Jurisprudência Nascituro (3)
526 pág.

Jurisprudência Nascituro (3)


DisciplinaTeoria Geral do Direito Privado I32 materiais145 seguidores
Pré-visualização50 páginas
correio eletrônico do Professor 
Luiz Fernando Dale, Médico Especialista em Reprodução Humana pela Universidade 
de Paris V, quanto as conclusões da Sociedade Européia para Reprodução Humana e 
Embriologia - ESHRE dão conta de que o diagnóstico pré-implantação não acarreta 
mais riscos do que o processo de fertilização in vitro por meio de ICSI - HARPER et 
al. ESHRE PGD consortium data collection VII: cycles from january to december 
2004 with pregnancy follow-up to October 2005. in Human Reproduction, v. 23, 
2008. págs. 741 a 755). 
Já se levantou grande objeção a essa técnica de extração de células-
tronco, baseada na totipotência que geralmente se reconhecia nas primeiras células do 
embrião. Nesse sentido, por ter a capacidade de gerar um indivíduo completo, o 
blastômero extraído seria um verdadeiro embrião, pelo que seu uso para gerar uma 
ADI 3.510 /DF 
linhagem de células-tronco atentaria contra a sua vida da mesma maneira que o 
método padrão na fase de blastocisto. 
Essa objeção está, contudo, superada. É que a pesquisa realizada pela 
Doutora Magdalena Zernicka-Goetz identificou as duas primeiras células do embrião 
através de coloração e constatou que cada uma gerava um tipo diverso de tecido, 
permitindo a conclusão de que, mesmo nessa fase, já há uma nítida especialização das 
células, não podendo ser reconhecida a totipotência senão no zigoto (PEARSON, 
Helen. Developmental biology: your destiny from day one. in Nature. 418. págs. 
14/15.jul. 2002). 
Diga-se que a possibilidade de extração de uma única ou duas células-
tronco de um embrião sem destrui-lo já constava de estudos de 2005 como informaram 
Eric Scott Sills, Tackumi A. Takeuchi, Noriko Tanaka, Quennie V. Neri e Gianpero 
D. Palermo (cf. Identification and isolation of embryonic stem cells in 
reproductive endocrinology: theoretical protocols for conservation of human 
embryos derived from in vitro fertilization): 
"Blastômeros obtidos para PGD são geralmente fixados e 
processados com fluoretos de cromo para a detecção de aneuploídias 
através de análise parcial do cariótipo, ainda que o processo tenha 
recentemente evoluído para permitir testes para desordens especificas 
via PCR e para a amplificação do genoma de uma única célula através 
de deslocamento múltiplo amplificado. Esse processo altera 
irreversivelmente o blastômero destinado para PGD - a viabilidade 
dessa célula é sacrificada em prol da obtenção de informações 
genéticas essenciais. Todavia, presumindo que dois blastômeros 
distintos sejam extraídos por uma biópsia para PGD e desde que na 
ausência de mosaicismo cada blastômero detenha potencial para se 
tomar um organismo completo, existe a possibilidade de que um dos 
blastômeros extraídos possa ser mantido em cultura para a produção de 
células-tronco embrionárias. " 
E a geração de células-tronco a partir dessa fonte foi confirmada 
pelos trabalhos de Strelchenko (STRELCHENKO, N. et. al. Morula-derived human 
embryonic stem cells reproductive biomedicine online 9(6), 623-629 2004); 
Klimanskaya (KLIMANSKAYA et. al. Human embryonic stem cell lines derived from 
ADI 3.510/DF 
single blastomeres. Nature 444:481-485 2006, estes citados no Relatório Alternative 
Sources of Human Embryonic Stem Cells. The President's Council on Bioethics) 
e Robert Lanza (CHUNG et. al. Human embryonic stem cell lines generated 
without embryo destruction, in Nature 2(2): 113-117 2008). 
Lanza mostra que a eficiência desse método é comparável àquela do 
método que envolve a destruição do embrião (20% dos embriões dando origem a 
linhagens), bem como que as características das linhagens obtidas em nada se 
diferenciam daquelas obtidas da massa celular interior (ICM - inner cell mass) do 
blastocisto, tendo as três camadas germinais sido identificadas. 
