Jurisprudência Nascituro (3)
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Jurisprudência Nascituro (3)


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A) como 
possibilidade; B) como preformação e portanto predeterminação ou preexistência do 
atual" (Dicionário de filosofia. São Paulo: Ed. Mestre Jou, 1970. pág. 751). Para a 
ADI 3.510/DF 
Stanford Encyclopedia of Philosophy, "a 'dínamis' nesse sentido não é o poder de 
algo para produzir uma mudança, mas uma capacidade de estar em um estágio 
diferente e mais completo" (Disponível em: 
<http://www.science.uva.nI/~seop/entries/aristotle-metaphysics/#ActPot>). 
O texto de Anne Fagot-Largeault (Embriões, Células-Tronco e 
Terapias Celulares: Questões Filosóficas e Antropológicas, in Revista de Estudos 
Avançados da Universidade de São Paulo. 18a ed, 2004. pág. 234), mencionado pelo 
Ministro Carlos Britto, na minha avaliação, revela essa dificuldade conceitual entre as 
duas conotações de &quot;potência&quot;. É que não tenho por compatível, na perspectiva 
aristotélica, a afirmação de que a atualização é promovida por outrem de fora. A 
atualização, na verdade, está no próprio ente. É ato próprio, independente. Isso quer 
dizer que o embrião, mesmo in vitro, não se reduz a algo que depende de uma 
interferência externa para a sua transformação, como a madeira, ou o mármore, caso 
em que, de fato, nada obrigaria a essa atualização. O embrião não é um objeto de 
transformação, mas o sujeito de sua própria atualização. A fertilização in vitro não lhe 
retira a potência, mas apenas o meio em que no atual estado da ciência pode se 
atualizar. 
Penso que o próprio Aristóteles revelou o alcance dos dois sentidos, 
deixando clara a diferença. A escolha adequada de um trecho da Metafísica onde os 
dois sentidos são abordados permite uma fácil distinção entre um e outro: 
&quot;7. É necessário, contudo, distinguir quando uma coisa 
particular existe em potência, e quando não, uma vez que ela não existe 
a qualquer tempo e em todo tempo. Por exemplo, é a terra 
potencialmente um homem? Não, exceto quando já se tomou sêmen, e 
talvez nem mesmo nessa ocasião, tal como nem tudo pode ser curado 
pela medicina, ou até mesmo pelo acaso; havendo algum tipo definido 
de coisa que disso é capaz, sendo isso o que é saudável em potência. 
A definição daquilo que, como um produto do 
pensamento, vem a existir em ato, a partir da potência existente, é que 
quando foi desejado, se não houve o impedimento de qualquer influência 
externa, instaura-se; e a condição no caso do paciente, isto é, na pessoa 
que está sendo curada, é que nela nada deve obstar o processo. Assim, 
também, uma casa existe em potência se nada na coisa que sofre a 
ação, isto é, na matéria, a impede de vir a ser uma casa, e se não há 
ADI 3.510/DF 
nada que tenha que ser acrescentado ou subtraído, ou alterado: isso é 
potencialmente uma casa. E analogamente em todos os demais casos 
nos quais o princípio gerador é externo. E em todos os casos em que o 
princípio gerador está contido na própria coisa, uma coisa é em potência 
uma outra quando - se nada externo o impede - tomar-se por si mesma 
a outra. Por exemplo, o sêmen não é ainda em potência um ser humano, 
pois necessita adicionalmente sofrer uma alteração em algum outro 
meio. Mas quando, devido ao seu próprio principio gerador, chegou a 
reunir os atributos necessários, nesse estado é então um ser humano 
em potência, ao passo que no estado anterior necessitava de um outro 
princípio; tal como a terra não é ainda potencialmente uma estátua, 
porque precisa sofrer uma mudança antes de tornar-se bronze&quot; 
(Metafísica. Bauru: EDIPRO, 2006. pág. 236). 
Essa perspectiva aristotélica, por exemplo, contraria a afirmação de que 
o fato de estar o embrião in vitro, posto que valioso por si mesmo, se assim 
permanecer, jamais será alguém. De fato, Aristóteles tem serventia para afastar essa 
idéia de que o embrião congelado não será alguém fora da recepção uterina. É 
possível dizer o contrário, ou seja, quando há a fecundação ele já é, e se há 
interrupção do que é, aí sim, ele não será. Ele já é ser porque foi gerado para ser, não 
para não ser. 
