribunal no dia 30 de maio 
de 2005. São, portanto, passados quase três anos, independente da gestão 
que deu ao processo o eminente Relator, o qual fez criteriosamente todas as 
diligências necessárias, inclusive uma muito divulgada audiência pública, 
onde tiveram oportunidade de se manifestar cientistas de um lado e de 
outro. Inobstante tudo isso, o processo hoje em julgamento será trazido por 
Sua Excelência, tenho certeza, em breve. 
O Sr. Ministro Menezes Direito - Se Vossa Excelência 
me permite, há, inclusive, o aspecto particular de não ter sido deferida 
medida cautelar. Portanto, não há nenhum óbice quanto ao prosseguimento 
do processo, independentemente de qualquer pedido de vista à Suprema 
Corte. 
ADI 3.510/DF 
A Sra. Ministra Ellen Gracie (Presidente) - Inobstante a 
inexistência de uma medida liminar, é de conhecimento geral que as 
pesquisas, se não foram paralisadas, sofreram um sensível desestímulo 
durante esse período. Tenho certeza de que Vossa Excelência, com a sua 
diligência, trará o processo dentro em breve. No entanto, esta cadeira me 
traz, infelizmente, a tarefa de rememorar aos Colegas que temos, na fila, 
para serem chamados a julgamento por este Plenário, nada menos que 565 
outros processos. 
Desse modo, peço novamente escusas ao Ministro 
Carlos Alberto Direito e aos Colegas para adiantar o meu voto no sentido 
de acompanhar o eminente Relator. 
Tenho algumas razões do meu convencimento - e as 
farei juntar posteriormente - que coincidem, em larga medida, com as que 
foram brilhantemente desenvolvidas pelo Ministro Carlos Britto. 
Afirmo, em síntese, nessas linhas, que a Casa não foi 
chamada a decidir sobre a correção ou superioridade de uma corrente 
científica ou tecnológica sobre as demais. Volto a frisar, pois já o disse em 
outra ocasião, que não somos uma academia de ciências. O que nos cabe 
fazer, e essa é a província a nós atribuída pela Constituição, é contrastar o 
artigo 5o da Lei n° 11.105 com os princípios e normas da Constituição 
Federal. 
Com todas as vénias ao ilustre proponente da ação, o 
Procurador-Geral da República - agora com uma outra identidade pessoal -
e aos ilustres juristas que secundam a sua posição, não constato vício de 
inconstitucionalidade na referida norma. Não se lhe pode opor, segundo 
entendo, a garantia da dignidade da pessoa humana - artigo 1º, inciso III -, 
nem a garantia de inviolabilidade da vida, pois, conforme acredito, o pré-
embrião não acolhido no seu ninho natural de desenvolvimento - o útero -
não se classifica como pessoa. A ordem jurídica nacional atribui a 
qualificação de pessoa ao nascido com vida. Por outro lado, o pré-embrião 
- ou ao menos aqueles de que aqui tratamos - ou seja, os inviáveis e 
destinados ao descarte - também não se enquadra na condição de nascituro, 
pois a esse - a própria denominação o esclarece bem - se pressupõe a 
ADI 3.510 / DF 
possibilidade, a probabilidade de vir a nascer, o que não acontece com 
esses embriões inviáveis ou destinados ao descarte. 
Faço referência, também, neste voto, à regulamentação da 
matéria, tal como ela se deu na Grã-Bretanha, após um extenso debate 
científico. E verifico que a norma brasileira e a sua regulamentação cercam 
a utilização de células embrionárias das cautelas necessárias a evitar a sua 
utilização viciosa. 
Por essas razões, que estarão bem explicitadas nas 
palavras que escrevi, concluo pela improcedência da ação, conforme o voto 
do Relator. 
05/03/2008 TRIBUNAL PLENO 
AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE 3,510-0 DISTRITO 
FEDERAL 
V O T O 
A Senhora Ministra Ellen Gracie - (Presidente): 
Senhores Ministros, é indiscutível o fato de que a propositura da 
presente ação direta de inconstitucionalidade, pela delicadeza do 
tema nela trazido, gerou, como há muito não se via, um leque sui 
generis de expectativas quanto à provável atuação deste Supremo 
Tribunal Federal no caso ora posto. 