Um levantamento feito por iniciativa da autoridade inglesa responsável 
pela regulamentação das pesquisas com embriões (HFEA - Human Fertilisation and 
Embryonic Authority) dá conta de que a equipe de Robert Lanza obteve 5 (cinco) 
linhagens de células-tronco embrionárias humanas ao mesmo tempo que os embriões 
continuaram a se desenvolver, mas concluiu que ainda seriam necessários mais 
estudos para mostrar o bom desenvolvimento do embrião sujeito à biópsia (RICHERS, 
Helen. Alternatives to embryonic stem cells. HFEA. The Scientific and Clinical 
Advances Group. Disponível em: <http://www.hfea.gov.uk/docs/2008-02-21 SCAG paper -
Alternatives ES cells.pdf>). 
De fato, o estudo menciona a adoção de um método similar ao do 
diagnóstico pré-implantação e, portanto, não-idêntíco, o que poderia levar à conclusão 
de que a diferença poderia acarretar mais riscos ao embrião do que aqueles gerados 
por diagnósticos pré-implantação. 
Para esclarecer esse ponto, entramos em contato direto com o Professor 
Lanza Na resposta, este confirmou que o método de retirada da célula do embrião é o 
mesmo utilizado nos diagnósticos pré-implantação e, por isso, o risco ao embrião é 
mínimo. Disse, ainda, não haver diferença de custo ou de eficiência. 
Mesmo diante da ressalva de que seriam necessários mais estudos 
mostrando que os embriões que sofrem essa intervenção se desenvolvem 
normalmente, e a despeito de ainda não ser adotado como método regular de obtenção 
de células-tronco humanas, o método de Lanza serve para demonstrar que é possível 
ADI 3.510/DF 
compatibilizar a Lei com a Constituição, abrindo espaço para a pesquisa sem atentar 
contra a vida do embrião. 
Diante dos nascimentos saudáveis após o diagnóstico pré-implantação, 
especula-se que os genitores não estariam dispostos a correr riscos autorizando a 
extração de um blastômero de um embrião sobre o qual não pairasse uma razoável 
probabilidade de anomalia genética. A Lei, contudo, trata de embriões congelados por 
pelo menos três anos e de embriões inviáveis. Assim, se a lei presume que os pais 
autorizariam a destruição mesma desses embriões, por que não autorizar a retirada de 
uma única célula sem feri-lo? 
De todo modo, ainda que não haja risco maior para o embrião - e anote-
se que qualquer procedimento em matéria médica envolve sempre algum risco, ainda 
que risco mínimo - , é preciso averiguar eventual ofensa à sua dignidade, que não é 
reduzida pelo só fato de estar o embrião congelado ou ser inviável. A extração de um 
blastômero para fins de produção de uma linhagem de células-tronco não deixaria de 
constituir uma utilização do embrião como meio para o atingimento de um fim, o que 
faz lembrar a censura de Kant. 
Há que se ponderar, todavia, se essa não é uma visão equivocada. Não 
se trata de um embrião produzido apenas para a extração de células-tronco e, ao 
contrário do método padrão, essa extração não resultará na sua destruição, o que não 
inviabiliza os fins naturalmente concebidos para ele. Após a extração, que pode ser 
comparada à doação de uma célula epitelial ou de qualquer outro tecido renovável, e, 
ainda, à doação de um órgão, como o rim, o embrião poderá cumprir seu destino 
natural, isto é, a implantação e o nascimento. 
De acordo com o padrão que a Lei n° 11.105/2005 pretendeu 
estabelecer no Brasil, outra fonte de células-tronco embrionárias para fins de pesquisa 
e terapia é o embrião dito inviável. 
A Lei, contudo, não o define, pelo que talvez fosse o caso de deixar tal 
definição à ciência. 
Ocorre que a ciência não encontra, ainda, uma conceituação precisa. 
Esse termo, em verdade, foi adotado e tem sido utilizado principalmente por 
ADI 3.510/DF 
profissionais envolvidos com os processos de reprodução assistida e tem servido para 
designar o embrião inadequado para fins de reprodução, ou seja, aquele que tem 
menos chance, não só de nascer, mas de vir à luz como um indivíduo saudável. 
Assim é que não há um padrão ou um protocolo rígido para a 
identificação desse embrião inviável. Diversos critérios são hoje aceitos e costumam 
ser aplicados em paralelo em uma mesma clínica ou laboratório. São em geral visuais: 
velocidade da divisão/clivagem, emparelhamento