O embrião não é ente que se transmuda para além de sua essência. É o 
próprio ser em potência e, sobretudo, em essência, em ininterrupta atualização que em 
seus primeiros estágios e, mesmo em cultura, é representada por suas sucessivas 
divisões. 
Como bem expõe Aristóteles, a atualização somente deixará de se 
verificar se algo externo se interpuser ao processo. O desenvolvimento do embrião é 
contínuo e progressivo. Nesse sentido a intervenção do Dr. Dalton Luiz de Paula 
Ramos na audiência pública (fl. 1.063) ao afirmar que o desenvolvimento do embrião 
&quot;é progressivo porque, se oferecermos a ele as condições necessárias, o amparo, a 
acolhida de que precisa, ele sempre passará para o estágio seguinte. Ultrapassada 
uma etapa de desenvolvimento, passa, em condições norvais, à etapa seguinte, sem 
regressos; evoluções que vão compor uma biografia&quot;. 
O coração e o sistema circulatório existem porque estão presentes no 
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embrião em potência; os movimentos somente são possíveis porque os membros já 
existem na essência do embrião, assim como as propriedades da fala e tudo o mais 
que forma e caracteriza o ser humano relacional. Da mesma forma, a estrutura neural 
existe porque há no embrião em potência. Dizer o contrário, na minha avaliação, é 
contrariar a própria natureza das coisas. 
Procura-se achar abrigo com relação ao tema que está em julgamento 
na legislação sobre a morte cerebral. Mas, embora o nascer e o morrer sejam 
processos da existência humana, não creio que se deva confundi-los. 
De todos os modos, poucos se dão conta da enorme controvérsia em 
torno do diagnóstico de morte cerebral a partir da introdução do termo &quot;coma dépassé&quot;, 
coma irreversível, introduzido por MoIlaret e Goulon em 1959. Basta ler o estudo 
oriundo da Clínica Mayo advertindo para erros de diagnóstico de morte cerebral diante 
de circunstâncias outras que não são reconhecidas, como a hipotermia ou a 
intoxicação por drogas (WIJDICKS, Eelco F.M. The diagnosis of brain death. 
Department of Neurology, Neurological Intensive Care.). 
No Brasil, a Lei n° 9.434, de 1997, atribuiu ao Conselho Federal de 
Medicina a definição dos critérios para diagnóstico da morte encefálica. E este regulou 
a matéria com a Resolução n° 1.480, de 1997, estabelecendo que a morte cerebral 
&quot;deverá ser conseqüência de processo irreversível e de causa reconhecida&quot; (art. 3°), 
com os parâmetros clínicos assim definidos: ''coma aperceptivo com ausência de 
atividade motora supra-espinal e apnéia&quot; e mencionando exames complementares a 
serem observados. 
Vê-se, portanto, que esses passos adiante no domínio científico da vida 
e da morte não são dados sem o estabelecimento de regras com a previsão possível, 
na melhor dimensão da humildade do cientista no trato desse mistério. 
Aliás, a utilização da analogia entre vida cerebral e morte cerebral não é 
mais que a representação de uma posição preconcebida acerca da dualidade do 
homem no corpo e no pensamento. Essa dualidade, implícita na herança cartesiana, 
deve, porém, ser superada. O homem é complexo, mas uno. Sua compreensão exige 
uma visão que não o divida, como assinalou Edgar Morin: &quot;(...) a compreensão 
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complexa do ser humano não aceita reduzir o outro a um único aspecto e o considera 
na sua multidimensionalidade&quot; (op. cit., pág. 114). Outra coisa é dizer que o homem 
reúne um complexo de sistemas. Como escrevi em outra oportunidade, sendo 
indivíduos, &quot;sem dúvida, existe uma massa corporal de células geradas de outros 
indivíduos da mesma espécie animal. Enquanto células todos são, também energia, e a 
massa corporal vive e se mantém porque diversos sistemas de células, geradas da 
reunião de gametas, são produzidos a partir do momento em que ocorre a chamada 
fecundação e dão origem aos órgãos que mantêm o funcionamento sistêmico do corpo. 
Antônio Damásio, no livro O Erro de Descartes, tratando de organismos, corpos e 
cérebros, escreve que 'qualquer que seja a questão que possamos