Equivocam-se aqueles que enxergaram nesta Corte a 
figura de um árbitro responsável por proclamar a vitória 
incontestável dessa ou daquela corrente científica, filosófica, 
religiosa, moral ou ética sobre todas as demais. Essa seria, 
certamente, uma tarefa digna de Sísifo. 
Conforme visto, ficou sobejamente demonstrada a 
existência, nas diferentes áreas do saber, de numerosos 
entendimentos, tão respeitáveis quanto antagônicos, no que se refere 
à especificação do momento exato do surgimento da pessoa humana. 
Buscaram-se neste Tribunal, a meu ver, respostas 
que nem mesmo os constituintes originário e reformador propuseram-
se a dar. Não há, por certo, uma definição constitucional do momento 
inicial da vida humana e não é papel desta Suprema Corte estabelecer 
conceitos que já não estejam explícita ou implicitamente plasmados 
na Constituição Federal. Não somos uma Academia de Ciências. A 
introdução no ordenamento jurídico pátrio de qualquer dos vários 
marcos propostos pela Ciência deverá ser um exclusivo exercício de 
opção legislativa, passível, obviamente, de controle quanto a sua 
conformidade com a Carta de 1988. 
ADI 3.510 / DF 
2. Por ora, cabe a esta Casa averiguar a harmonia do 
artigo 5° da Lei 11.105, de 24.03.2005, (Lei de Biossegurança) com o 
disposto no texto constitucional vigente. 
Para tal intento, foram apontados na presente ação, 
como parâmetros de verificação mais evidentes, o fundamento da 
dignidade da pessoa humana (art. 1º, III), a garantia da 
inviolabilidade do direito à vida (art. 5°, caput), o direito à livre 
expressão da atividade científica (art. 5o, IX), o direito à saúde (art. 
6o), o dever do Estado de propiciar, de maneira igualitária, ações e 
serviços para promoção, proteção e recuperação da saúde (art. 196) e 
de promover e incentivar o desenvolvimento científico, a pesquisa e a 
capacitação tecnológica (art. 218, caput). 
Não há como negar que o legislador brasileiro, 
representante da vontade popular, deu resposta a uma inquietante 
realidade que não mereceu maiores considerações na peça inicial da 
presente ação direta.. 
A fertilização in vitro, como técnica de reprodução 
humana assistida, tem ajudado, desde o nascimento da britânica 
Louise Brown, há quase trinta anos, a realizar o sonho de milhares de 
casais com dificuldade ou completa impossibilidade de conceber 
filhos pelo método natural. 
Porém, a utilização desse procedimento gera, 
inevitavelmente, o surgimento de embriões excedentes, muitos deles 
inviáveis, que são descartados ou congelados por tempo indefinido, 
sem a menor perspectiva de que venham a ser implantados em algum 
órgão uterino e prossigam na formação de uma pessoa humana. 
Penso que o debate sobre a utilização dos embriões 
humanos nas pesquisas de células-tronco deveria estar 
necessariamente precedido do questionamento sobre a aceitação 
desse excedente de óvulos fertilizados como um custo necessário à 
superação da infertilidade. 
Todavia, conforme registrado nas manifestações 
juntadas aos autos, essa relevantíssima questão sobre os 
ADI 3.510/DF 
procedimentos de reprodução assistida, apesar da tramitação de 
alguns projetos de lei, nunca foi objeto de regulamentação pelo 
Congresso Nacional, havendo, nessa matéria, tão-somente, uma 
resolução do Conselho Federal de Medicina (Resolução 1.358, de 
11.11.1992). Recorde-se que a primeira brasileira fruto de uma 
fertilização in vitro nasceu em 7 de outubro de 1984. 
Portanto, esse era o cenário fático e lacunoso com o 
qual se deparou o legislador brasileiro em 2005, quando foi chamado 
a deliberar sobre a utilização desses mesmos embriões humanos, 
inviáveis ou já há muito tempo criopreservados, nas promissoras 
pesquisas científicas das células-tronco, já desenvolvidas, em 
diversas e avançadas linhas, nos mais importantes